Nunca uma curva definiu tão fortemente o nosso presente

Eu quero que esses dias de exceção sejam breves, ao mesmo tempo que desejo que esse intervalo não acabe em resignação, mas em disrupção, em tomada de consciência

Acordo cedo, bem cedo, mais do que deveria. O espaço entre acordar e ver o dia lá fora passa por leituras e por um tempo de pensar. A quarentena, o intervalo em casa, nos impõem uma dinâmica pendular. Ora subimos em potência criativa, ora descemos na mais cálida autocomiseração. Falo por mim, não há um pêndulo único, cada qual constrói seus sentimentos extremos. 

Mas acordar cedo é o tema, acordar cedo e logo ver um gráfico e uma curva. Como a curva se comporta, como a curva se desdobra em várias leituras, como a curva nos define nesses dias de pandemia. Claro, falo da curva de crescimento, de sua fase exponencial, das comparações China, EUA, Itália, Coréia do Sul, nunca uma curva definiu tão fortemente o nosso presente e o devir. 

E dessa curva irrompem as saudades, as descobertas, as hesitações, os medos, os re(encontros), as conversas há tempos adiadas, os resumos, as avaliações, as projeções de um outro tempo, um tempo que não prevíamos ter, um intervalo de duração indefinida, uma desaceleração bem vinda, mas que amedronta por suas motivações. 


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Novamente a curva, as suas subidas, a sua duração, as suas oscilações, os números, as notícias, a sensação de que a matemática sempre foi mal usada na vida, a soma, o que se subtrai, o que resta, a operação toda se torna nítida como uma metáfora crua do que foi, do que está por vir. 

O vai e vem do dia corre, se contrai, expande, em curvas diversas, cicloide, elipse, bicome, astroide, devil’s curve, e vamos juntos no debate, nas distorções políticas, fascistas, humanistas, libertadoras que as interpretações da curva suscitam toda hora do dia.

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O jeito de olhar e interpretar a curva pode salvar, matar, selar destinos, e daí, as tais oscilações perdem a leveza, o intervalo descompromissado, ganham um peso político no sentido mais literal. 

De novo o acordar e se submeter às notícias, à estupidez, Mandetta sobe e desce, Bolsonaro vaga pelo inferno, Trump é Astaroth, os governadores se apresentam como tábua de salvação, o Congresso que aprovou derrocadas e destruiu recentemente o duro trabalho de gerações (Previdência Solidária, CLT), é a tíbia esperança para uma virada, o Exército que se move para deixar tudo como está, e está sempre pior. 

São os detalhes que fogem de nós na vida normal e nos determinam o tempo todo, no estado de exceção eles gritam. Novamente a curva, suas funções e suas imagens que podem traduzir, vida ou morte, ficar ou esperar, a sensação de não poder voltar atrás para corrigir caminhos é ela também pendular, apavora e liberta. 

Eu quero que esses dias de exceção sejam breves, ao mesmo tempo que desejo que esse intervalo não acabe em resignação, mas em disrupção, em tomada de consciência, em revolução econômica e cultural, na escrita de que as pestes precedem as grandes viradas da história. 

Sobramos eu, os gráficos, as curvas, as interpretações, as vozes outras que rescendem, e esse pensamento que nasceu vago e instigante na manhã de 26 de março de 2020. 

O texto é meu alívio e um jeito de dizer que oscilo e não me curvo. Espero poder lê-lo novamente em outro tempo, tempo de outros pêndulos, outras manhãs, e quiçá serão outros os nomes que construirão uma nova etapa da história.

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