A França de Macron e a encruzilhada política da única potência nuclear da Europa Ocidental
Eleições municipais francesas tiveram participação superior que em 2020, mostrando um país com rachas relevantes e dúvidas sérias sobre o futuro
Há pouco, um tripulante do Charles de Gaulle, único porta-aviões da marinha francesa e seu principal navio, revelou sua localização por estar usando o aplicativo Strava para registrar seus treinos. O fato foi revelado dias depois pela imprensa francesa, mas se até ela soube, é certo que iranianos, russos e chineses também soubessem. O porta-aviões estava próximo da costa do Chipre, apoiando ou monitorando a agressão americana e israelense ao Irã. Uma anedota.
Nas últimas semanas, o presidente francês Emmanuel Macron deu declarações descoordenadas sobre o quadro do Oriente Médio, sempre tomando o cuidado de tomar a posição ocidental. Macron – que muito fala, mas nada diz – deixará de ser presidente do seu país no ano que vem, enquanto na última semana viu eleições municipais mandarem sinais trocados: nada radicalmente diferente de 2020, ano do último pleito, mas com algumas nuances.

O presidente da França, Emmanuel Macron.
(Foto: Faces Of The World / Flickr)
Ainda assim, o público brasileiro se concentrou nas eleições das grandes cidades francesas, que pouco ou quase nada dizem. Os quase 70 milhões de franceses vivem em cidades pequenas. Paris tem pouco mais de dois milhões de habitantes – e caindo! – e é a única cidade com mais de um milhão de habitantes – Marselha gira em torno de 870 mil almas, para se ter uma ideia. E, nas cidades com menos de 100 mil habitantes, a vida tem dramas diferentes.
A França que emergiu das urnas basicamente viu a direita comum ter uma excelente votação, acima do centro e da esquerda, mas muitos leram o resultado pífio da extrema direita como um alento para as presidenciais de 2027. Isso, no entanto, nos parece um erro. Na França, como no Brasil, eleições municipais possuem dinâmicas diferentes do nacional. No caso francês, eleitores tendem menos aos polos em escala local.
Há seis anos, a participação eleitoral foi bem menor, com 44,66% versus os atuais 57%. A França estava muito menos polarizada, com 25% dos eleitos para chefiar o poder local classificados como “sem rótulo”, diferentemente do momento atual. No cenário da última semana, as esquerdas saíram de um quarto dos votos para cerca de um terço, mas as direitas, ainda que a de setores moderados, cresceram, chegando a quase 40%. O que isso quer dizer?
A França polarizada
Primeiramente, o cenário municipal não muda o fato de que a extrema direita francesa segue na liderança das próximas eleições presidenciais, muito mais forte do que em 2022. Com seu sistema político caótico, os franceses elegem suas lideranças locais a cada seis anos, enquanto as presidenciais são a cada cinco anos. Dito isso, as últimas municipais, em 2020, mostraram um quadro muito menos radicalizado do que as presidenciais de 2022.
Nada mudou muito radicalmente entre 2020 e 2022, e salvo um agravamento da situação mundial, nada deve mudar tanto assim entre 2026 e 2027; apenas que talvez o cenário nacional francês influa mais sobre o local do que o contrário – no que o país europeu talvez se pareça com o Brasil. Mas as direitas avançaram e os eleitores que consignaram apoio nas urnas a algum conservador democrático podem, muito bem, votar na extrema direita no ano que vem.
Em Paris, é verdade, pouco ou nada mudou com a centro-esquerda socialista vencendo. Mas essa hegemonia estabelecida desde o início deste século não tem se repetido em escala francesa. Em 2022, apesar da candidata presidencial socialista ser a própria prefeita parisiense reeleita, a socialista Anne Hidalgo, ela teve apenas pouco mais de 2% dos votos, ficando em uma vexatória sexta colocação na capital francesa.
Nacionalmente, boa parte dos eleitores socialistas nas municipais de 2020 preferiram o centro liberal com Macron ou a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon. Depois disso, nas eleições legislativas seguintes, seja em 2022 ou naquelas convocadas pela dissolução da Assembleia Nacional por Macron em 2024, as esquerdas resolveram se reunir em um único bloco, criando uma divisão em três no parlamento.
De lá para cá, Macron impôs primeiros-ministros, apesar de seu bloco parlamentar ser o menor dos três, e da esquerda ter maioria relativa. As pesquisas mostram que a extrema direita se fortaleceu de 2024 para cá e, independentemente dos resultados de 2026, ela avançaria mais ainda no parlamento, passando de quase 30% para cerca de 36% do total, roubando votos da direita tradicional e mesmo do centro.
O que a extrema direita francesa diria? E para onde a França vai?
Enquanto Macron foi pérfido com o genocídio dos palestinos, é ambíguo com Donald Trump, declarando, em particular, apoio à jornada anti-Irã do atual presidente americano, mas sem enviar suas tropas para o Oriente Médio – muito embora o posicionamento revelado, de forma desastrada, do Charles de Gaulle, indique que ele mantém sua marinha dando algum tipo de apoio a americanos e israelenses.
A extrema direita francesa, no entanto, se reinventou nos últimos anos ao abrandar excessos retóricos, enquanto se mantém contra imigrantes, busca narrativas democráticas para sua islamofobia, mas abandona um certo ideário desenvolvimentista para a economia, enquanto flerta com neoliberais para gerir a economia. A burguesia francesa, que antes via com um misto de desprezo e medo seus fascistoides, hoje achou um espaço para ela.
O mais importante é que Marine Le Pen, antes candidata do seu partido e hoje inelegível, agora flerta com Israel, em uma ironia muito bizarra e curiosa que parece se repetir entre a extrema direita europeia. Já a esquerda francesa parece ser incapaz de se unir para o que importa, as presidenciais, mas fatores geopolíticos contam bastante, com os socialistas e alguns verdes defendendo de forma moderada, ou não se opondo, à barbárie ocidental no Oriente Médio.
O macronismo está rachado entre sua ala mais liberal e moderna, e um certo conservadorismo moderado liderado por Édouard Philippe, prefeito reeleito de Le Havre e ex-premiê sob a presidência de Macron – que procura se apresentar, no entanto, como nem de esquerda nem de direita, e tampouco de centro, em uma fórmula tão manjada quanto universal das eleições das democracias representativas.
Com a política de cerco e pressão sobre a Rússia em frangalhos – sobretudo pela dependência agora redobrada da energia russa para a Europa –, e os avanços nacionais contra as práticas neocoloniais em África, a França, cuja importância para o mundo contemporâneo é central, parece em compasso de espera para uma grande tempestade. Só resta a voz digna de Mélenchon, o último dos tribunos do povo a talvez espernear contra o inevitável.























