Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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Lembro daqueles dias tão trágicos e tristes. Estava numa atividade no Paraná com o fotógrafo Sebastião Salgado quando o massacre aconteceu. Voltamos rápido para São Paulo. Sebastião conseguiu chegar a Marabá, no Pará, e suas fotos foram fundamentais para denunciar o caso em todo o mundo.

Naqueles dias de abril de 1996, três mil pessoas marchavam no sul do Pará em direção a Belém, para exigir o assentamento em uma fazenda grilada de terras públicas e trabalho escravo.

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Brasília - Cerca de 18 mil militantes participam da marcha de encerramento do 5º Congresso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). <br> (Foto: Wilson Dias / ABr)

Brasília – Cerca de 18 mil militantes participam da marcha de encerramento do 5º Congresso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
(Foto: Wilson Dias / ABr)

Os Sem Terra caminhavam de forma ordeira. No meio do trajeto, dois pelotões da Polícia Militar do Pará cercaram a marcha dos dois lados. Os soldados não tinham identificação e portavam armas letais.

O massacre aconteceu pretensamente para desobstruir uma estrada que não estava parada. 19 trabalhadores foram assassinados, de forma estúpida, na hora. Outros dois morreram depois de hospitalizados. Mais de 70 pessoas ficaram com sequelas, que dificultam o trabalho na agricultura.

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A justiça não existiu. Apenas dois comandantes foram condenados a 240 anos. Passaram seus dias em apartamentos de luxo em guarnições militares de Belém.

A investigação do envolvimento da mineradora Vale, denunciado pelos advogados dos comandantes, não foi pra frente. O secretário de segurança do Pará, que ordenou a desobstrução da estrada, foi inocentado.

Eram tempos do neoliberalismo do governo FHC, que desdenhava da reforma agrária. Sob pressão, desapropriou a fazenda reivindicada, que hoje é o próspero assentamento “17 de Abril”.

O massacre teve repercussão mundial. O livro Terra, com fotos de Sebastião, textos do escritor José Saramago e um CD de Chico Buarque, rodou o mundo em exposições.

Nosso movimento realizou uma marcha nacional um ano após o massacre. Caminhamos 1.500 km para ir a Brasília exigir justiça e reforma agrária. Na chegada, em 17 de abril de 1997, a cidade parou e fomos recebidos por mais de cem mil pessoas com um ato público em frente ao Congresso Nacional.

Depois disso, o governo FHC acelerou as medidas e foi o período que tivemos mais desapropriações em toda a história da reforma agrária.

Depois de três décadas, seguimos a luta, uma vez que a concentração da propriedade da terra continua cada vez maior, com adoção do modelo do agronegócio.

Atualmente, os conflitos estão mais presentes na fronteira agrícola, onde o capital predador se apodera dos bens da natureza e enfrenta a resistência dos povos camponeses, indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

De nossa parte, percebemos que não tem mais viabilidade o modelo da reforma agrária clássica, com base na democratização da propriedade da terra e na integração dos camponeses na vida econômica do país.

O Estado, a burguesia industrial e parte dos governos não têm interesse nessa reforma agrária, que foi fundamental para o desenvolvimento dos atuais países industrializados.

Agora, defendemos um novo modelo, a reforma agrária popular, para atender às necessidades de todo o povo brasileiro. Para isso, segue a luta para eliminar o latifúndio improdutivo e pela retomada das desapropriações.

No entanto, nosso programa prevê a defesa da natureza, com plano de reflorestamento e desmatamento zero, e a produção de alimentos saudáveis.

Para isso, propomos a adoção da agroecologia e implementação das agroindústrias para beneficiar alimentos e produzir os insumos.

O massacre marcou a história do país e o 17 de abril se transformou em dia de luta pela Reforma Agrária no Brasil e no mundo. Depois de 30 anos, as ações realizadas em memória dos mortos na luta mantêm acesa a chama da luta pela democratização da terra e justiça social no nosso país.

(*) João Pedro Stédile é economista e integrante da coordenação nacional do MST