Freixo e o pacote anticrime: o caminho correto da negociação

Não foram poucas as vezes que Freixo, e parte da esquerda purista, criticaram o pragmatismo de parlamentares que, ao tentarem evitar um mal maior, negociam pontos polêmicos em aprovação de leis

Ricardo Queiroz

São Paulo (Brasil)

Os esbofeteios contraditórios do purismo tocaram o rosto de Marcelo Freixo do PSOL nesse final de um 2019 conturbado.

Não foram poucas as vezes que Freixo, e parte da esquerda purista, criticaram o pragmatismo de parlamentares que, ao tentarem evitar um mal maior, negociam pontos polêmicos em aprovação de leis.

O mundo gira e foi exatamente assim que Freixo se portou na negociação para votação do "Pacote Anti Crime na Câmara Federal. Negociou corretamente para evitar que uma peça fascista se estabelecesse por completo.


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Aliás, é exatamente assim que funciona quando não há maioria absoluta num parlamento, o único caminho é a negociação.

Minto, pois há também um outro caminho: abandonar a votação, para marcar posição contrária ao negociado. Nessa estrada, o máximo que se consegue é ilibar a biografia e lavar as mãos, pois o que for votado sem intervenção do contraditório, vai impactar diretamente na vida da população.

O pacote anti crime, uma peça punitivista proposta originalmente pelo ministro Sergio Moro, foi desidratado no Congresso. Aconteceu assim, depois de debates exaustivos, acordos, concessões, manobras, etc.

O tal pacote não foi desitratado apenas pela esquerda, por motivos pragmáticos e de autoproteçao, a centro direita tambem operou nesse sentido, tudo isso dentro de uma negociação ponto a ponto.

Reprodução
Marcelo Freixo negociou corretamente para evitar que uma peça fascista se estabelecesse por completo

Claro que sobraram pontos terríveis no que se aprovou na Câmara, óbvio que o Senado, com sua forte bancada lavajatista, vai tentar inserir o veneno de rato morista na íntegra da lei, mas qual a alternativa? Radicalizar, bater o pé e abandonar a disputa?

Caros, a vida parlamentar não é o tribunal permanente do Facebook, nem coluna da Eliane Brum, o típico "campo neutro" no qual os discursos puristas emplacam, lacram. Há interesses pesados em jogo.

É preciso reconhecer que há uma direita fascista empossada no poder Executivo, que disputa diariamente espaço e agenda num parlamento onde o chamado campo progressista (não uso aqui nem o termo esquerda) opera em franca desvantagem.

Se formos criticar a democracia de coalizão e as regras limitadoras que o capital impõe à sua lógica, o cenário muda, mas falar em radicalismo no palco da democracia burguesa sem apresentar uma proposta viável de ruptura, no geral, é puro exercício retórico.

O deputado Marcelo Freixo é muito experiente para saber a diferença entre um discurso perfeito e a realidade cotidiana do Congresso Nacional. A sua performance na negociação do pacote anticrime, pode servir como bom exemplo de como funciona o mundo real da política, sem os heróis desejados e a pureza almejada.

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