200 anos do Congresso do Panamá: os 18 meses entre a convocação e o encontro
Da euforia de Ayacucho às disputas entre as novas repúblicas, 18 meses definiram os limites do projeto de integração de Bolívar
Ao convocar o Congresso Anfictiônico do Panamá, Bolívar não pretendia criar uma pátria unificada das antigas colônias. Seu objetivo era mais pragmático e politicamente viável: estabelecer uma associação ou confederação de Estados em vias de se consolidarem de maneira autônoma, capazes de coordenar suas políticas diante dos desafios comuns. Tratava-se da primeira tentativa de criar um organismo multilateral latino-americano, uma espécie de Sociedade das Nações americana, antes mesmo da Liga das Nações existir.
Entre a convocação do Congresso, em 7 de dezembro de 1824, e sua abertura, em 22 de junho de 1826, houve um intervalo de intensa atividade política e diplomática. Neste período, o projeto integracionista bolivariano enfrentou obstáculos que, guardadas as devidas proporções, são impeditivos até os dias atuais para a realização do sonho de Bolívar. Pela primeira vez, a independência parecia suficientemente consolidada para que as novas repúblicas pudessem discutir seu futuro coletivo e, após a convocatória enviada de Lima em dezembro de 1824, iniciou-se uma complexa negociação diplomática.

Simón Bolivar e Francisco Santander durante o Congresso de Cúcuta.
(Foto: Ricardo Acevedo Bernal – 1926 / Quinta Museo de Bolivar)
A princípio foram convidados os governos da Grã-Colômbia, do Peru, do México e das Províncias Unidas da América Central. Posteriormente, foram convidados o Chile, a Bolívia, as Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina), o Império do Brasil e os Estados Unidos da América. Não foram convidados o Haiti, primeiro país independente das Américas, o Paraguai e a Província Cisplatina (atual Uruguai), que estava sob domínio do Império do Brasil. Importante ressaltar que o objetivo inicial de Bolívar era reunir os recém independentes territórios hispano-americanos, que haviam sido colonizados pela Espanha; não havia ainda o ideal latino-americano propriamente dito.
O convite aos EUA gerou um intenso debate entre Bolívar e Santander, que defendeu o convite sobretudo para as discussões sobre comércio e direito internacional. O governo de John Quincy Adams (que tinha sido o secretário de Estado de Monroe no governo anterior) aceitou participar, mas a autorização do Congresso estadunidense demorou meses para ser aprovada devido aos debates sobre o tema. Quando os delegados finalmente partiram, um morreu durante a viagem e o outro chegou ao Panamá depois do encerramento das sessões.
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Por outro lado, Bolívar também convidou o Reino Unido e os britânicos aceitaram enviar um observador porque viam na consolidação das novas repúblicas excelentes oportunidades comerciais e uma forma de manter sua influência na região. Ao mesmo tempo, buscavam evitar que uma futura cooperação de ex-colônias hispano-americanas organizasse expedições militares para libertar Cuba e Porto Rico, ainda sob domínio espanhol.
O intervalo entre Ayacucho e o Congresso do Panamá foi o breve momento em que o ideal bolivariano alcançou seu ponto máximo de viabilidade histórica. Em dezembro de 1824, a vitória militar criava a expectativa de que a independência pudesse ser imediatamente seguida pela integração. Durante os 18 meses seguintes, entretanto, foram se afirmando as prioridades nacionais, as disputas internas e as divergências entre as novas repúblicas. Assim, quando os delegados finalmente se reuniram no Panamá, o impulso unitário produzido por Ayacucho já havia começado a ceder lugar à lógica da construção dos Estados nacionais. Essa sequência ajuda a explicar por que o Congresso representou, ao mesmo tempo, o auge e o início do declínio do projeto político de Bolívar: foi o momento em que a unidade latino-americana pareceu mais próxima de se concretizar, mas também quando se tornaram evidentes os obstáculos que impediriam sua realização.
Possivelmente o aspecto mais importante desses 18 meses que separam a convocatória da realização do encontro seja a mudança gradual do ambiente político. Em dezembro de 1824 predominava o entusiasmo provocado pela vitória militar coroada em Ayacucho. Ao longo de 1825 e início de 1826, porém, começaram a aparecer as rivalidades entre as novas repúblicas, o fortalecimento de seus interesses nacionais, dificuldades financeiras após anos de guerra, as disputas internas pelo poder e muitas desconfianças em relação ao protagonismo de Bolívar. Quando o Congresso finalmente abriu seus trabalhos, em junho de 1826, o contexto já era muito menos favorável do que no momento da convocação.
(*) Ana Prestes é Cientista Política e Historiadora. Escritora. Analista Internacional. Participa do programa RodaMundo do Opera Mundi no YouTube.























