Sábado, 6 de dezembro de 2025
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A guerra na Ucrânia foi um tremendo evento inflacionário quando foi deflagrada. A administração Biden supôs que poderia destruir a Rússia com sanções, mas elas apenas levaram à realocação logística das exportações russas, principalmente de gás e petróleo, aumentando a inflação global – com Moscou se provando muito mais resiliente, do ponto de vista econômico, do que supunham os democratas.

O resto é a história que cansamos de repetir neste espaço; Biden enfrentou uma inflação galopante, que não poderia ter sua causa principal sanada, logo o banco central americano controlou, em parte, a situação pelo mascaramento via juros altos: de fato, os preços se estabilizaram, mas a um custo muito alto, com o aumento do endividamento das famílias, o que ajudou enormemente a Donald Trump voltar à Casa Branca.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, durante encontro multilateral com líderes europeus. <br> (Foto: Joyce N. Boghosian / White House)

O presidente dos EUA, Donald Trump, e da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, durante encontro multilateral com líderes europeus.
(Foto: Joyce N. Boghosian / White House)

Trump esperava terminar com a guerra rapidamente, ainda mais tendo o argumento inflacionário/juros altos a favor de si. Mas ele rapidamente viu uma rebelião do establishment político europeu, antes empurrado para a guerra e agora disposto a mantê-la, enquanto o complexo bélico americano se mostrou igualmente resiliente – a inflação recuou em um primeiro momento do governo Trump, mas tudo começou a mudar.

Em parte, os efeitos do tarifaço trumpista fizeram recuar a perspectiva de crescimento econômico global, o que levou para baixo o preço do barril de petróleo. Além disso, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) se mostrou pouco disposta a fazer cortes na produção mundial, o que tem feito o barril perder valor – e há várias conjecturas sobre isso, inclusive a participação no negócio da Inteligência Artificial, que demanda muita energia.

Mas o que poderia ser um cenário calmo para Trump, mudou. Os preços voltaram a acelerar, ainda que de maneira anormal: se historicamente o petróleo foi o vilão inflacionário, desta vez as tarifas e o fechamento do mercado americano têm levado à alta dos preços de produtos variados e de alimentos – no que as sanções americanas contra o Brasil se mostram, em particular, um grande tiro no pé.

Trump volta a Kiev

Agora, Trump se volta de novo para a Ucrânia, uma vez que tem a necessidade – e a oportunidade – de estancar uma hemorragia inflacionária. Mas ele não tem espaço de manobra para arbitrar um acordo, pelo simples fato de que a Ucrânia ainda tem meios para continuar lutando, e os russos idem – e ele não tem o que realmente oferecer para ambos. No caso da Ucrânia, ele não consegue suprimir o complexo industrial americano e os governos europeus.

Em tese, a Ucrânia não tem capacidade de lutar esta guerra sem os Estados Unidos, o que se mostra verdadeiro, mas a presidência americana se mostra esvaziada em sua autoridade, porque Trump não parece ter a força para impor sua vontade sobre Kiev. Zelensky sabe disso e resistiu ao plano de paz trumpista, que oferece garantias de segurança para russos e ucranianos, mas prevê uma perda territorial de Kiev, pela atual situação do campo de batalha.

Zelensky não quer e, simplesmente, ele ainda pode dizer não, porque os governos europeus, em sua grande maioria, lhe sustentam e estão amparados pelos mesmos fundos que ganham horrores com a guerra – que foi um grande negócio para uma quantidade pequena de setores, e um problema sistêmico e social muito grande para os Estados Unidos. Nisso, Trump está em apuros.

Atualmente, os juros nos Estados Unidos tendem a continuar caindo, mas no cenário atual, a inflação subirá mais ainda. Isso cria um problema grande. Trump quer juros mais baixos porque precisa, seja para fundos e investidores de todos os tipos e tamanhos continuarem a investir na bolsa, seja também para evitar o estouro de uma bolha imobiliária ou de endividamento – uma bancarrota que atingiria diretamente as famílias, logo, o eleitorado.

O problema é que se aliviar os juros de um lado, mas a inflação subir de novo, ele verá seus índices de popularidade se manterem baixos, ou até diminuírem mais ainda – como aconteceu com Biden no ano da graça de 2022. E Trump sabe o que é perder uma eleição parlamentar de meio de mandato, como lhe aconteceu em 2018, lhe tornando um pato manco, destinado a perder, como perdeu, para Biden em 2020.

A Venezuela não é popular

Some-se isso ao escândalo Epstein, que volta à tona, inclusive, pela insatisfação econômica, a Venezuela aparece como uma cortina de fumaça e, ao mesmo tempo, um meio de contrabalancear o avanço russo na Ucrânia – o problema é que invadir a Venezuela não é popular entre os americanos, como comprovou uma pesquisa CBS/YouGov, na ordem de 70×30. Tampouco parece haver convicção militar de um ataque tranquilo.

Todo esse cenário esvazia ainda mais a autoridade de Trump, que parece ser pouco capaz de recuperar a popularidade e voltar à posição ofensiva no seu mandato – Zelensky sabe disso e, amparado pela aliança dos principais governos europeus, ele continuará a sacrificar seu país no campo de batalha, rejeitando planos de Trump e pedindo garantias de segurança absurdas, que não poderiam ser aceitas por Washington.

 Leia também – O ataque à Venezuela é um ataque ao Brasil 

É evidente que o tempo parece correr contra Trump, pior até do que para Zelensky, cuja perda de tropas e recursos humanos lhe permite lutar por mais alguns anos, ainda que perdendo territórios de forma contínua. O tempo, contudo, é pior para Trump do que para o governo ucraniano a menos que a Rússia mude a forma de combater, o que parece improvável pela correlação de forças internacionais.

Trump tampouco deseja que Putin vença nos termos da Rússia, o que seria uma desmoralização para a atual administração americana. Ou seja, no curto e médio prazo, teremos um impasse absoluto, cujas consequências sobre a economia parecem se somar a outras políticas que asfixiam Trump, conduzindo-o a uma derrota parlamentar no ano que vem – e as variáveis econômicas são preocupantes.

Teria o presidente americano força para reverter essas variáveis infernais e cortar os nós a golpe de espada? Nada indica que sim, como mostra o recente recuo em relação ao Brasil e ao afastamento custoso da Índia de seu amigo Narendra Modi. Nesse sentido, a única guerra possível seria na Venezuela, mas isso se mostra mais difícil do que parece, como temos apontado. Os riscos da estratégia de pressão extrema é algum erro ser cometido e a encenação sair do controle.

(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.