Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Os anos entre 1939 e 1945 foram duros em praticamente todo o globo. A Segunda Guerra Mundial ceifou a vida de quase 90 milhões de pessoas. Se contarmos os conflitos no Pacífico Asiático, os números são ainda maiores, embora geralmente não sejam incorporados como resultados do grande conflito mundial, europeizado ao ponto de situar seu início apenas na invasão da Polônia pelo imperialismo hitlerista. O Brasil à época sofria com a ditadura do Estado Novo, que, dentre outras coisas, perseguiu a cultura brasileira, em especial a negra e indigena, influenciando no samba, na capoeira, no candomblé, até em questões políticas mais complexas, como a Marcha para o Oeste, que, visando a modernização do país, criou uma nova forma de colonialismo interno.

Vargas, como é bem registrado na historiografia, titubeou sobre o lado que iria apoiar durante a guerra. Determinante foi um acordo com os Estados Unidos que, em troca do envio de soldados brasileiros para o front europeu, recebia ajuda estadunidense para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Um neocolonialismo, para ser mais exato. Foi assim que 25 mil brasileiros – “Barbudos, Sujos e Fatigados”, como apontou o autor Cesar Campiani Maximiano, devido às condições com as quais chegaram para o combate – se dirigiram, principalmente, para a Itália. Muitos deles eram negros, sambistas, musicos em geral. Isso é importante dizer, não apenas pela extensa produção cultural desses artistas-soldados, fartamente documentada pela BBC. No Brasil, ocorria um movimento semelhante; uma guerra interna que se infiltrava, lentamente e de forma determinante, no campo da cultura brasileira e na sua expressão mais simbólica: o carnaval.

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Chegada da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no Quartel de Realengo, Rio de Janeiro, 1945. <br> ( Arquivo Nacional. Fundo Agência Nacional)

Chegada da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no Quartel de Realengo, Rio de Janeiro, 1945.
( Arquivo Nacional. Fundo Agência Nacional)

Os anos de 1945 e 1950 foram a época dourada dessa relação entre os comunistas e o carnaval brasileiro, mais especificamente, o carnaval de avenida, muito presente no sudeste do país. Em meu artigo “Que som tem uma revolução? – música e libertação nacional no Brasil”, desenvolvi essa dialética de forma macro, buscando aspectos mais amplos. O que trago aqui é quase uma micro-história dentro desse amplo campo de disputa. Em 1946, um ano após o final da guerra e do regresso dos pracinhas, o carnaval do Rio de Janeiro foi amplamente divulgado, sendo chamado de “Carnaval da Vitória”, celebrado pelo povo com ainda mais entusiasmo do que quando os soldados embarcaram para a guerra. A prefeitura do Rio de Janeiro, apesar de suas promessas, entregou uma péssima organização para essas comemorações, não fazendo jus à movimentação dos jornais da época, e da população carente de um carnaval mais livre.

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É preciso entender o clima político no país em 1946: Vargas havia sido deposto, e nas eleições de 1945 Eurico Gaspar Dutra se tornou presidente do Brasil. O mesmo Eurico que, sob a chefia de Vargas, comandou a repressão à Intentona Comunista de 1935. O país vivia uma espécie de redemocratização forçada, visto que Getúlio governava desde 1930, e a colaboração brasileira na vitória contra os nazistas e fascistas começou a gerar uma certa contradição entre o povo. De fato, parte das elites e militares também não queriam Vargas no poder. Habemus democracia!

Com o processo de redemocratização, o Partido Comunista do Brasil (P.C.B) voltou à legalidade. Já em 1945, num comício no Rio de Janeiro, 100 mil pessoas se reuniram para ouvir Luís Carlos Prestes, Secretário-Geral do partido. Em 1947, o partido chegou a ter 200 mil militantes registrados. Podemos dizer, sem medo, que foi o auge da popularidade do P.C.B, em termos de influência sobre a grande massa trabalhadora brasileira. Essa influência se estendeu por vários caminhos. Em 1946, na Assembleia Nacional Constituinte, o partido obteve resultado histórico, elegendo 14 deputados federais – dentre eles, Jorge Amado, Maurício Grabois, Carlos Marighella, João Amazonas e Gregório Bezerra – e um senador, Luís Carlos Prestes. No campo cultural, o ano foi importante para reafirmar ainda mais a penetração do partido no carnaval, principalmente o carioca. O Carnaval da Vitória passou pela avenida com 22 escolas, e enredos voltados ao tema da liberdade política, da democracia, homenagens aos heróis da Força Expedicionária Brasileira (FEB), celebrando a paz vindoura pela guerra que aparentava ser a última. Não se sabia ainda que a guerra esfriaria de maneira extremamente quente. Portela, a campeã daquele ano, desfilou com o enredo Alvorada do novo mundo, que demonstra um pouco da visão quase profética de um novo mundo de paz, a mesma paz que Jorge Ben acreditou vir no século 21.

