Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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Em Palavras-chave (volume lançado aqui pela Boitempo), Raymond Williams, sociólogo e crítico cultural galês que passou a vida rastreando o que as palavras guardam de história dentro de si, registra uma inquietação que o verbete sobre “experiência” carrega desde o título: a palavra, ao longo do tempo, foi perdendo o sentido de conhecimento obtido pela prova, pelo atrito com o real, pelo que se atravessa e se elabora, e passou a designar, cada vez mais, a simples consciência imediata do presente. Williams escreveu isso em 1976. Ali está documentando um declive: a experiência foi se tornando sinônimo de sensação direta, e a sensação direta não precisa de mediação nem exige o tempo em que algo sedimenta.

Cinco décadas passaram, o que Williams descrevia como declive tornou-se condição de existência. Quase nada dura o suficiente para virar pensamento. O fluxo é contínuo, a exposição é total, e o intervalo necessário para que um evento se converta em compreensão foi comprimido até quase desaparecer. Ser informado virou outra coisa: uma forma de exposição que sacrifica a elaboração.

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Fachada do Palácio do Congresso Nacional, a sede das duas Casas do Poder Legislativo brasileiro. <br> (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Fachada do Palácio do Congresso Nacional, a sede das duas Casas do Poder Legislativo brasileiro.
(Foto: Pedro França/Agência Senado)

A política é onde isso aparece com menos pudor do que em qualquer outro lugar. Nunca se falou tanto dela, nunca se teve tanto acesso ao que se passa dentro dela. O resultado foi uma camada espessa de opiniões que circulam sem lastro, seguras de si na proporção em que dispensam memória. Quem as carrega confunde exposição com entendimento. Pior: nem percebe que está confundindo.

O que se perde tem nome. Perder a experiência elaborada significa perder a capacidade de situar o presente dentro de qualquer coisa maior, um processo, uma história, uma contradição que já estava lá antes. Significa julgar cada evento como se fosse o primeiro, reagir como se não houvesse antecedente. A memória curta instalou-se como normalidade, e serve muito bem para que as coisas não se conectem.

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É isso que coloca uma questão que vai além do diagnóstico cultural. Se a experiência elaborada é o que permite julgar, comparar, recusar, então seu enfraquecimento é também um enfraquecimento da capacidade crítica em sentido amplo. Uma capacidade coletiva, que se produz ou se desfaz segundo as condições em que uma sociedade vive e processa o que vive. O que se vulgariza, no limite, é a própria operação da política: a que se passa nas instituições e a que habita o cotidiano, os vínculos, as decisões miúdas sobre como se está no mundo com os outros. Uma sociedade constituída por fragmentos reage, indigna-se, opina. Dificilmente compreende.

O Banco Master e as crises sucessivas do STF são exemplos em curso, e é por isso que importam. O debate público que os cerca funciona como descarga: a indignação circula, o repúdio é performado, o ciclo se encerra em si mesmo. O que está em jogo permanece submerso. As engrenagens do sistema financeiro, os interesses reais por trás de cada episódio, os nomes que lucram com a opacidade. A reação moral se satisfaz com o próprio gesto, e isso tem uma consequência que vai além da desinformação.

O que se perde é real e palpável. 

Quando a indignação substitui a compreensão, quem governa o barulho governa também o silêncio sobre o que importa. Os grandes beneficiários dessa vulgarização da experiência política raramente aparecem no centro do escândalo. Aparecem, quando muito, como pano de fundo, enquanto o debate se concentra no episódio imediato, na fala, no gesto, na performance. O moralismo cobre o que a análise descobriria. E cobre com eficiência justamente porque parece o oposto da cumplicidade.

Há algo mais sofisticado em operação do que a simples desorientação. A velocidade com que os escândalos se sucedem produz um efeito específico: embaralha o que é grave com o que é banal, o que é estrutural com o que é episódico. Quando tudo é escandaloso, nada verdadeiramente o é. O amálgama é conveniente porque nivela, e ao nivelar protege o que deveria ser distinguido, e garante que a sociedade chegue às urnas, às decisões, aos julgamentos coletivos, sem ter compreendido o suficiente para escolher com clareza.

E essa amálgama traz consequências que não ficam no plano das ideias. A experiência que não se elabora não desaparece: ela se converte em outra coisa. Em voto dado sem compreensão do que se está escolhendo. Em rejeição construída sobre imagem, em engajamento que se esgota no clique, em punição simbólica que poupa quem deveria responder. O empobrecimento da experiência política não é um problema cultural no sentido fraco da expressão. É o mecanismo pelo qual decisões reais são tomadas por razões que mal se sustentam.

Cinquenta anos separam o diagnóstico de Williams do que se vê hoje, e nesse intervalo algo se consolidou. A sensação direta que ele via ganhar terreno sobre a experiência elaborada deixou de ser uma deriva para se tornar o regime em que a política funciona. Uma sociedade que reage sem compreender, que se indigna sem acumular, que opina sem julgar, não consegue reconhecer seus próprios interesses com clareza suficiente para defendê-los. Essa incapacidade tem beneficiários, e eles sabem disso melhor do que ninguém.

No fundo, o que se disputa é se a experiência vivida, o Banco Master, o STF, a eleição que se aproxima, o preço do que se come, consegue se converter em pensamento sobre o que ela significa. Por enquanto, a indignação circular tem dado conta do recado. Para quem precisa que as coisas não sejam compreendidas, ela adia o que não pode esperar. É um arranjo cômodo. E como todo arranjo cômodo, tem patrocinadores.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.