Na recente visita do diretor da CIA a Moscou, a inefável inteligência externa americana foi, como costuma ser, um marco. A última visita desse naipe antecedeu a Operação Z, a operação militar da Rússia na Ucrânia. A natureza desse evento é um rito de troca de informações entre Rússia e Estados Unidos, quando estão prestes a atritar, ainda que indiretamente, embora precisem de uma linha de comunicação para evitar uma escalada nuclear.
Parte da literatura russa passa por episódios curiosos em que o demônio aparece como metáfora ou alegoria mais direta, seja em Dostoiévski quanto em Bulgakov, mas sua presença é de um visitante ou uma visitação que perturba. No longínquo ano 2000, Tony Blair acompanhou Vladimir Putin na ópera para ajudar o russo na sua primeira campanha presidencial – eram tempos de lua de mel entre ocidentais e Putin.
A relação entre britânicos e Putin, inicialmente visto como uma arma contra o comunismo, somente azedou quando sua presidência se colocou contra a empreitada conjunta de Londres e Washington no Iraque – a famosa, e aparentemente esquecida guerra, forjada sob tantas e risíveis mentiras, para estabelecer de vez o controle anglo-americano sobre o Oriente Médio – o que é bem irônico pensando na conjuntura atual.
Se poucos andam lembrando da Guerra do Iraque, menos ainda talvez recordem que a Ucrânia apoiou os Estados Unidos e o Reino Unido naquela aventura, enviando alguns milhares de soldados, dos quais algumas dezenas foram mortos ou feridos. Era tempos de um governo muitas vezes considerado pró-russo em Kiev, sob o comando de Leonid Kuchma. Mas agora, vamos à escalada que está na ordem do dia.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e dos EUA, Donald Trump, durante encontro no Alasca.
(Foto: U.S. Air Force / Justin Connaher)
É possível dizer que a Ucrânia se trata do primeiro conflito do século XXI, contanto que pensemos em termos estritamente bélicos: o uso de drones no campo de batalha gerou o maior giro desde a introdução do avião de combate e das metralhadoras portáteis. A dinâmica das infantarias e do deslocamento na guerra ganhou outra conotação.
Isso era parte da arapuca que a Otan preparou entre 2014 e 2022 na Ucrânia, e para a qual os russos não estavam devidamente preparados: suas marchas de tanques foram instrumentos poderosos de pressão política no pós-guerra, fazendo desmanchar governos incômodos. Por outro lado, Washington contava com um país pouco capaz de resistir a sanções estrangeiras, como a finada União Soviética.
Nem uma coisa, nem outra. Os russos não puseram abaixo o governo Zelensky ou lhe fizeram recuar sobre o ingresso do seu país na Otan – na verdade, o contrário disso; tratou-se sempre da entrada do bloco militar na margem norte do mar Negro. Por outro lado, a Rússia não foi devastada por uma crise econômica que poria o longevo Putin para fora do Kremlin.
Aliados europeus da administração Biden foram postos a se sacrificar, vendo o preço da energia disparar e a popularidade cair. Mas se os liberais da Europa foram enfiados no conflito, por outro lado, eles tomaram gosto por ele, uma vez que uma economia de guerra foi forjada e Donald Trump dava um giro de 180 graus sobre o assunto ucraniano, uma vez retornado à Casa Branca.
Mais do que Putin, o adversário a partir de 2025 passou a ser Trump. E os europeus foram um instrumento de pressão grande, com o apoio do complexo militar industrial, para inclusive fazer o que poucos duvidavam ser possível, que era ajudar a Ucrânia em ataques de profundidade no território russo – visando a infraestrutura energética do país, isto é, principalmente suas refinarias.
A dependência dos britânicos em relação aos Estados Unidos é indiscutível, com sua economia tornada uma colônia financeira, ao seu modo, da economia americana. Mas isso quer dizer também que Londres tem seu próprio lobby dentro de Washington e, por outro lado, que pode ser instrumento de outros setores que se opõem a Trump – mas não necessariamente pela esquerda, ou o que costumava se chamar de esquerda.
