Lula Marques

Escola sem partido: o fim do pensamento crítico em um 'admirável mundo novo'

A escola sem partido e os ataques às universidades não são simplesmente ideias mirabolantes de um homem sem noção: são talvez o que há de mais perigoso num país que já sofre com a falta de educação crítica

Mariana Noviello

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Estava ouvindo as entrevistas que a BBC fez, no começo do mês, com dois importantes brasilianistas, os professores Tim Power, da Universidade de Oxford, e Anthony Pereira, do Brazil Institute, King’s College. 

Nenhum dos dois se destacou, como outros brasilianistas, por terem se manifestado contra o processo de impeachment no Brasil ou a prisão de Lula.

Mas resolvi ler os comentários deixados pelos ouvintes sobre os professores e suas análises.  Apesar de chocantes, estes comentários em nada me surpreenderam.

Primeiro o ataque tosco aos indivíduos Tim Power e Anthony Pereira, com a sua total desqualificação. Diziam os cultos ouvintes que, apesar de fazerem do Brasil o objeto de estudo de suas vidas inteiras, os professores não estariam qualificados para falar sobre o Brasil, simplesmente porque não moravam no país.

E mais, Pereira não poderia saber de nada do Brasil porque chamou o PT de social-democrata, quando sabemos todos que, na realidade, o PT é comunista. Mas a coisa pegou mesmo feio para Pereira, especialista em direitos humanos, porque ousou dizer que o MST e o MTST tinham direito legítimo de existir numa democracia.

Power, especialista em instituições políticas e partidos, é desqualificado porque demonstra alguma ressalva em relação à nomeação de Moro como ministro, antecipando que a aceitação poderia macular a imagem da Lava-Jato. Power seria, portanto, um esquerdopata porque, como todos sabemos, o PT é corrupto e a ascensão de Moro à posição de ministro só poderia ser vista como coisa boa, afinal ele trará a agenda anticorrupção ao cerne do governo e quem poderia achar isso ruim?

Contemplei responder aos comentários feitos no site e decidi não o fazer.

Por que? Simplesmente não tenho as ferramentas necessárias para conversar com estes indivíduos. Minhas palavras não são capazes de quebrar a muralha que existe entre nós.

A direita, o establishment e a mídia clamam o tempo todo a tal ‘autocrítica’ do PT, sem olharem para os seus próprios umbigos. (Será que eles acham que protagonismo político deles é tão irrisório, de tão pouca consequência, que só o PT importa aos rumos do país?).

Pois bem, como pessoa de esquerda, entrarei no jogo e farei um pouco da clamada ‘autocrítica’.

A esquerda errou sim: foi incapaz de travar a guerra das narrativas. Não estou nem mesmo falando de ganhar esta guerra. Estou simplesmente dizendo que a ‘guerra das narrativas’ nem fez parte das concepções daquilo que deveria ter sido parte de um governo que se diz de esquerda ou centro-esquerda.

E não é só o PT, ou a esquerda brasileira, que deve ser culpada por isso, mas todas as esquerdas mundiais. Fomos incapazes de ver o estrago que a narrativa e as práticas neoliberais fariam à esquerda e, na verdade, ao liberalismo também.

Porque, afinal, se tudo pode ser comprado e vendido, se tudo é negócio que precisa ter sustentabilidade econômica, então a informação, os fatos, as opiniões e a verdade, também são moedas de troca. E como estamos vendo, o mercado de informações está causando muitos danos não só à democracia brasileira, que parece ter sido singularmente afetada, mas às democracias de todas as partes do mundo.

Discute-se se Trump ganhou as eleições com a ajuda de centros de informações situados na Rússia e no leste europeu. A Cambridge Analytica, que tanto afetou o Brexit, como outras eleições, comprou dados pessoais para trabalhar os perfis de usuários das redes virtuais e canalizar informações falsas àqueles indivíduos mais propensos a acreditarem em certas versões.

Nem precisamos falar de Bolsonaro e do seu uso, até onde sabemos, inédito do WhatsApp.

Com a caída do Muro de Berlim, o consenso nos induzia a acreditar que já não haveria esquerda e direita, só técnica.

Como nos diz Marilena Chauí, o neoliberalismo reinante neste novo mundo da não ideologia nos faz crer que todas as instituições seriam iguais e todas se beneficiariam do tratamento empresarial se quiséssemos ter êxito, fossem elas governos, hospitais, mídia, teatros ou supermercados, sem esquecer, é claro, das novas empresas digitais que em tão pouco tempo dominaram o mundo.

