Segunda-feira, 13 de julho de 2026
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Na mesma Europa em que parisienses nadam em canais e fontes para suportar o calor extremo das últimas semanas, governos reconhecem que a crise climática é movida pela queima de carvão, petróleo e gás, mas aceleram e propagam uma política de rearmamento e preparação para a guerra – como se essa “grande estratégia” não tivesse nenhum peso sobre as emissões de carbono. Nesse terreno contraditório, a extrema-direita tenta transformar quem atravessa fronteiras em ameaça ecológica. O neofascismo é uma realidade que ronda a Europa com cada vez mais força social e política. 

Precisamos enfatizar que as ondas de calor não são acidentes atmosféricos nem exageros de verão. É a forma percetível do Capitaloceno – para que o capitalismo não desapareça da cena do crime, como os seus ideólogos procuram fazer. Esse modo de relação social e produção/reprodução que transformou natureza em depósito, energia fóssil em “civilização” e lucro em “direito” histórico devolve a fatura em noites tropicais, corpos exaustos, rios quentes demais para refrigerar centrais nucleares, escolas fechadas e renda familiar corroída, etc. 

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Escultura “Law of the Journey”, de Ai Wei Wei, em exposição na Galeria Nacional de Praga.
(Foto: Gilbert Sopakuwa / Flickr)

É evidente que cada um de nós pode recusar o desperdício em todos seus sentidos, reciclar o lixo, evitar transportes poluentes, reduzir o consumo desnecessário, etc. Todavia, seria uma fraude completa transformar a crise climática numa questão de ordem ética-moral e dos indivíduos, enquanto a estrutura que produz a catástrofe segue intacta. O Capitaloceno não é o resultado da nossa distração doméstica, e sim a forma histórica de uma civilização organizada para converter terra, água, energia, trabalho e vida em mercadoria. A burguesia, sempre criativa quando se trata de lucrar com o desastre que produziu, descobriu agora o fetiche verde: salvar o planeta cobrando taxas ecológicas, vendendo créditos de carbono, privatizando a transição energética e transformando a culpa ambiental em mais um mercado. Enquanto isso, os super-ricos continuam a poluir com seus jatos, iates, foguetes e fantasias coloniais de fuga para Marte. A mensagem é simples: ao povo, sacrifício, disciplina e fatura verde; aos donos do fogo, o direito de incendiar a Terra e ainda vender o extintor.

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A Europa sabe disso. Tem produção científica, institutos, dados, relatórios, alertas e tantas outras coisas. Os líderes europeus reconhecem que o planeta aquece depressa; que o calor mata mais os idosos, os pobres, os trabalhadores que laboram em sol escaldantes, os que vivem em casas numa condição de pobreza energética. Porém, simultaneamente, aceleram os incentivos industriais para a indústria da guerra e securitizam as fronteiras (em sentido amplo), como se tanques produzissem sombra e drones fabricassem chuva.

É nesse interregno entre conhecimento e barbárie que a extrema-direita segue a crescer. As múltiplas crises do capitalismo produzem uma apreensão de desamparo e medo real, aos quais o neofascismo procura oferecer uma explicação falsa e uma vítima conveniente. O imigrante trabalhador, racializado e pobre, deixa de ser força de trabalho explorada para virar ladrão de emprego, parasita do Estado, invasor cultural. Agora, numa camada mais perigosa, pode virar também uma ameaça ecológica.

Pierre Madelin categorizou esse processo político de tentação ecofascista[1]: salvar “a natureza” fechando o mundo aos indesejáveis e sub-humanos. O raciocínio é brutal e elegantemente cínico: não há mundo para todo mundo – e por mundo entenda-se Europa. Portanto, salvemos os “mais humanos dos humanos” (contém ironia). O resto que queime, afogue, migre ou desapareça.

Objetivamente: não são os migrantes que aquecem a atmosfera na Europa; não são os pobres e os subalternos que organizaram dois séculos de capitalismo fóssil. A questão climática, quando separada de classe, do racismo, do colonialismo e da guerra, torna-se terreno fértil para uma ecologia de fronteira. E a fronteira, convém lembrar, não reduz a temperatura, somente escolhe quem será deixado do lado de fora enquanto o mundo arde.

O cinismo europeu cabe numa imagem: o capitalismo fóssil ateia o incêndio, governos prometem apagá-lo com armas, e os neofascistas escolhem imigrantes e seus filhos como culpados por um fogo que não acenderam.

Notas:
[1]  Obra lançada pela editora Boitempo no Brasil, neste ano de 2026. “A tentação ecofascista: ecologia e extrema direita”, de Pierre Madelin, investiga a articulação contemporânea entre ecologia, extrema direita, nacionalismo, racismo, anti-imigração e formas autoritárias de gestão da crise ambiental.

(*) Carlos Hortmann é filósofo, historiador e jornalista.