Luis Felipe Miguel: queda de Bolsonaro é a solução para todos os nossos problemas?

Crise se acelerou tanto que ter alguém em posse das faculdades mentais à frente do governo federal faz diferença

Luis Felipe Miguel

Brasília (Brasil)

Ontem, a deputada Fernanda Melchionna, líder do PSOL na Câmara, protocolou um pedido de impeachment de Bolsonaro. Minutos depois, a direção nacional do PSOL lançou uma nota condenando a iniciativa.

Eu, que sou um dos muitos signatários do pedido protocolado pela deputada, não sou filiado ao PSOL, não acompanho as brigas internas do PSOL, não tenho interesse por elas. Mas acho a nota da direção lamentável e desnecessária - uma direção, aliás, que se mostrou tão tolerante às divergências internas quando a bancada se dividiu na questão do apoio ao pacote "anticrime" de Moro.

O pedido da Fernanda Melchionna vai derrubar Biroliro? Provavelmente não. Vai se juntar a outros e contribuir para aumentar a pressão para que Maia dê início ao processo. Ao se somar na construção do clima de "basta", tem um significado político - que seria maior se a direção do PSOL não optasse por sabotá-lo.


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A queda de Bolsonaro é a solução para todos os nossos problemas? Certamente não. Mas não é irrelevante.

A crise se acelerou tanto que ter alguém em posse das faculdades mentais à frente do governo federal faz diferença.

Retirar Bolsonaro significa eliminar a sabotagem às medidas de combate ao coronavírus que nascem da cúpula do Poder Executivo.

Significa interromper a escalada antichinesa certamente desastrosa para o país nesse momento.

E significa, também, ampliar a possibilidade de que o governo tome medidas necessárias para salvar a economia brasileira e amparar a maioria desprotegida da população. Afinal, a maré crescente contra Bolsonaro é a mesma que percebe a urgência da intervenção estatal neste momento.

Palácio do Planalto
Presidente Jair Bolsonaro em entrevista coletiva de imprensa com equipe ministerial

Os mesmos que desdenham dos pedidos de impeachment estão ridicularizando os panelaços de ontem à noite, que juntaram muitos de nós à classe média tardiamente arrependida.

Acham tudo isso bobagem, marolinha, perda de tempo. Perguntam quem vai fazer a revolução.

A resposta é simples: ninguém.

No momento, ninguém. Se não tivemos força para mobilizar até agora, quem dirá em situação de isolamento social.

Não será o PT de Lula, cujo mutismo no atual momento chega a assustar. Não serão os irmãos Gomes, cujo impulso retroescavador mostra ter fôlego bem curto. Certamente não será um PSOL mais preocupado com suas disputas internas do que com o enfrentamento à extrema-direita.

Caindo Bolsonaro, continuaremos com um governo de direita. Provavelmente será Mourão. Se não for Mourão, será Maia. Ou um governo de "salvação nacional", um triunvirato com o véio da Havan, FHC e Lula, sei lá.

Mas teremos trazido o governo federal para o lado de cá da linha que separa a sanidade da insanidade. No atual momento, isso não é pouco.

Teremos bagunçado o coreto da direita. Teremos ganhado capacidade de iniciativa. Teremos recuperado sintonia com uma parcela barulhenta da opinião pública, ainda que provisoriamente e só enquanto durar o pânico...

Estaremos com melhores condições para barrar o desmonte do Estado e forçar medidas em favor dos trabalhadores, das mulheres, dos desempregados, dos informais, dos micro e pequenos empresários.

Podemos fazer isso. Ou podemos, ao mesmo tempo em que enchemos a boca para falar da "análise concreta da situação concreta", nos refugiarmos no sonho abstrato da revolução.

*Publicado originalmente no Facebook do autor

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