Mas parece que não foi só parte da esquerda que resistiu (apesar de não querer mudar opiniões), à essa narrativa. Elementos milionários da direita se aproveitaram da aparente ‘trégua’ dos conflitos entre as classes sociais para tirar vantagens para si.

Assim, o tal mercado tomou conta de absolutamente tudo, os sindicatos perderam força, as empresas nacionais e o setor público foram privatizados, ou terceirizados, os impostos foram reduzidos a tal nível que as grandes fortunas se avolumaram de maneira nunca vista antes.

E o que estão fazendo com toda essa dinheirama, estes milionários? Alguns estão usando sua imensa fortuna, como os irmãos Koch, para espalhar as suas ideologias.  Assegurar, que todo pensamento e, pior, prática de esquerda seja eliminada. Aqueles que tem algum poder aquisitivo alto não só financiam campanhas políticas, como fez o ‘pequeno’ dono da Havan, mas apoiam ou montam fundações políticas, patrocinam workshops, palestras e cursos e apoiam candidatos que tenham um impacto transformacional na política.

Num artigo publicado no Guardian chamado “Como os irmãos Koch construíram o mais poderoso grupo de direita que você jamais ouviu falar” explica como a “Americans for Prosperity” (Americanos pela Prosperidade), financiada pelos Koch e outros bilionários, conseguiu mudar a política no Estado de Wisconsin, nos Estados Unidos.  

Como? De maneira muito simples, elegendo e apoiando um governador que introduziu uma lei para retirar o poder do que era até então o poderoso sindicato dos servidores públicos do Estado.

Passada a lei pelos Republicanos, com o apoio do governador, financiado, a filiação do sindicato caiu em mais de 50%, o que foi pouco a pouco reduzindo a chance dos Democratas de ganharem no Estado. E sem dúvida, diz o artigo escrito por professores das Universidades de Columbia e Harvard, o fato que Trump ‘surpreendentemente’ ganhou em Wisconsin, um estado tradicionalmente Democrata, provavelmente se deve, em parte, ao enfraquecimento dos sindicatos.

Outro impacto

Mas o neoliberalismo tem outro impacto, o que reduz ainda mais nossa capacidade de combater o que está acontecendo.

A lógica do mercado, pelo menos em teoria, é a lógica daquilo que vende, o sucesso rápido, imediato através da popularidade fácil, não havendo tempo, recursos ou espaço para aquilo que está fora dos parâmetros – a não ser em nichos especializados, que as pessoas ricas, ou pelos menos as que têm mais recursos, possam usufruir a um preço mais alto.

O resultado foi banalização e a simplificação do complexo em duas áreas críticas: a educação e a mídia.

Quando a educação vira uma máquina de passar exames – porque é isso que vende - não há tempo ou espaço para a leitura, o pensamento crítico, o criativo. Exatamente o que precisamos para combater essa enxurrada de tentativas de lavagens cerebrais e informações falsas.

Infelizmente, mesmo ainda sem a introdução da ‘escola sem partido’ e o cerceamento das universidades, parece que a população brasileira não estava preparada para lidar com este admirável mundo novo.

Vou dar um exemplo pessoal. Meu filho, apesar de ávido leitor no inglês (chegou ao Brasil com 11 anos de idade), conseguiu entrar na Universidade Federal de Santa Catarina sem nunca ter lido um livro inteiro em português (não estou exagerando). Sua ‘educação’ nas áreas humanas consistiu em citações e passagens de livros e respostas em escolha múltipla. E a educação de meu filho se deu em duas das ‘melhores’ escolas particulares de Florianópolis. Isto é, não é o ensino público, não são os ‘pobres’ ou o Estado brasileiro omisso os únicos culpados pela tão mencionada ‘má qualidade da educação brasileira’ (então por favor, vamos parar de pôr a culpa nos pobres): o mercado educacional das escolas privadas também tem culpa.

Não estou dizendo que todos os alunos não leem livros, mas que é possível chegar à universidade no Brasil sem jamais ter lido um livro inteiro. Meu filho é prova disso.

Suspeito também que a imbecilidade que vemos sair da boca de juízes e procuradores, e demais professionais com curso superior seja também resultado desta ‘educação faltante’. Outro exemplo: quando trabalhava como professora de inglês, meus alunos eram pessoas inteligentes, pós-graduandos, gente que trabalhava em empresas de ponta, muitos, grandes conhecedores de suas próprias áreas de estudos, especialistas de qualidade em questões específicas, mas que tinham um conhecimento geral extremamente básico - e ainda mais deficiente quando se tratava do mundo fora do Brasil.