Se setores liberais de Washington planejam, desde os anos 1990 pelo menos, a cooptação da Ucrânia para gerar uma “cabeça de ponte democrática” – ou talvez democrata, num trocadilho impossível em inglês –, como literalmente desenhou Zbigniew Brzezinski em sua grande obra ou, talvez, como bucha de canhão para a Otan, como dizia George Soros, o objetivo britânico é outro.
Sem reservas energéticas próprias, dependentes do esquema no Oriente Médio e rivais da Alemanha na Europa, os britânicos basicamente estavam mais interessados em romper a paradoxal integração russo-alemã, quando trabalharam para estourar o conflito na Ucrânia – e ao seu lado, tinham as petroleiras americanas, interessadas em substituir os russos no negócio europeu, nem que fosse temporariamente.
Se o Brexit foi uma manobra afobada de Berlim, depois de ter esnobado os britânicos e agido com força, levando o governo britânico a um plebiscito depois de ter sido humilhado pelos poderes europeus, a guerra na Ucrânia era uma bela resposta. Os custos de curto e médio prazo seriam estancados pela remoção do velho aliado Putin de Moscou, mas também deixariam a Alemanha, novamente, sob controle.
Os derradeiros e seguidos governos conservadores no Reino Unido agiram assim, mas os trabalhistas nada mudaram nessa política. Hoje, o novo premiê, Andy Burnham, que se seguiu a sir Keir Starmer, apenas seguiu essa política, escalando-a ainda mais. Qual será o resultado dessa fantástica escalada, senão um choque frontal entre russos e britânicos?
A grande questão é que Trump e o establishment americano sabem que tal choque se prepara, mas não possuem grande apreço pelos britânicos – e, por isso, não estão desinteressados num conflito entre Londres e Moscou, o que pode enfraquecer as duas partes. Neoconservadores americanos querem essa guerra, pois sabem que uma derrota lhes será mortal.
Se britânicos e russos brigarem, os Estados Unidos preveem um enfraquecimento de ambos. Os trabalhistas britânicos são inimigos de Trump, enquanto Putin é um aliado manco, de quem ele esperava algum engajamento contra a China, algo que se tornou ficção absoluta diante do atual quadro de divisão global – se é que algum dia isso fez qualquer sentido.
Russos mais fracos talvez capitulem, deixando de ser uma retaguarda estratégica fundamental para iranianos e norte-coreanos, ao passo que talvez não seriam capazes de resistir a uma escalada japonesa em razão dos territórios perdidos por Tóquio na Segunda Guerra – quando o Império Nipônico, não custa lembrar, lutou ao lado das forças do Eixo.
Putin, desde o início, se colocou dentro de uma armadilha desescalada, onde ele dava mostras de que iria gerir esse conflito sem maiores estardalhaços e com maiores contenções. Os ucranianos jogaram justamente com essa hipótese, de que não corriam o risco de ter a população civil ou infraestrutura dizimadas, em uma guerra com campo de batalha circunscrito – e, por isso, ousaram fazer ataques à Rússia.
As pressões na Rússia sobre Putin não são pequenas, agora que a vida cotidiana está sendo afetada com vários bombardeios a refinarias. Mas nenhuma parte está calculando bem o que pode ser o custo dessa pressão sobre Putin – talvez somente Trump tenha alguma remota ideia disso, não que se importe com os riscos terríveis, salvo as linhas vermelhas de praxe.
A visita desse mais novo diabinho a Moscou, a mando de Trump, apenas busca recolher informações, passar recados: o grande ponto é que os europeus não contam com, nem contabilizam, a hipótese de uma escalada decisiva russa, alternativa para a qual eles terão somente uma saída: fazer concessões aos Estados Unidos para esperar alguma ação. E assim segue o jogo.
(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.