Segunda-feira, 8 de junho de 2026
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Todos os anos, o 25 de maio é celebrado como o Dia da África. A data marca a criação da Organização da Unidade Africana, em 1963, antecessora da atual União Africana, e simboliza a luta dos povos africanos por soberania, independência e unidade continental. Em muitos países, há festivais culturais, discursos políticos, homenagens e publicações exaltando a riqueza histórica e cultural africana. Contudo, para muitos africanos, a data também desperta um sentimento de inquietação: o que realmente há para celebrar quando tantas feridas do continente continuam abertas?

Essa perspectiva crítica aparece de maneira contundente no artigo publicado pelo jornal angolano Novo Jornal, intitulado “O 25 de Maio, o dia de África, mas que ainda não é o Dia da Unidade Africana”. O autor questiona o entusiasmo em torno da comemoração enquanto o continente permanece marcado por guerras, corrupção, dependência econômica, crises sanitárias, golpes de Estado e desigualdades profundas. Segundo ele, ainda existe uma distância enorme entre o ideal de unidade africana proclamado em 1963 e a realidade vivida pela maioria da população africana.

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Mulheres da etnia Karo, na Etiópia.
(Foto: Rod Waddington / Flickr)

Essa mesma percepção apareceu em uma entrevista realizada com o estudante angolano Manuel Kalangangu Júnior, estudante de Gestão Bancária e Seguros. Ao ser perguntado sobre porquê o Dia da África ainda não é totalmente um dia de celebração, Manuel respondeu que o continente continua enfrentando problemas que não correspondem à sua riqueza natural e humana. “Temos recursos naturais, cultura, juventude e inteligência, mas muitos povos ainda vivem com pobreza, guerras, fome, corrupção, desemprego e dependência externa”, afirmou.

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A fala do estudante toca em um ponto central: a África continua sendo uma das regiões mais ricas do planeta em minerais estratégicos, petróleo, biodiversidade e potencial humano, mas grande parte dessa riqueza não retorna para os próprios africanos. Durante séculos, o continente foi explorado pelo colonialismo europeu; hoje, muitos analistas apontam a existência de um neocolonialismo econômico, em que empresas e potências estrangeiras continuam controlando matérias-primas, mercados e decisões políticas.

Manuel também chama atenção para outra dimensão importante: a colonização mental e cultural. Para ele, muitos africanos ainda valorizam mais aquilo que vem da Europa ou dos Estados Unidos do que aquilo que é produzido dentro do próprio continente. “Somos colonizados culturalmente quando muitos jovens conhecem mais a história da Europa e da América do que a história da África”, disse. Essa afirmação revela um problema profundo herdado do colonialismo: o apagamento das memórias africanas e a desvalorização das identidades negras.

Além disso, o entrevistado amplia a reflexão ao lembrar que a dor do povo negro não termina dentro da África. O racismo, a violência policial, a discriminação e a desigualdade continuam afetando populações negras em várias partes do mundo. Assim, o Dia da África também se conecta às lutas da diáspora africana, especialmente nas Américas e na Europa, onde descendentes africanos seguem enfrentando os impactos históricos da escravidão e do colonialismo.

Entretanto, fazer uma crítica ao continente não significa negar sua potência. Pelo contrário: a crítica nasce justamente porque existe esperança. África é hoje um dos continentes mais jovens do mundo, com uma produção cultural vibrante, intelectuais influentes, movimentos sociais fortes e crescente protagonismo internacional. Países africanos têm desenvolvido iniciativas importantes nas áreas de tecnologia, educação, integração econômica e preservação cultural. O problema não é a ausência de capacidade africana, mas os obstáculos históricos e estruturais que continuam impedindo essa capacidade de florescer plenamente.

Por isso, talvez o 25 de Maio não deva ser apenas um dia de celebração vazia ou de discursos simbólicos. Deve ser, acima de tudo, um dia de consciência política, memória histórica e compromisso coletivo. Celebrar a África não pode significar apenas vestir roupas estampadas, publicar frases bonitas nas redes sociais ou repetir slogans sobre unidade africana. Celebrar a África deveria significar defender educação de qualidade, combater a corrupção, valorizar a produção intelectual africana, fortalecer a soberania econômica e enfrentar as permanências do colonialismo.

Como afirmou Manuel Kalangangu Júnior, “África merece celebração, sim. Mas merece, acima de tudo, transformação.” Talvez seja exatamente esse o verdadeiro sentido do Dia da África: não comemorar uma liberdade completa que ainda não existe, mas renovar a luta para que ela finalmente se torne realidade.

(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.