Terça-feira, 6 de outubro de 2026
Compartilhe:

A economia ocidental se vê diante de uma crise de um insumo fundamental, o diesel, após a escalada especulativa fabricada pela guerra de agressão de EUA e Israel contra o Irã. Segundo o Tehran Times, o confronto do Império Decadente contra a República Islâmica criou a tempestade perfeita no setor energético, que agora prejudica os consumidores em todo o mundo.

Com a incapacidade da Casa Branca de prever a interrupção do Estreito de Ormuz, e com ​​os preços do diesel batendo recordes em três continentes, desencadeou-se uma catástrofe na cadeia de suprimentos que ameaça levar a economia global à recessão. Seria essa a meta de Trump? Será que a crise gerada atinge a China, a Organização de Cooperação de Xangai? Tudo nos leva a crer que a primeira pergunta tem como resposta “sim”, e a segunda “não”.

E-mail

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.

Canal do WhatsApp O mundo em movimento direto no seu celular.
Siga
TV Opera Mundi Opinião, contexto e coragem jornalística.
Sintonize

A crise do diesel gerada por Trump

Segundo a CNBC, os preços do diesel nos EUA atingiram um recorde histórico de US$ 6,31 por galão esta semana, enquanto a Reuters informa que a média subiu para US$ 6,29 – um aumento impressionante de 68% em relação ao ano passado. Na Europa, dados da Comissão Europeia mostram que o diesel chegou a € 2,159 por litro, o maior valor desde o início dos registros em 2005. Esses não são números abstratos; representam um ataque direto às famílias trabalhadoras.

A nova frente da guerra regional anti-imperialista implica em ataques a oleodutos sauditas e a contínua interrupção no Estreito de Ormuz, criando o que o estrategista de cadeia de suprimentos Steve Blough chama de “uma tempestade perfeita”. O Financial Times relata que as exportações de diesel das refinarias da Ásia Ocidental despencaram para cerca de um quarto dos níveis pré-guerra, enquanto os ataques à infraestrutura de refino russa retiraram milhões de barris por dia dos mercados globais.

Apuração em tempo real Acompanhe os resultados

As consequências vão muito além dos postos de gasolina. Os custos do óleo para aquecimento residencial podem subir 31% neste inverno europeu, forçando o que o diretor de assistência energética, Mark Wolfe, alerta que exigirá “sacrifícios significativos” de famílias de baixa e média renda. Empresas de transporte rodoviário enfrentam prejuízos de US$ 10 milhões. Agricultores, construtoras e sistemas de transporte público também sofrerão com aumentos de custos exorbitantes.

Analistas do JPMorgan admitiram na quinta-feira (17/09): “Pela primeira vez desde o início do conflito com o Irã, não temos uma perspectiva de referência. A suposição de que a interrupção é temporária está se tornando cada vez mais difícil de sustentar.”

Talvez o mais condenatório: o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, reconheceu a crise ao mencionar o spread de refino – a margem entre o preço do petróleo bruto e o do diesel – como um fator-chave da inflação. O “fracasso” da administração Trump em garantir as cadeias globais de abastecimento de energia entregou aos consumidores americanos uma guerra econômica que eles nunca pediram e da qual não podem escapar facilmente.

Fica a pergunta: foi “fracasso” ou é uma crise programada para gerar recessão na economia mundial, de modo a tentar impedir o avanço da integração eurasiática? A tese que levantamos é essa, a do choque econômico como doutrina de implantação de uma tentativa de cerco ampliado da Ásia pelos EUA e aliados subalternos. 

O preço do diesel no Brasil é fruto direto do PPI e do entreguismo pós-golpe

Segundo o portal Terra, o preço médio ‌do diesel S-10 nos postos do Brasil subiu 2,3% nesta semana ante a anterior, para R$7,13 por litro, maior patamar desde o final de maio, apontou pesquisa da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), na sexta-feira (18/09).