Parte dessa visão, certamente, se dava pela vitória contra o nazismo, e a sensação de que esse seria um expediente anômalo da sociedade, um ponto fora da curva num mundo civilizado. Por outro lado, o prestígio da União Soviética, nos quatro cantos do mundo, pelos seus esforços de guerra, e por conta da sua decisiva participação na vitória, fez muitos crer, até mesmo Kruschev, que uma coexistência pacífica se tornaria a nova realpolitik. Nenhuma das alternativas estavam corretas, e precisamos lembrar, é claro, que menos de 20 anos depois o Brasil cairia numa ditadura ainda pior, e os comunistas seriam ceifados da vida política, pela ação armada ou pela inércia. Sem o desejo de desvelar os porquês sobre os rumos do P.C.B e dos comunistas em geral – algo bem documentado e discutido –, é fato que essa influência do partido teve pouca duração, pois, já em 1947, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o registro do PCB por 3 votos a 2. Em janeiro de 1948, os mandatos dos parlamentares comunistas foram extintos, incluindo o de Prestes.

Dutra e as elites tinham medo dessa influência toda, não sem razão. Naquele carnaval, o Tribuna Popular, um dos principais veículos de comunicação do P.C.B, organizou um desfile no Campo de São Cristóvão. O homenageado: Prestes. Com oito páginas e circulação de terça a domingo, o jornal chegou a bater a marca de 50 mil exemplares diários, e o Tribuna se tornou um braço forte do partido dentro das escolas de samba e seu povo. Prazer da Serrinha, escola que daria origem ao Império Serrano, foi a grande campeã desse “desfile paralelo”, e um fato importante é que o samba vencedor foi escrito por Mano Décio da Viola, um imortal dos sambas-enredo. No carnaval oficial, a influência era tão grande quanto. O P.C.B estava tão inserido dentro da União Geral das Escolas de Samba (UGES), entidade máxima do carnaval à época, que, naquele ano, o próprio Tribuna organizou o concurso Cidadão do Samba. A UGES passou a ser chamada, jocosamente, de “União Geral das Escolas Soviéticas”, fato curioso até mesmo quando da fundação da Federação Brasileira de Escolas de Samba (FBES), em 1947, numa tentativa do poder público de minar a primeira: num primeiro momento, apenas a escola Azul e Branco do Salgueiro migrou de organização. Em 1948, com o P.C.B já cassado, a prefeitura fez uma manobra para que as escolas filiadas à União Geral das Escolas de Samba não recebessem verbas municipais para a realização do carnaval. No ano anterior, a sede da UGES chegou a ser lacrada. Muitos dirigentes – acusados ou não de fazerem parte do P.C.B – se afastaram da UGES para que a organização pudesse sobreviver.

O cerco se fechou, e o P.C.B, que viraria PCB em 1961, somente voltou da clandestinidade em 1985. A influência dos comunistas, não somente no samba, mas na vida social e cultural brasileira, se tornou fraca, quase nula. Hoje, vemos alguns lapsos disso no rap, principalmente com a ascensão de novos nomes da política radical brasileira, algo que, de forma alguma, chega próximo do que foram os curtos anos de casamento entre o P.C.B e o mundo do samba. Mesmo com a perseguição desenfreada, o carnaval de 1946 é lembrado como o carnaval da vitória do socialismo, de Prestes, do P.C.B, da sua linha de massas no âmbito cultural, e da enorme influência que deixou nas escolas de samba do Rio de Janeiro. 80 anos depois, é difícil imaginar como o Brasil poderia viver com essa ambiguidade: nos tornamos uma sociedade em que Lula é chamado de comunista, e os verdadeiros comunistas vivem uma espécie de ilegalidade ilegal, por conta do enfraquecimento do movimento ao longo do século 20, e a derradeira crise com o fim da União Soviética. Mas houve um tempo em que a foice e o martelo acompanhavam o pandeiro.

(*) Marco Aurélio, mais conhecido como Marcola, é estudante de história e fotógrafo documental nas horas vagas. Escreve e pesquisa o rap, o samba e outros temas da cultura popular brasileira.