Agência de notícias que ajudou jornalismo do Terceiro Mundo é extinta

Ministério da Cultura da Sérvia, responsável pela agência desde o fim da Iugoslávia, anunciou decisão de suspender a validade do estatuto que regulava o funcionamento da Tanjug

Pedro Aguiar

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A agências de notícias Tanjug, que chegou a ser uma das maiores do mundo, foi extinta nesta quarta-feira (4/11). O Ministério da Cultura da Sérvia, responsável pela agência desde o fim da Iugoslávia, anunciou a decisão de suspender a validade do estatuto que regulava o funcionamento (e o financiamento) da agência retroativamente para o último sábado, 31 de outubro. Os 180 funcionários da agência devem receber indenização, segundo o Ministério, mas foram orientados a ir trabalhar normalmente amanhã.

Entre junho e agosto, o governo da Sérvia tentou privatizar a agência, mas não apareceram propostas de compradores interessados. O preço mínimo pedido era de 761 mil euros (ou 3,137 milhões de reais). Em 2014, a empresa tinha fechado o ano com lucro de 680 mil dinares, a moeda local (equivalentes a 24 mil reais).

A agência da antiga Iugoslávia, herdada pela Sérvia em 2003, cresceu ao ponto de uma das mais importantes do planeta, com 237 correspondentes trabalhando em várias cidades de 57 países. Nos anos 70 e 80, era considerada a sétima maior do mundo, depois de Reuters, AP, AFP, UPI, TASS e EFE.

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Sede da Tanjug, em Belgrado: agência foi fechada pelo governo da Sérvia

Nessa mesma época, a Tanjug era uma referência mundial de bom jornalismo: deu os furos internacionais de notícias de grande impacto como o golpe no Chile em 1973, a invasão da Baía dos Porcos contra Cuba em 1961, o bombardeio norte-americano sobre Trípoli, na Líbia, em 1986, e a derrubada de Nicolae Ceauşescu na Romênia em 1989, entre outros.

Além disso, a agência iugoslava tinha um papel político gigantesco na comunicação internacional, especialmente em prol do Terceiro Mundo (que hoje é designado pelo novo rótulo de "Sul Global"). Ela ajudou a articular o Pool das Agências dos Países Não-Alinhados (NANAP, em inglês), uma cooperativa de agências da África, Ásia e América Latina que difundia as matérias que a Reuters e outras grandes ignoravam. Além disso, a Tanjug promoveu treinamento e capacitação de jornalistas africanos, árabes, hispânicos e ainda emprestou ou doou equipamento a essas empresas de países pobres (como máquinas de Telex e receptores de satélite), numa época antes da internet e da revolução digital, quando essa tecnologia era caríssima.

Com a desintegração iugoslava, nos anos 90, foi desmembrada entre as novas repúblicas, com as sucursais locais dando origem a novas agências (a HINA na Croácia, a STA na Eslovênia, a FENA e a SRNA na Bósnia etc.). A sede, em Belgrado, num belíssimo prédio semicircular de arquitetura art-deco, ficou esvaziada.

No inverno europeu de 2008 para 2009, eu estive lá por três meses fazendo pesquisa de campo para o meu mestrado, que tratava da cooperação entre agências de notícias do Movimento Não-Alinhado. O prédio já estava parcialmente desocupado, com andares inteiros às moscas, muitas salas trancadas e problemas de infraestrutura. O acervo de cooperação, que eu esperava ser uma biblioteca organizada, era apenas um armário com menos de dez fichários e algumas pastas de plástico. Houve mais documentos, sim, mas a maior parte foi pro lixo.

Provavelmente, temo eu, esse vai ser o mesmo destino do resto.

Como muitas agências de notícias, a Tanjug nasceu num contexto de guerra. Foi fundada no dia 5 de novembro de 1943 pelos partizans, para informar ao mundo (especialmente aos Aliados) sobre sua luta contra os invasores nazi-fascistas. Seu idealizador foi um intelectual judeu e comunista iugoslavo, Moša Pijade, que também tinha sido o tradutor original de Marx para o servo-croata. Eles logo perceberam que, em vez de fundar um jornal, uma rádio ou uma revista, era muito mais eficaz fundar uma agência, porque é ela que distribui o que sai publicado no jornal, na rádio ou na revista.

Faria 72 anos amanhã. Deixará apenas saudade e uma lição de que é possível lutar por um bom jornalismo e um mundo onde as notícias sobre os povos sejam mais equilibradas e reflitam melhor o planeta em que vivemos.

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