Não acredite em mim: a imprensa internacional já deu a letra e a história chamará o que vivemos de golpe

Se ainda havia espaço para dúvidas, a votação na Câmara e a repercussão internacional trataram de tirá-las. Não restará outro nome para o que está ocorrendo no Brasil em 2016: é golpe

Victor Amatucci


Clique para acessar todas as matérias e artigos de Opera Mundi Samuel sobre o processo de impeachment

Esta coluna já havia mostrado que restavam poucas dúvidas na imprensa internacional quanto à legalidade do processo liderado por Eduardo Cunha. Jornais e revistas da América Latina à Europa já escancaravam enormes dúvidas sobre o que terminou como filme de pastelão tragicômico exibido ao vivo mundialmente.

Pela família quadrangular, todos disseram sim. Eu, particularmente, fiquei esperando o momento em que algum(a) deputado(a) mandaria um beijo para a Xuxa e a especialmente para a Sasha.

O show de horrores teve roteiro digno de qualquer programa do Chacrinha. Ou de qualquer PCC fake no Gugu. Mas foi tamanho que até quem costumava acreditar na imprensa nacional se arrependeu.

Agência Efe

Câmara dos Deputados aprovou no último dia 17 a admissibilidade do pedido de impeachment de Dilma Rousseff

O Le Monde chegou a perguntar publicamente se a sua própria cobertura não teria sido enviesada e afirmou o que (quase) todo brasileiro está cansado de saber: não há imparcialidade em terras macunaímicas.

E se Dilma foi a primeira pessoa na história mundial a unir o PMDB – nem tanto, eu sei, mas deixemos a frase, que a piada é boa –, a nossa imprensa conseguiu feito igualmente singular de unir os franceses do Le Monde com os ingleses do The independent que também reportou a malfadada crise midiática na terra da CBF. E a esta altura já está claro que não é preciso acreditar em mim.

O português Expresso afirmou ainda mais categoricamente que, "entre os povos livres e civilizados, a ideia que passou é que o Brasil é mesmo um país do Terceiro Mundo, onde a democracia é uma farsa e a classe política um grupo de malfeitores de onde está ausente qualquer vestígio de serviço público", acabando com qualquer chance desse colunista fazer piadas de português, ao menos por uns tempos.

Mas melhor que piada de português, convenhamos, é piada inglesa. A última, contudo, foi contada por um brasileiro bastante célebre, de nome Roberto Marinho. Indignado com a reportagem do The Guardian de título “The real reason Dilma Rousseff’s enemies want her impeached” (A real razão pela qual os inimigos de Dilma desejam o impeachment) que cita o apoio da Globo ao golpe de 1964 e afirma o óbvio – que o mesmo jornal, da mesma família, continua defendendo a mesma coisa –, resolveu pedir o que ele mesmo nunca concedeu: direito de resposta.

O jornal inglês publicou em forma de comentário na postagem do Facebook de sua própria página. A resposta, que você pode ver ao lado, é tão verdadeira quanto o nome “Revolução de 1964”. Nela o Marinho chariman afirma que as organizações Globo fazem apenas seu dever.

Não é preciso acreditar em mim para ver que o espaço para visões opostas, outro lado e desmentidos, no Brasil, andam com popularidade semelhante ao de nossa presidenta.

Também não é preciso percorrer jornais não hegemônicos, mídia alternativa e outros quitutes do jornalismo internacional para saber que a imprensa tem um lado apenas. O NY Times, conforme noticiado neste Opera, afirmou que o processo anticorrupção é comandado por parlamentares corruptos.

Em terras latinas as manchetes ganham aquele calor característico. O colombiano El Espectador aproveitou o “sim” de Tiririca para chamar nosso Congresso de circo. O governo cubano foi mais educado, ao chamar de Golpe de Estado Parlamentar, mesma linha do argentino Página/12, que publicou artigo com título “El Golpe Institucional contra Dilma Rousseff ya está em Marcha”.

Golpe Parlamentar, Golpe Institucional, Golpe branco ou, como chamou a global Miriam Leitão “golpe que não parece golpe". Ah, sim, a Miriam se referia, em 2012, ao golpe paraguaio. Ela foi bastante enfática: no Paraguai, o Congresso deu um golpe e derrubou o presidente usando uma lei que está na Constituição, mas que fere princípios democráticos, como o do direito de defesa. Calma, não vou pedir que acredite em mim, leia por si.

Fato é que a Globo, o Estadão, Cunha e Temer podem dar o nome que quiserem aos fatos correntes. Mas os livros de história vão se basear em leituras como essas para registrar com apenas uma palavra todo o espetáculo que estamos vivemos: é golpe o nome do que ocorre no país em 2016. Resta saber em que ano sairá o novo pedido de desculpas da imprensa nacional.

(*) Victor Amatucci é editor do Blog ImprenÇa {{não acredite em mim}}

 

Comentários