Amores em tempos de cólera

Imaginem, só por exercício, um arco e uma flecha: Messi e Cristiano Ronaldo jogando no mesmo time

Fernando Amaral

Talvez uma das maiores injustiças de todo universo, este em que escrevemos e lemos este texto e em muitos dos zilhares de mundos paralelos existentes desde a primeira história para dormir contada pela primeira vó, é o fato de Messi e Cristiano nunca terem jogado no mesmo time. Faz tempo que imagino esta possibilidade e fico estarrecido como nenhum dos dois resolveu bancar esta aventura. Os dois estão com a vida ganha e merecem, definitivamente, se divertirem, juntos. Imaginem, só por exercício, um arco e uma flecha, Lionel e Ronaldo.

Os dois foram eliminados no mesmíssimo dia na copa do mundo. Rivais, passaram a ser tema dos mais diversos colóquios sobre fracassos, sobre não terem ido mais longe, sobre terem refugado nos mundiais que disputaram. Deviam os dois sair para tomar umas, num boteco nas proximidades do aeroporto de Moscou, encher a cara e combinarem de darem bananas para todos e a granel, para todo o sempre. E acertarem de jogarem juntos no São Paulo, o Clube da Fé, da moeda em pé, do bonde de Leônidas, para disputarem o fim desse Brasileirão de 18.

Messi e Ronaldo são dois dos jogadores mais refinados que a bola já amou. Um é um artista sublime e o outro o cara mais objetivo de todos os tempos, uma objetividade tão intensa que vira o fio e o transforma na própria subjetividade da bola. Deve ser estranho explicar como um time absolutamente rocambolesco como este da Argentina conseguiu marcar três gols na França e imaginar um empate, tamanha a diferença técnica e tática entre as duas equipes. Mas nesta estranheza, a única explicação possível passa pelos pés do número dez, do chute a gol no tento da virada portenha e no lançamento para o último gol contra os franceses e, essencialmente, na matada de bola, no domínio, na passada e no arremate para o gol contra a Nigéria. E, é impossível imaginar Portugal sem Euzébio e sem Cristiano, é como matar a Camões.

Todos sabem da existência de mundos paralelos, espero. Há uma sofisticada teoria da física que explica o universo por feixes paralelos, contínuos, infinitos. Me parece cada vez mais óbvio que eventos como a chicotada que deu o zagueiro Pavard na redonda no gol de empate francês é um desses fenômenos que abre uma fenda definitiva no universo. Olhar o lance e escutar o barulho do chute e do emaranhar nas redes, a trajetória da bola é nítida: há um outro universo ali, começando, um big bang.

A bola, ela, sempre, escolhe seus afetos. O gol de cara que Cavani fez, depois das parábolas vividas e vivenciadas por ela nos passes - lançamentos - entre ele e Suarez, e o segundo gol, do mesmo Cavani, num arremate de cinema três dê, levaram este nosso velho universo em guerra a uma nova dimensão. Ficou evidente ali uma bela relação de amor.

Assim como ela tem com a nossa Marta e a infinita Formiga, que também não ganharam mundial... (*) Publicado em Copa no Fio do Bigode

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