Observações sobre a marcha em Buenos Aires

Além dos manifestantes, o governo argentino também deve se preocupar com os descontentes que ficaram em casa

Mario Wainfeld - Pagina/12

A marcha desta quinta-feira (08/11) superou, em termos de público, os panelaços de setembro. A quantidade numérica de participantes será objeto de disputa. O setor que a organizou, quem participou, os grandes meios de comunicação e a direção da oposição consideraram a marcha um golaço e um sucesso que superou suas expectativas. À primeira vista, ampliou-se o número de participantes, mas não se enriqueceu o espectro social.

Uma multidão se fez presente no tradicional epicentro na Cidade Autônoma. Também houve mobilizações em diferentes cidades de várias províncias. O número no espaço público sempre indica algo. O nível da manifestação de ontem foi elevado, um sintoma do afã de um setor da cidadania de “disputar a rua” com o kirchnerismo. O envolvimento de minorias usualmente não ativas amplia o campo democrático. Sua participação e as coberturas militantes de tantos meios de comunicação deram testemunho de uma ampla liberdade de expressão.

A ação direta não é uma novidade na Argentina, tampouco que ela seja utilizada contra o atual governo. Greves incluindo serviços públicos muito sensíveis, bloqueios de ruas e estradas, ocupações de estabelecimentos ou escolas e atos similares são um dado cotidiano. É lógica instrumental: a ação direta é, em média, proveitosa para quem a promove. Quando reivindica alguma questão específica, vale mais ainda. Não é este o caso.

Há algo central nas mobilizações de 13 de setembro e 8 de novembro, que as distingue nitidamente das (para citar exemplos memoráveis, não únicos) convocatórias de Juan Carlos Blumberg ou os bloqueios e mobilizações “do campo”. É sua absoluta carência de reivindicações precisas, objetivos imediatos acessíveis, lideranças visíveis e (aspecto não menor) oradores que as expressem, sintetizem ou enquadrem no encerramento dos atos. 

Há quem veja pura virtude nessas ausências, que o cronista lê como um limite severo. Sua presença, supõe este escriba, poderia assinalar o potencial de outras manifestações. Em setembro, estava anunciado que haveria outro ato e que seria maior. A repetição no futuro poderia ser mais trabalhosa, ainda que nenhum futuro esteja escrito totalmente de antemão.

Espontaneidade e prêmios

O cronista não acredita que as marchas espontâneas “valem” mais que as organizadas. Inclina-se mais pelo oposto. Pessoas antipolíticas ou auto-designadas apolíticas defendem o contrário. Houve quem quis embelezar os idos de setembro atribuindo-lhes esse “dom”. Desta vez, a maquiagem foi impossível já que proliferaram os convocadores. O editorial de ontem do jornal La Nación, que convoca a superar “o medo” e se jacta da própria constância republicana, ganhou a medalha de ouro. Sua desenvoltura ao evocar o passado, omitindo o apoio que deu ao golpe e à ditadura também merece seu troféu: um Guinness da hipocrisia e da mentira.

A cobertura dos meios de comunicação dominantes durante as semanas prévias ao ato e dos dias vindouros exalou pertencimento. La Nación online se valeu das redes sociais para comprovar que o repúdio anti-K disse “presente” em todo o planeta. Começou na Austrália, como os festejos de fim de ano: 32 assistentes. O fato de massas se ramificou em Paris, Roma, Viena e outros locais, incluindo o Azerbaijão. Deveras.

Um fantasma percorre o mundo, poderia se dizer, se a frase não fosse de quem fosse. O exagero varia entre o simpático e o cômico (você dirá) além de ser muito sintomático. Tornar-se grande é o lema. O governo da Província de Buenos Aires difundiu “cifras oficiais” do protesto que convocou. O Clarín online as tomou como verdade revelada. Pouco sério...

Incentivo, convoco, não vou

Dirigentes opositores trataram de capitalizar a marcha, sem contrariar seus participantes que alegam não querer ser “usados”. Alguns poucos foram à manifestação. Interpelaram “o povo”, ainda que prometendo não fazer isso. “É a sociedade civil que se expressa” e “não devemos perturbar o ato” foram, com matizes mínimos, os argumentos mais repetidos. Há uma inescapável contradição nesse endeusamento de uma sociedade encapsulada e o chamado para que ela se mova. Mauricio Macri e Elisa Carrió incorreram nela, sem problema algum.

Os manifestantes, conforme seus cartazes mostraram, têm como consignas preferidas os “Não” e os “Basta”. Isso pode servir para o protesto, não para articular uma força com potencial de governar.

O afã dos dirigentes que chamam e não vão é mostrar uma improvável unidade de 46% que votou fora do kirchnerismo em dezembro. E comandar esse coletivo para ir mais adiante. Vários obstáculos interferem com essa tática, não tão diferente a do Grupo A, a partir de 2008. O primeiro é que esse “coletivo 46” exista enquanto tal, unido e organizado. O segundo, mais específico, é que uma alternativa político-eleitoral requer um esboço de programa. O cientista político e jornalista José Natanson acerta no alvo quando assinala em um artigo publicado no Le Monde Diplomatique que não há na praça uma oferta de programa econômico alternativo ao oficialista.

Tampouco emerge uma força não-K que interpele com certo êxito a distintos setores sociais. Com ironia, Natanson lembra aqueles que “vociferam contra o populismo oficialista” que “o kirchnerismo é, como toda experiência populista, um movimento policlassista”. Sem base social ampliada nem projeto articulado, a oposição se pendura no pescoço dos manifestantes.

A parte e o todo

A vulgata midiática e “a Opo” falaram do “povo” ou da “cidadania” como se a parcialidade de ontem expressasse toda a sociedade. Não se sabe em que lugar ficam os que pensam diferente. Que matemática os leva a avaliar que uma marcha mede melhor a legitimidade que um rotundo veredito eleitoral recente.

O kirchnerismo, por sua vez, deveria evitar a tentação de confundir a parte com o todo. Em dois sentidos. Um, bastante trilhado no oficialismo, seria reduzir a pluralidade dos manifestantes a seu ramo mais odioso, que existe e se faz notar. Mas a extrema direita na Argentina é minoritária e espanta votos, diferente do que ocorre no Chile, por exemplo. Esses grupos colocam toda sua munição a mostra, é certo, mas jamais somam tanto. Se pudessem o teriam feito em Comodoro Py, ante cada sentença exemplar contra os repressores.

Outra má leitura seria acreditar que os que saíram para a rua são os únicos que questionam, que rechaçam (mesmo que em parte) suas políticas públicas ou que tiveram contrariados interesses próprios no mandato da presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Sim, há descontentamento para além dos manifestantes. Problemas de gestão, erros em determinadas políticas impactam o cotidiano de muitas pessoas. Ou seja, sim, há argentinos que ficaram em casa (em relação aos quais é bom prestar atenção) descontentes ou menos de acordo do que um ano atrás. Isso é, em rigor, uma obrigação constante do governo. Fatos como o 8 de novembro devem induzir a revisões ou olhares mais panorâmicos que transcendem as visões mais imediatas. Sem abandonar o contrato eleitoral, é o caso de confirmá-lo.

Esta nota foi escrita sobre a marcha, da dupla acepção possível. São as primeiras acepções. Deverão ser ampliadas e melhor precisadas nos próximos dias, quando o calor der uma trégua.

mwainfeld@pagina12.com

*Artigo republicado originalmente pela Carta Maior

 

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