Sábado, 6 de junho de 2026
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Durante meses, Gaza foi/é transformada num campo de ruínas e num lugar quase inabitável. Bairros inteiros desapareceram, hospitais ficaram destruídos, escolas e campos de refugiados foram bombardeados, jornalistas e profissionais de saúde foram assassinados pelas IDF, e centenas de milhares de pessoas são empurradas para a fome, o deslocamento forçado e uma luta diária pela sobrevivência. Mesmo diante da multiplicidade de imagens que correram o mundo concomitante às acusações cada vez mais consistentes de genocídio formuladas por organizações internacionais, especialistas e instituições de direitos humanos, a Europa respondeu com declarações “cautelosas”, apelos à contenção e referências genéricas ao direito internacional, e, sobretudo, sem romper relações com o Estado sionista Israel e nem impor consequências políticas proporcionais à dimensão da catástrofe – uma excepcionalidade mais retórica do que prática substantiva foi a Espanha.

Nesse sentido, a passividade dos ex-impérios coloniais não pode ser explicada por “desconhecimento”. Os governos europeus (e grande parte das suas populações) viram as imagens, receberam relatórios, ouviram os alertas das Nações Unidas e acompanharam a destruição sistemática das infraestruturas civis de Gaza. Todos nós víamos ao vivo que a fome estava sendo utilizada como arma de guerra, hospitais eram atacados e multidões inteiras eram deslocadas repetidamente naquela pequena faixa. Ainda assim, a resposta dominante foi justificada cinicamente pela “prudência diplomática”. O sofrimento palestino foi tratado como uma tragédia lamentável e imparável, mas insuficiente para justificar uma ruptura política séria com projeto sionista. Objetivamente, afirmo: o genocídio não produziu indignação proporcional porque as suas vítimas eram palestinas. A racialização e discriminação de povos muçulmanos é uma veia-mestra do racismo europeu do seu período “pós-colonial”.

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alestinos buscam seus pertences em meio às ruínas após ataques israelenses a Gaza, em 2014.
(Foto: UN Photo / Shareef Sarhan)

Sob essa perspetiva analítica é que entendemos ter sido preciso que Itamar Ben-Gvir humilhasse ativistas europeus da flotilha Global Sumud — ajoelhados, algemados e exibidos publicamente — para que a indignação assumisse um tom diferente e pronunciável. De repente, o tratamento “humilhante” tornou-se motivo de condenação firme; Portugal protestou, França proibiu a entrada de Ben-Gvir, Itália defendeu sanções e outros governos europeus seguiram o mesmo caminho. É nesse ponto que uma pergunta se impõe: o que realmente escandalizou a Europa? A destruição de Gaza e o sofrimento dos palestinos ou o fato de a arrogância do poder sionista ter sido exercida contra cidadãos europeus, brancos na sua maioria?

O episódio expôs algo mais profundo do que uma simples reação diplomática, isto é, evidenciou a hierarquia ético-moral e racial que continua a estruturar o “olhar europeu” sobre o mundo. No decurso de meses, a violência colonial sionista foi tolerada enquanto permanecia confinada aos palestinos, isto é, aos sujeitos historicamente colocados racialmente fora do campo humano da plena empatia política ocidental – os considerados sub-humanos. Quando essa mesma violência se tornou visível através da humilhação de cidadãos europeus (brancos), aparentemente, “deixou de ser” um problema palestino e passou a ser percebida como uma afronta intolerável. O ponto central do que estou a tentar enunciar é que não foi a violência que mudou; o que se alterou é “apenas” quem a sofreu.

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Ben-Gvir não é uma exceção, muito menos um acidente no Estado sionista de Israel. O mesmo é o ministro da Segurança Nacional de Israel e representa, de forma particularmente agressiva e explícita, uma lógica política profundamente enraizada no projeto colonial sionista. A sua brutalidade verbal e simbólica apenas torna mais visível aquilo que outros dirigentes procuram apresentar através de uma linguagem mais aceitável. Quando Ben-Gvir fala de expulsões, repressão ou supremacia, limita-se a dizer sem filtros aquilo que frequentemente é justificado e velado através dos conceitos ideológicos de “segurança”, “autodefesa” ou “combate ao terrorismo”.

Sendo leal ao meu ofício de historiador, não me canso de relembrar que a destruição de Gaza não surgiu do nada, nem começou no dia 7 de Outubro de 2023. É o prolongamento de uma história que começa com a Nakba de 1948, quando centenas de milhares de palestinos foram expulsos das suas terras a fim de permitir a construção do Estado sionista de Israel. Desde então, o colonialismo sionista assentou na expropriação, na ocupação militar, na expansão dos colonatos, na segregação territorial e na negação sistemática da humanidade do povo palestino e sua autodeterminação. Gaza tornou-se a expressão extrema dessa realidade: um território cercado, submetido a bloqueio durante anos e, agora, devastado por uma campanha militar que destruiu as condições mínimas de vida da sua população.

Por isso, a condenação seletiva de Ben-Gvir corre o risco de funcionar como uma operação de “limpeza” política. Sacrifica-se e demoniza-se uma figura particularmente incômoda para evitar discutir a estrutura que a produziu. Condena-se o excesso para preservar a regra. Ben-Gvir é apresentado como o problema para evitar reconhecer que a violência que ele encarna não é uma anomalia, mas uma manifestação particularmente transparente de uma política de dominação colonial sustentada pelo próprio Estado sionista de Israel.

O cinismo europeu se evidencia precisamente nessa indignação seletiva e na dessensibilização no decorrer do genocídio. Gaza pôde ser destruída durante meses sem provocar uma ruptura séria nas diferentes relações com Israel (fundamentalmente a militar e a econômica). Milhares de palestinos morreram sem que isso desencadeasse sanções equivalentes às aplicadas em outros conflitos; a fome foi utilizada como instrumento de guerra sem que os acordos de cooperação fossem suspensos. Entretanto, quando a humilhação atingiu cidadãos europeus de uma forma explícita, ou seja, impossível de se justificar ideologicamente, a indignação tornou-se finalmente vocal.

Este cinismo sustentado no racismo demonstra que a violência colonial se torna escandalosa e reprovável não quando destrói vidas palestinas, mas quando deixa de poder ser confinada ao espaço colonial e se torna visível aos olhos da Europa através dos seus próprios cidadãos. O problema, para muitos governos europeus e seus citadinos, não parece ser o genocídio em si, mas o fato do genocídio ter produzido imagens e episódios que tornaram impossível continuar a fingir que nada estava acontecendo.

Se as populações europeias quiserem por fim à lógica política do cinismo, terão que fazer pressões nas ruas para que os seus governos não fiquem apenas nas sanções a Ben-Gvir, e terão de enfrentar a realidade do genocídio em Gaza, reconhecer a natureza colonial da opressão exercida sobre os palestinos, impôr consequências efetivas ao Estado sionista e romper com décadas de cumplicidade política que ajudaram a tornar possível a tragédia que hoje a humanidade testemunha, na sua maioria, apaticamente. Enquanto não o fizer, cada gesto de indignação (seletiva) somente confirmará aquilo que Gaza já revelou ao mundo: que, para muitos dirigentes e cidadãos europeus, a violência só se torna verdadeiramente intolerável quando deixa de atingir apenas os colonizados.

(*) Carlos Hortmann é filósofo, historiador e jornalista.