Meu filho foi educado em Santa Catarina, o Estado ‘europeu’, que deu a Bolsonaro mais de 75% dos votos válidos.

Repito, um dos Estados considerados mais ricos e desenvolvidos do país deu mais de 75% dos votos a Bolsonaro: um candidato que mal apresentou propostas e encheu as redes de fake news.

Não estou querendo desqualificar ninguém, somente dizer que mais do que nunca precisamos de um bom ensino de humanas, das artes e das ciências sociais.

O que precisamos

Num mundo cada vez mais soterrado por informação - informação essa que é comprada, manipulada ou inventada por quem tem dinheiro - precisamos de pensamento crítico, precisamos saber questionar fontes, precisamos que nossos cidadãos se interessem em ler para além das manchetes, saibam discernir entre fato e opinião, questionar a lógica –e a motivação - de um texto.

Não é por acaso que o presidente eleito quer emplacar seu projeto de ‘escola sem partido’. Não é por acaso que alguns “minions” dizem que só as ‘ciências exatas’ deveriam existir. 

Lendo o programa de governo de Bolsonaro, para além da linguagem rasa, a falta de propostas bem elaboradas e de associações pseudocientíficas malfeitas, o que perpassou foi o desejo de tornar o Brasil um ‘tigre asiático’. 

Estes países podem ser louvados pela sua capacidade econômica, mas não são conhecidos pela qualidade de suas democracias ou a liberdade dos seus cidadãos.  Suspeito que, apesar de se saírem bem nos rankings de educação mundial, que no geral examinam a matemática, as ciências exatas e o conhecimento da língua materna, o estudo das ciências sociais e humanas não seja o forte destas nações.

Num país, como o Brasil, onde a mídia é majoritariamente propriedade de algumas famílias, onde não há diversidade e é tendenciosa, é importante saber interpretar e entender as entrelinhas e nunca se fiar nas manchetes, que muitas vezes nada tem a ver com o conteúdo das matérias.

E vejam, se há um consenso nestas eleições é que tanto os eleitores de esquerda quanto os de direita não confiam mais na mídia. É por isso que tantos acreditaram mais na informação que recebiam dos amigos e parentes no WhatsApp do que liam (quando liam) nos jornais, ou viam na televisão.

Acontece que mesmo sem confiar, não podemos totalmente descartar as notícias que chegam a nós através da mídia tradicional. Em sociedades complexas não podemos ter acesso direto a tudo, e se não somos especialistas em todas as áreas, então precisamos dos jornalistas para investigar os fatos e trazê-los até nós. E mesmo quando os fatos chegam misturados com opiniões, ou são mal pesquisados, enviesados ou vetados, ainda assim precisamos deste trabalho para ter ao menos uma noção de outras coisas que não são só nossas tendenciosas experiências pessoais.

Aí está a necessidade de estarmos preparados para lidar com a informação. Não é o caso de simplesmente rejeitar tudo que se lê na Folha de São Paulo, por exemplo, ou no Estadão. Mas é necessário saber interpretar.

E, principalmente, não podemos aceitar que boa parcela da sociedade simplesmente dispense do conhecimento gerado nas universidades, como aparenta ser o desejo deste novo governo.

Pode-se fazer muitos paralelos entre o Brexit, as eleições do Trump e do Bolsonaro, e um deles certamente é a rejeição ‘dos especialistas’ e de seu conhecimento. A maneira encontrada pelos ‘Brexiteers’ para lidar com os centenas de economistas que advertiram contra o Brexit foi desqualificando-os, chamando-os de elites sem noção, ou pessoas com o rabo preso.

Repito, a questão não é aceitar acriticamente o que dizem os especialistas, precisamos questionar o que os especialistas dizem também, mas precisamos ter as ferramentas para saber de onde vem a informação e para analisá-la, e saber quando, o quê, e por quê rejeitar alguma ideia.

Voltando ao exemplo que dei anteriormente, é razoável discordar das ideias que Anthony Pereira expõe na BBC. Não é razoável chamá-lo de comunista simplesmente porque não concordamos com ele.

A ‘escola sem partido’ e os ataques às universidades não são simplesmente ideias mirabolantes de um homem sem noção. São talvez o que há de mais perigoso num país que já sofre com a falta de educação crítica.

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