Quando Hugo Chávez morreu

O extenso período de incerteza sobre a saúde do presidente havia chegado ao fim. O que iria acontecer dali em diante?

Marina Terra

O dia 5 de março de 2013 começou agitado. Apesar de o estado de saúde de Hugo Chávez estar cercado de incertezas e especulação desde o embarque do presidente venezuelano para Cuba, em 9 de dezembro do ano anterior, a movimentação dos ministros e de Nicolás Maduro demonstravam que algo estava errado. As reuniões a portas fechadas e os boatos em torno delas alimentaram dezenas de ligações minhas para jornalistas em Caracas e em São Paulo em busca de informações.

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Algumas falavam que Chávez já estava nas horas finais e que o governo se preparava para dar, em breve, a notícia ao país, enquanto outras arriscavam dizer que o presidente havia se recuperado desde o retorno a Caracas, em 18 de fevereiro, e que reapareceria em breve em público.

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Eleito em 1998, Hugo Chávez subiu à Presidência da Venezuela em 1999, para sair somente em março de 2013, quando faleceu

Finalmente, já no meio da tarde no Brasil, começou a transmissão de um encontro entre o então vice-presidente e o gabinete ministerial. A reunião começou cheia de expectativas, mas nada foi informado sobre a situação no hospital militar da capital venezuelana.

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Depois de passar horas de tensão, decidi ir pra casa, de onde permaneceria em alerta. No começo da noite, ainda na rua, duas mensagens de texto, uma da redação de Opera Mundi em São Paulo e outra, de um amigo em Caracas, deram a mesma notícia, ao mesmo tempo, mas em línguas diferentes: “morreu”, “murió”.

Hugo Chávez havia morrido. O extenso período de incerteza sobre a saúde do presidente havia chegado ao fim. O que iria acontecer dali em diante?

Imediatamente corri para o computador para me juntar à equipe, que naquele momento já havia começado a repercutir o falecimento. Assim que me certifiquei de que tudo estava correndo bem, combinei com a direção que eu embarcaria no dia seguinte para lá.

Era fim de tarde na capital venezuelana quando o avião aterrissou. Na noite anterior e durante o voo, só conseguia pensar que tinha um desafio imenso pela frente: como cobrir a morte de um dos personagens mais importantes da História? Como a Venezuela enfrentaria esse momento, um país que, indiscutivelmente, não era mais o mesmo desde a chegada de Chávez ao poder, em 1998?

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Na imigração, o clima era tranquilo. Na fila, comigo, havia dezenas de outros jornalistas, vindos do mundo todo. “Sabe, jamais imaginei que ele fosse morrer tão cedo. Tinha só 58 anos e ainda muita coisa pra fazer. Mas te garanto que vamos continuar de pé”, arriscou dizer baixinho um dos fiscais da alfândega, para depois marcar meu sexto carimbo de entrada no país. “Você, que quase já é venezuelana, sabe disso”, brincou.

No entanto, as experiências anteriores no país, com a cobertura de diversas eleições e de um especial sobre a Era Chávez, feito em 2012 junto com o jornalista Jonatas Campos e o diretor de Opera Mundi, Breno Altman, não haviam me preparado para os dias que viriam. Já na estrada que liga o aeroporto internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, à capital, uma procissão de motoqueiros vestidos de vermelho e com bandeiras chavistas seguia a toda velocidade. Uma mulher, na garupa de uma das motos, chorava copiosamente.

Sim, era real. Hugo Chávez estava morto.

Pouco antes, uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre que levou o corpo do presidente venezuelano até o Paseo de los Próceres, na Academia Militar, onde ficaria por nove dias sendo velado por milhões de pessoas.

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A poucos quilômetros dali, no bairro de Altamira, na zona oeste de Caracas, conhecida por reunir os bairros mais abastados da capital e ser um bastião opositor, a vida parecia continuar igual. “Chegamos a ouvir fogos aqui quando a morte dele foi anunciada”, contou um dos funcionários do hotel, para depois lamentar: “que tivessem tido respeito pelo menos pela família”.

Fila quilométrica

No dia seguinte, amanheci com a notícia de que a fila para o velório já era quilométrica e segui para a Academia Militar. Assim que o trem do metrô cruzou a linha imaginária que separa o oeste do leste, uma enxurrada de chavistas com os punhos pro alto e aos gritos de “Chávez vive, a luta segue” entrou. Muitos choravam. Quando fui entrevistar uma senhora com o rosto molhado de lágrimas, fui surpreendida por um abraço. “Eu não consigo acreditar!”, gritou.

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A mesma cena se repetiria comigo e com outros colegas. O colaborador de Opera Mundi em Bogotá, Simone Bruno, que havia ido a Caracas fazer a cobertura para um canal de televisão francês, confessou: “nunca vi nada parecido. Não há como ficar indiferente a tanto sofrimento”.

