Arte e fé: a 'blasfêmia' como desculpa para o fascismo

Ataque à sede do Porta dos Fundos não poderia passar recado mais claro: é uma retaliação contra a postura política de alguns de seus membros e contra a obra do grupo

Vitor Vogel

Niterói (Brasil)

A sede da produtora Porta dos Fundos foi atacada com coquetéis molotov às 4h da manhã da véspera de Natal. Sim, você não leu errado. Dois artefatos explosivos foram lançados contra um local onde se produz obras de arte.

O recado não poderia ser mais claro: é uma retaliação contra a postura política de alguns de seus membros e contra a obra deste coletivo teledramatúrgico, principalmente o especial de "A primeira tentação de Jesus", disponível numa plataforma de streaming estadunidense.

A intolerância religiosa travestida de combate à blasfêmia não é uma novidade. Assim como não são novos os atos de terrorismo, eliminação física e, sobretudo, o uso da fé alheia para fins políticos.

"Qual a parada? O que é que tá rolando?"**

A relação entre Arte e Fé é tão nova quanto a Humanidade. A mais antiga obra de arte, recém encontrada na Indonésia, é uma pintura em caverna, tem 44 mil anos e retrata uma cena de caça com a participação de sacerdotes.

Jesus Cristo e outras figuras divinas foram fartamente retratadas em pinturas, esculturas, vitrais, filmes, novelas e peças de teatro, incluindo musicais. Quando o cliente do artista é quem conduz a fé que agenciará a obra, o(s) artista(s) deve adequar o conteúdo à versão da fé. Não é o caso do Porta dos Fundos e qualquer autor no século XIX.

A reação de setores fundamentalistas contra obras de arte que não seguem à risca as interpretações dos sacerdotes de qualquer fé também não é nova. Em especial após a ascensão do capitalismo e a redução do papel das instituições religiosas nas sociedades, o que acontece há uns 500 anos no mínimo.

"Se você separar o homem do mito"**

Em 1971 estreou na Broadway o musical Jesus Christ Superstar. Com música de Andrew Lloyd Webber e letras Tim Rice, o musical ganhou inúmeras montagens, a última em 2019 em Londres no Barbican Centre, e até um filme em 1973. A obra narra os últimos dias de Jesus, seu calvário e morte na cruz.

A Igreja Presbiteriana Livre classificou a produção como a versão de "Satan sobre Jesus". Já a Benjamin R. Epstein, presidente da Liga Antidifamação de B'nai B'rith , classificou o filme como antissemita. Segundo Epstein, em matéria do New York Times, qualquer um que já viu um filme de cowboy sabe que os [personagens] bons usam chapéu branco e os vilões pretos. Aqui o ator que interpreta Jesus é loiro e Judas é negro. Os sacerdotes e rabinos tem cabelos negros, suas auras e vestimentas são pretas". O filme foi banido na África do Sul do Apartheid por ser anticristão. Ironicamente também o filme foi censurado na República Popular da Hungria por ser considerado propaganda religiosa. 

Com a exceção do caso húngaro. As críticas de lá surgem a partir dos mesmos polos na sociedade que aqui. Deputados conservadores tentaram convocar a Netflix para uma audiência na Câmara, um abaixo assinado pedia à empresa estadunidense que removesse a obra de circulação.

Não é mera coincidência a origem das críticas assim como não é mera coincidência a operação discursiva das obras dos anos 1970 e a brasileira em 2010. Tanto o musical quanto o filme para streaming compartilham da mesma operação discursiva: separar o homem real do personagem religioso e, a partir da história do calvário, representar a sociedade das mulheres e homens que produziram a obra de arte em questão.

Reprodução
Caiafás, supremo sacerdote que presidiu julgamento que condenou Jesus por blasfêmia, na versão cinematográfica de Jesus Christ Superstar

Gregório Duvivier retrata um Jesus que após as tentações do deserto reaparece com Orlando (Fábio Porchat) e dá a entender que tem um caso com o personagem de Duvivier. No entanto, segundo o próprio ator em declaração ao El País, o centro do filme não é a sexualidade de Jesus, mas as transgressões de figuras que deveriam ser exemplares.

Já no filme, distribuído pela Universal Pictures, Judas (Carl Anderson) é interpretado por um ator negro e sua relação com Jesus (Ted Neeley) é de debate por discordância sobre os rumos da fé. Jesus ao ter sua face e pés lavados com óleos e outras coisas caras por Maria Madalena (Yvonne Elliman), é criticado por Judas que argumenta que não se deve gastar com luxo valores que poderiam ser dados aos pobres em forma de caridade. O personagem de Neeley rebate o discípulo dizendo que "Você acha mesmo que podemos salvar os pobres de seu destino? Sempre haverá gente lutando pateticamente, veja as coisas boas que você tem". Uma crítica contundente à riqueza e opulência das instituições religiosas e à impotência destas diante da crescente desigualdade social. 

"Deve morrer, deve morrer. Este Jesus deve morrer."**

Ainda não se sabe quem cometeu o atentado e com quais motivações. As imagens das câmeras de segurança foram entregues à Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro para apuração. Assim como as polêmicas sobre apropriações de conceitos e personagens religiosos por obras de arte, o uso da violência (incluindo atentados à bomba) não são novidade na política brasileira. 

Atentados com explosivos foi um dos métodos utilizados por setores da extrema direita radical do Exército que se opunham à política de abertura. A carta bomba contra a OAB e o atentado do Riocentro nos anos 1980 são exemplos desta radicalização violenta. A primeira vitória eleitoral de Bolsonaro foi com apoio destes setores. Publicamente pedia aumento salarial e de pensões mas nos corredores das casernas criticava a complacência do Alto Comando com os "comunistas".

No caso do Riocentro, ocorria um espetáculo musical em comemoração ao Dia do Trabalhador de 1981. Um artefato explosivo detonou no colo de um oficial do Exército. A versão do governo era que eles encontraram a bomba plantada por "comunistas". Apesar das placas de trânsito do entorno terem sido pichadas com as iniciais de uma organização da luta armada de esquerda, era claro que o atentado partia dos setores da direita contra a abertura. A CIA, em relatório um mês após o incidente, já sabia que fora um atentado mal sucedido da extrema direita. Até o ex-presidente General Ernesto Geisel cobrou do então presidente General João Batista Figueiredo a apuração do caso e a punição dos responsáveis. O Inquérito fracassou e culminou na renúncia de General Golbery do Couto e Silva, o arquiteto da política de abertura lenta e gradual.

A apuração do atentado na sede do Porta dos Fundos precisa apontar culpados, motivos e os métodos utilizados. O uso da violência como arma política e a instrumentalização da legítima fé e da opinião sobre obras de arte não podem ser toleradas e devem ser combatidas. Isso é o que espero, apesar de pouco acreditar no que sobrou do Estado Democrático de Direito no Brasil presidido por um líder de um grupo político que homenageia milicianos, emprega milicianos e parentes de milicianos, que é vizinho de milicianos e que o porteiro do condomínio onde reside o Presidente confunde a casa dele com a de milicianos.

* Vitor Vogel, niteroiense por adoção, 35 anos. Fotodocumentarista e historiador formado pela UFF. É Coordenador Editorial e de Articulação Institucional do Coletivo Niterói Fotográfico e presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Niterói, RJ.

** Trechos das canções do filme Jesus Christ Superstar. O autor é Tim Rice 

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