Roteiro de guerra na Síria segue trama de filme B

Obama e Cameron, Kerry e Hague vão atacar antes que se possa esclarecer a verdade

Pedro Aguiar

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...E então, no clímax do filme, o comboio de inspetores da ONU freia bruscamente sob a rajada de metralhadoras e uma saraivada de baladas destroça os para-brisas e esburaca a lataria. A câmera sobe, a grua revela uma cidade cinzenta entre colinas secas, na qual se erguem colunas de fumaça e tiros são ouvidos ao longe. Corte para a Casa Branca, onde o determinado presidente, após desligar o telefone privativo, soca a mesa e balbucia alguma frase de efeito ensaiada do tipo “Agora chega. É isso, rapazes. Vamos lá acabar com eles”.

Seria apenas cômico se a cena acima se limitasse a alguma produção de segunda linha de Hollywood, dessas que anos depois passam na televisão numa noite de domingo, para deleite de mentes cansadas de raciocínio. Mas a trama completamente ilógica, apesar de parecer escrita por um roteirista mal pago, é a que está sendo desenhada para justificar a próxima aventura de Barack Obama e seus falcões de guerra: a intervenção ocidental na Síria.

Agência EFE

Inspetores da ONU estão na Síria e verificam o suposto ataque com armas químicas

O ataque desta segunda de manhã (26) contra o comboio dos inspetores de armas químicas da ONU – cuja ida ao bairro de Ghouta, em Damasco, local do ataque com gás tóxico na sexta-feira (23), tinha sido autorizada na véspera pelo governo de Bashar al-Assad – parece ser apenas mais um “arenque vermelho”, como diz o jargão norte-americano para fatos montados para desviar a atenção do verdadeiro problema. Além de mudar a pergunta-chave (que não é “se usaram armas químicas”, mas sim “quem cometeu o ataque”), o esforço retórico anglo-americano agora se concentra em criar um pretexto para a intervenção unilateral sem autorização da ONU (em que a Rússia usaria o veto), assim como foi a balela das “armas de destruição em massa” nunca encontradas no Iraque.

Não há, até agora, nada sequer indicando que o ataque químico de Ghouta tenha sido cometido pelo regime de Assad. O que se sabe, inclusive gravado em imagens, é que o gás foi lançado por foguetes rudimentares, muito aquém das armas sofisticadas que se supõe que as forças armadas sírias tenham. A quantidade de deserções ocorridas entre militares do país desde 2011 pode, muito bem, ter feito rebeldes porem as mãos em parte do arsenal químico – e o lado perdendo parece ter menos escrúpulos em recorrer a massacres.

Tiro no pé

Para fazer algum sentido, os personagens desse filme de Sessão das Dez teriam no mínimo de ter objetivos retos, não tortuosos. Por que um regime que já se encontrava em vantagem no terreno iria ter o desatino de massacrar civis não combatentes, especialmente num momento em que a guerra de atrito o favorece, minando a capacidade de mobilização dos rebeldes? Por que utilizar armas não convencionais, quando o uso de armas de fogo já estava em prática há anos sem causar alarde internacional? Por que logo três dias depois da chegada dos inspetores da ONU à capital, hospedados a poucos quilômetros dali, no que seria uma afronta sem qualquer ganho político? E por que Ghouta, um subúrbio residencial, de baixa densidade e ocupação semi-rural, sem nenhum alvo estratégico militar ou político? E por que, responda Alá se puder, menos de 24 horas depois de autorizar a entrada dos inspetores da ONU no local do massacre, Assad armaria uma emboscada abrindo fogo contra eles, tudo sob os holofotes da CNN, da BBC e da Al Jazeera?

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O regime baathista é inteligente o suficiente para saber que ordenar um ataque com armas químicas contra civis totalmente desconectados da luta nas fuças da ONU seria um tiro não só no pé, mas no coração. Já os rebeldes, como atesta o desenrolar dos acontecimentos, tinham muito a ganhar. Provocaram reação das potências militares ocidentais em larga escala, ganharam a opinião pública euro-americana e conseguiram finalmente um fato para mobilizar a intervenção. Isso tudo sem que nada, absolutamente nada tenha vindo à tona para ligar Assad ao massacre até agora.

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Obama e Cameron, Kerry e Hague não vão deixar escapar a oportunidade e vão atacar antes que se possa esclarecer a verdade. Não querem saber de provas, assim como W. Bush não quis nada além de uma fita mal traduzida do árabe para decretar que Osama bin Laden tinha sido responsável pelo 11/9, ou que fotos borradas tiradas por satélite no Iraque seriam de tubos para construir bombas atômicas a despeito de todos os relatórios técnicos e de inteligência. Aliás, o currículo dos democratas na Casa Branca não deixa nada a invejar à claque republicana neocon nos seus longos e desastrosos oito anos de desventuras imperialistas no Iraque e no Afeganistão. Foram os Clinton (com a articulação política do atual vice, Joe Biden) que bombardearam o Iraque primeiro, em 1993, que intervieram na Bósnia arbitrariamente contra apenas um dos três lados em conflito, em 1995, e que criaram o precedente da agressão ignorando a ONU e o direito internacional sob a forma de campanha aérea maciça, ao bombardear a Iugoslávia (na prática, a Sérvia) sob o frágil pretexto humanitário do Kosovo, em 1999.

Pergunta errada

Não é por acaso. O New York Times noticiou na própria sexta que a equipe de “segurança nacional” (contra a qual Assad representa alguma ameaça?!) de Obama já está estudando a “Operação Força Aliada”, como foi chamada a agressão à Iugoslávia, como paradigma para a futura ação na Síria. O modelo da campanha aérea, sem tropas no chão, deve ser mantido. O bypass sobre o Conselho de Segurança também, inoculando o poder de veto da Rússia. Resgatar a hipócrita doutrina da “responsabilidade de proteger” – não casualmente, criada nos anos 90 e defendida pela então jornalista e atual embaixadora dos EUA na ONU, Samantha Power – será outro ponto em comum para esta nova “guerra humanitária”. Para justificativa diplomática, Obama disse pessoalmente na CNN que precisaria de “provas”; apenas não especificou provar o quê. Em lugar de desvendar a autoria, a lupa de Washington e Londres vai se contentar apenas em determinar o óbvio: a natureza tóxica dos ataques.

Que foram armas químicas, foram. Disso não há dúvida. Mas acusar o regime de Assad de autoria é de uma leviandade tamanha neste momento em que tudo parece apontar no sentido contrário, para os rebeldes. A única explicação para atribuir o massacre ao governo sírio é descolada dos fatos e das evidências no terreno e serve apenas ao interesse belicoso dos Estados Unidos e seus capangas britânicos em saciar a sede do complexo industrial-militar euro-americano. Depois da retirada do Iraque, da diminuição das operações no Afeganistão e da “rápida e eficaz” (e também sangrenta) intervenção na Líbia, os vendedores de armamento e munição precisam escoar suas produções. Pobre e incompreendida indústria de armas! Como poderia bater suas metas de vendas se não houvesse guerras?

Assim, a Lockheed Martin, a Douglas, a GD, a Raytheon e a Boeing podem reajustar suas planilhas para 2013. A Casa Branca a Downing Street vão fazer de tudo para assegurar que fechem o ano em saldo positivo. Nem que, para isso, tenham de escrever um roteiro mirabolante, tão inverossímil e boçal quanto os da Kathryn Bigelow. Infelizmente, a exibição não será exatamente num cinema perto de você.

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