O avanço dos preços do combustível mais consumido do Brasil ocorre após uma disparada das cotações do petróleo e seus derivados no mercado internacional ao ‌longo deste mês, em momento em que o plantio de soja no país começa, considerado um dos períodos de maior demanda por diesel.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso na Assembleia das Nações Unidas. <br> (Foto: Daniel Torok / White House)
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso na Assembleia das Nações Unidas.
(Foto: Daniel Torok / White House)

Tapando o sol com a peneira

De acordo com a Agência Brasil, o Conselho de Administração da Petrobras aprovou, na sexta-feira (18/09), a adesão à subvenção econômica aos produtores e importadores de óleo diesel e suas correntes. A subvenção foi instituída pela Medida Provisória 1.391, de 11 de setembro de 2026.

Com isso, a empresa receberá uma subvenção no valor em R$ 1 por litro de óleo diesel “A”, de uso rodoviário, pelo prazo de 30 dias, podendo ser prorrogada por igual período. O valor será transformado em desconto no valor do combustível vendido às revendedoras.

Nesta semana, a Petrobras informou que decidiu também aumentar em R$ 1 o preço do litro do combustível vendido às revendedoras. Somando o desconto com o aumento, o diesel terá seu preço mantido.

Outras subvenções

A Petrobras também informou, no sábado (19/09), que recebeu uma parcela de R$ 448 milhões referente ao Programa de Subvenção Econômica à comercialização de gasolina, referente ao período de 16 a 31 de julho.

Com esse pagamento, o valor acumulado recebido pela Petrobras dos programas de subvenção ao óleo diesel, gasolina e GLP alcança, até o momento, R$ 9,9 bilhões.

Apontando conclusões

Em escala ocidental, a guerra de Trump e Netanyahu contra a República Islâmica do Irã criou as condições perfeitas para o controle de águas binacionais (Irã e Omã) no Estreito de Ormuz e a diminuição da exportação de diesel através desse canal marítimo. Meses depois, a estupidez continua, quando a Arábia Saudita toma a iniciativa de romper a trégua tácita contra o Iêmen e arrisca uma guerra direta. A resposta iemenita é atingir tanto as instalações das refinarias da Saudi Aramco como o oleoduto sob controle de Riad. O resultado é o subproduto da derrota imperialista: a inflação gerada pela alta do custo do diesel, pressionado pela corrida especulativa nos contratos futuros. 

No caso do Brasil, estamos vivendo a herança maldita do golpe de 2016 e a covardia política após a derrota da tentativa de golpe bolsonarista. A Petrobras se caracterizava por uma empresa de ciclo completo de energia, do poço ao posto, e com capacidade de reconversão energética e industrial. Após a gestão de Pedro Parente na Petróleo Brasileiro S.A. (31/05/16 a 01/06/18), o Brasil ficou amputado de sua capacidade de precificação nacional. Depois, no desgoverno Paulo Guedes, o país vende refinarias estratégicas e auxilia a formação de preço supostamente importado, imposto pelo Fundo Mubadala (Emirados) na compra a preço de banana podre da refinaria Refinaria Landulpho Alves (RLAM) depois chamada de Mataripe.

A formação do preço do diesel na 8ª economia do mundo é atingida pela refinaria privatizada, as distribuidoras privatizadas e o preço especulativo forçado com a guerra de Trump e Netanyahu e sua posterior derrota. Insisto com a tese: o membro da gangue de Epstein à frente da Casa Branca tinha (tem) como plano B – ou objetivo secundário – gerar uma inflação na Ásia, mesmo que o efeito indireto seja a pressão inflacionária no ocidente, incluindo os próprios Estados Unidos. 

(*) Bruno Lima Rocha Beaklini é jornalista da HispanTV Brasil, doutor em ciência política, tem pós-doc em economia política internacional e é professor de relações internacionais.

blimarocha@gmail.com / www.estretagieanalise.com.br

Mais lidas