A cada entrevista, mais lágrimas. E o espanto pelo aluvião de gente que ocupava todos os espaços ao redor do Paseo de los Próceres. Como nas marchas chavistas que havia acompanhado outras vezes, o povo havia ido em peso às ruas. Mas agora, para se despedir de seu presidente.

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Porém, conforme eu avançava na fila, ficou claro que não se tratava de uma procissão comum. Havia ali também uma alegria, traduzida por meio de muitos sorrisos e na música caribenha que ressoava em caixas de som, além de demonstrações de agradecimento e amor pelo presidente que havia partido. “Ele morreu por nós e por isso jamais deixarei de defender seu legado”, me disse uma jovem que havia viajado à noite de Maracay, Estado de Aragua, até lá.

Naquela confusão de choro e risos materializada na minha frente e que continuou nos dias seguintes, pensei que não era inédita a sensação de estar perdida na Venezuela. “Entender” o país, percebi desde a primeira vez que o visitei, em setembro de 2010 para as eleições legislativas, não era o caminho ideal para reportar o processo revolucionário iniciado por Chávez.

E não só porque as notícias dos principais meios internacionais resultavam superficiais e preconceituosas, mas porque, de fato, havia ali algo novo, em pleno desenvolvimento. Sem régua para comparação, a solução pra mim foi me envolver ao máximo com os personagens e acontecimentos, ir à rua, sempre procurando manter um olhar antropológico e, acima de tudo, respeitoso.

Eleição de 2012

O encerramento da campanha de Chávez em 4 de outubro de 2012 foi um desses momentos de espanto. Horas antes, havia decidido me juntar às milhões de pessoas que encheram as sete avenidas do centro de Caracas, em vez de acompanhar o discurso de um espaço reservado aos jornalistas, ao lado do palco principal.

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Nos instantes prévios à chegada do presidente, uma multidão vestida de vermelho produzia uma cena impressionante de agitação e barulho. O som do motor das motos, das apresentações musicais – divididas em palcos espalhados pela região – e dos gritos de “Uh! Ah! Chávez não se vá” dominava aquele ambiente de caos e expectativa.

E então veio a tempestade. Tentando se manter em pé naquele lamaçal produzido com a mistura de sujeira e material de propaganda eleitoral, os apoiadores de Chávez respondiam a cada relâmpago que caia com gritos e sorrisos. “Mostramos a eles nossos dentes, literalmente”, disse um amigo chavista, em referência à oposição.

Em meio ao frenesi coletivo, o presidente subiu no palco correndo, com um microfone na mão. Finalizava em Caracas uma campanha cansativa, na qual havia percorrido quase todos os estados venezuelanos ainda com o fantasma do câncer o assombrando.

Chávez ganhou dois dias depois o páreo contra Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda que havia aceito o desafio de competir representando uma coligação de partidos opositores. Para os chavistas, estava garantida a continuidade do processo revolucionário, enquanto para a oposição, restava o reconhecimento da vitória do presidente e planejar os próximos passos após a derrota.

Volta do câncer

Mas nenhum dos dois lados esperava a notícia que o próprio Chávez deu na noite de 8 de dezembro. O câncer havia voltado e o embarque para Havana aconteceria já no dia seguinte. Aquela seria a última imagem do presidente vivo.

Os meses seguintes foram de expectativa e angústia. A cada anúncio em cadeia nacional, quando o então ministro da Comunicação, Ernesto Villegas, começava a ler um novo boletim sobre o estado de saúde de Chávez, a respiração nas ruas da Venezuela e nas redações parava por alguns instantes. Os micro comunicados foram tão marcantes que, depois da morte do presidente, muitos venezuelanos disseram ter instintivamente prendido o ar ao escutar o começo de outros anúncios.

Viajei ao país no começo de janeiro de 2013, depois de um boletim médico pessimista dado alguns dias antes, no final de 2012, e pela proximidade da posse do presidente na Assembleia Nacional, marcada para o dia 10. Chávez não veio, mas em seu lugar, foi empossado simbolicamente o “povo venezuelano”, representado na figura do vice, Maduro. Eu retornaria somente em 6 de março, para cobrir o desfecho dessa história e para o começo de outra, que segue em andamento: a da Venezuela sem Chávez.

Do período em que cobri a morte do presidente, um depoimento me surpreendeu. Fui atrás de quem estava por último na fila para as condolências, um périplo que durava em media 10 horas, debaixo de muito sol. Era uma jovem opositora. Intrigada, perguntei porque ela estava ali. “Apesar de não concordar com as políticas dele, o admirava muito por ter feito a diferença na vida de outros venezuelanos. Quero homenagear a pessoa Hugo Chávez”, respondeu. Num país onde as diferenças políticas chegam a separar famílias, aquelas palavras eram inesperadas.

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