Terça-feira, 23 de junho de 2026
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A Copa do Mundo de 2026 já nasce marcada, de maneira sem precedentes na história do torneio, pela política externa e interna dos Estados Unidos. Aquilo que deveria ser um espetáculo esportivo se converteu em vitrine das prioridades de um império em reconfiguração: às vésperas do pontapé inicial, o governo Trump ameaçou não renovar o acordo comercial com México e Canadá (o USMCA); a Rússia segue banida e suspensa pela FIFA; o Irã foi obrigado a transferir sua base de treinamento para o México; doze países tiveram a entrada vetada; e, dentro dos próprios estádios, a presença do ICE — a polícia de imigração — instala um clima de ameaça que nenhuma competição anterior conheceu.

As táticas de repulsão e perseguição a imigrantes passaram a ser o pano de fundo de um evento esportivo. Atualmente, a imigração é o bilhete premiado do governo Trump, pois à medida que ele fracassa em entregar o que prometeu — seja no custo de vida, seja no fim das guerras na Ucrânia e na Palestina e na promessa de não iniciar novas, seja na transparência em torno do caso Epstein —, mostrar resultados no combate à imigração torna-se decisivo. Segundo o Deportation Data Project, 167 mil pessoas foram detidas nas onze cidades-sede estadunidenses, e ao menos 19 morreram sob custódia ao longo deste ano. Durante a Copa, registra-se um padrão documentado de negações de entrada e detenções que atingiu jogadores, técnicos, jornalistas, torcedores e seleções participantes.

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Tudo isso aprofundou a deterioração da imagem pública dos Estados Unidos, sobretudo no Sul Global, onde o país é cada vez mais percebido como uma sociedade excludente e racista, governada por um déspota. Cabe perguntar, então, por que os Estados Unidos se mostram tão indiferentes em melhorar a própria imagem. A resposta está no fato de que os Estados Unidos de Trump projetam de maneira deliberada e estratégica uma imagem de imunidade ao que os demais países pensam e ao modo como a opinião pública mundial os percebe. O abandono da construção multilateral do Império em favor de uma coerção assentada na projeção de força e na ausência de qualquer dissuasão se resume na fórmula “não nos importa o que pensem, agora é America First”.

Durante a Copa, registra-se um padrão documentado de negações de entrada e detenções que atingiu jogadores, técnicos, jornalistas, torcedores e seleções participantes. (Foto: The White House / Flickr)

Durante a Copa, registra-se um padrão documentado de negações de entrada e detenções que atingiu jogadores, técnicos, jornalistas, torcedores e seleções participantes.
(Foto: The White House / Flickr)

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O destinatário dessa mensagem são, de um lado, os adversários e aliados dos Estados Unidos, que devem passar a encará-los com mais respeito e até temor, compreendendo que o país não tem vergonha de impor seu interesse próprio e que não recuará diante de nada para alcançar seus fins. De outro lado são setores do próprio movimento MAGA, mobilizados pelo tema do America First e que exigem esse reforço justamente num momento em que as alas mais “America First” do partido se distanciaram de Trump em razão da guerra contra o Irã.

Convém, neste ponto, uma segunda reflexão, relativa ao suposto racismo universal da população anglo-americana dos Estados Unidos. É inegável que uma sociedade construída sobre o escravismo, e que dele emergiu para a segregação, esteja marcada pelo racismo estrutural. Os Estados Unidos são uma sociedade notavelmente segregada quando comparada a qualquer sociedade latino-americana. Isso não significa que o racismo seja menos grave ou menos estrutural em sociedades como a brasileira, onde houve o processo de mestiçagem. A segregação, contudo, é um fenômeno particular, que ergue fronteiras duradouras à humanização do outro. Assim, desumanização estrutural de tudo o que é diferente constitui um traço central da consciência branca estadunidense, forjada na escravidão e na segregação e reforçada pelo imperialismo. Desumanização e racismo cumprem o duplo papel de impedir que pessoas de uma mesma classe se unam contra o inimigo comum e de unir o conjunto da população contra os “outros” estrangeiros, dessensibilizando-a para a violência que o aparato militar dos Estados Unidos comete contra esses eles.

Dito isso, não é verdade que o povo estadunidense seja universalmente racista e incapaz de aceitar ou acolher a diferença. Isso ficou em evidência com a chegada da seleção argelina a Lawrence, no Kansas, quando foi recebida por multidões que a saudavam e carregavam bandeiras da Argélia. A cena vai na contramão do modo como aprendemos a perceber a população estadunidense; agressiva, odiosa, racista. Acredito que o calor humano, a curiosidade e a aceitação de culturas distintas, o respeito e o afeto não são tão raros na população anglo-americana quanto fomos levados a crer. Essa população foi doutrinada e instrumentalizada para servir aos interesses de sua classe dominante, uma classe dominante que igualmente a explora e a vitimiza.

O crescimento do interesse pelo socialismo, e o fato de que as massas estadunidenses se mobilizaram mais do que quaisquer outras contra o genocídio na Palestina, deveriam nos lembrar de que o “MAGAísmo” militante não é um movimento majoritário, e de que Marco Rubio e Donald Trump não compõem um retrato completo da classe trabalhadora dos Estados Unidos. Justamente quando a Copa transforma o país em palco da arrogância imperial, somos obrigados a não confundir o regime com o povo que ele explora, e a procurar nesse povo os aliados de uma luta que a todos diz respeito.

(*) Stephanie Weatherbee Brito é coordenadora da Secretaria Internacional da Assembléia Internacional dos Povos