Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
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Fechando o primeiro quarto de século, o que podemos esperar nos próximos anos, tendo como perspectiva de futuro o sufocamento das expectativas emancipatórias como efeito da radicalização de uma extrema direita que toma cada vez mais as rédeas do projeto de sociedade por vir – especialmente no que diz respeito aos desenvolvimentos tecnológicos e seus desdobramentos geopolíticos? Se o começo do século teve a globalização revigorada por esperanças anárquicas frente à conexão global, que foi possibilitada com a pulverização da internet, hoje podemos dizer sem ressalvas que essas esperanças se converteram em uma distopia presente, onde o sonho da conexão global se converteu em um pesadelo de vetorização e dataficação social, onde realizaram-se – ou extrapolaram-se – os maiores sonhos eróticos fascistas do século passado.

Se o rádio e a televisão forjaram as formas midiáticas e estéticas da experiência política no século XX, hoje as conexões em rede revelam a dinâmica do capital em sua nova temporalidade: a aceleração e o descarte, a polifonia difusa, o noise informacional realizam a experiência ruidosa do capital em seu “pleno” desenvolvimento – e as alternativas a essa dinâmica, mesmo que modestas, provocam cada vez mais o tensionamento das velhas estruturas que insistem em se reproduzir pela sua necessidade à lógica sistêmica, ao mesmo tempo em que à revelia das própria dinâmicas impostas pelos desdobramentos sociotécnicos.

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Israel é o laboratório do neocolonialismo high-tech, de onde eventualmente saem algumas mea culpa de grandes empresários, enquanto observam e gozam da valorização de suas ações na medida em que determinadas patentes se provam efetivas para o extermínio de populações inteiras. <br> (Foto: IDF Spokesperson's Unit / Wikimedia Commons)

Israel é o laboratório do neocolonialismo high-tech, de onde eventualmente saem algumas mea culpa de grandes empresários, enquanto observam e gozam da valorização de suas ações na medida em que determinadas patentes se provam efetivas para o extermínio de populações inteiras.
(Foto: IDF Spokesperson’s Unit / Wikimedia Commons)

O conservadorismo soube se atualizar – ainda que esse saber seja inconsciente (mas também objetivo) –,  transformando a subjetivação digital em uma frente de batalha fundamental, e tendo sua formatação como aliada: se antes o hack-ativismo e a anonimidade das redes propiciavam uma espaço de disputa minimamente igualitário, hoje a dominação das plataformas por oligopólios restritos serviu para transformar a arquitetura digital em uma ferramenta de sequestro da atenção e do engajamento, fomentando justamente seus contrários. O “espaço virtual” verteu-se em fazendas de dados, onde o extrativismo informacional revela-se o grande negócio. 

Por mais que a propaganda apareça na vitrine como fonte de renda central das plataformas digitais, foram elas que atualizaram a confluência entre poder econômico e político no capitalismo. Não se trata de poder pela valorização especulativa desses capitais, mas o contrário: seu poder econômico é oriundo de uma ficcionalização que se respalda no potencial político que, não apenas virtualmente, possuem. Se contabilizarmos apenas as chamadas “Big Five” estadunidenses – as empresas Alphabet (Google), Amazon, Apple, Meta (Facebook) e Microsoft –, podemos notar que o alerta feito pelo próprio Dwight D. Eisenhower em 1961 não só se mostrou verdadeiro, como foi mesmo superado. Em um discurso, o então presidente dos EUA já alertava para a necessidade do Estado e da “arte de governar” se protegerem “contra a aquisição de influência injustificada, seja ela buscada ou não, pelo complexo industrial-militar” (termo cunhado pelo próprio), enfatizando que “o potencial para a ascensão desastrosa de poder mal direcionado existe e persistirá”.[1] 

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Obviamente, Eisenhower não era nenhum revolucionário socialista, mas seu alerta provavelmente desencadearia repulsa da atual extrema direita, especialmente quando enfatizou que seria necessário ficarmos alertas “para o perigo de que a política pública possa se tornar prisioneira de uma elite científico-tecnológica”. Seu alerta verteu-se em uma predição não apenas realizada, mas que possivelmente superou as piores expectativas: hoje os EUA, sob a égide do governo e da ideologia trumpista, verteu-se em um projeto tecnocrático fascista, onde o domínio da dataficação global é orientado pelas perspectivas privadas – logo, mercadológicas – de poucos bilionários associados ao Vale do Silício. 

Nessa consolidação do capital orientado pelo domínio tecno-científico, foi um terceiro elemento, fundamental na história da modernidade, que possibilitou a dissolução entre iniciativas “públicas e privadas”: a guerra. É justamente essa chamada “mãe e parteira de todas as coisas” que irá viabilizar a centralidade do desenvolvimento digital – monopolizado por empresas estadunidenses –, na medida em que forma o mito de uma guerra “casualty-free” que eventualmente desemboca para a alienação total do extermínio, como vemos hoje nos usos de inteligência artificial para o targeting de alvos na Palestina. Israel é o laboratório do neocolonialismo high-tech, de onde eventualmente saem algumas mea culpa de grandes empresários, enquanto observam e gozam da valorização de suas ações na medida em que determinadas patentes se provam efetivas para o extermínio de populações inteiras.

Foram muitos percursos para que o genocício com mediação digital se torna-se grande vitrine de mega empresas – vale notar que essa história não se restringe ao século XXI, já que desde o nazi-fascimos encontramos a presença fundamental da IBM na burocracia do extermínio promovido pelo Terceiro Reich. Mas agora a capacidade de metrificação ultrapassa a possibilidade de mediação humana, na medida em que a subjetivação produz efeitos que excedem suas causas: hoje, os efeitos excedem não apenas suas causas, mas são imprevisíveis para o próprio horizonte de possibilidade dos quais emergem. A objetividade do controle se verte em uma opacidade jamais imaginada, talvez jamais imaginável nas condições simbólicas da humanidade. 

Uma coisa que esse primeiro quarto de século nos ensina radicalmente é como a “natureza humana” não tem nenhum lastreamento inato, nenhuma imutabilidade, mas tem em sua própria plasticidade tanto virtude quanto risco. Os grandes negócios do nosso século estão, cada vez mais, tendendo para a capacidade técnica – ou, se quisermos, para os modos de produção – voltados à subjetivação das massas. Se no século XX as media revelaram-se fundamentais, agora encontramos o segundo império da estatística e da probabilidade com a escala global da dataficação, vetorização e tokenização de toda experiência humana – e mesmo não-humana – planetária. Se as gerações passadas foram apresentadas às telas, as gerações atuais e as próximas são apresentadas ao mundo pelo enquadramento de dispositivos que estão ao alcance de nossas mãos 24 horas por dia, organizados por uma distribuição de conteúdos com curadoria automatizada, feita por algoritmos prioritários que servem à princípios não só alienados, mas completamente (des)coordenados. 

Estima-se que existam hoje 3 bilhões de usuários mensais do Instagram, o que corresponde a mais de um terço da população global. Em uma realidade de expectativas decrescentes, onde a sociedade pós-salarial é cada vez mais uma imposição, tais plataformas tornam-se horizonte de trabalho e renda – irrealizável, para a maioria da população –, mas fundamentalmente, tornam-se a experiência “privada” e digital de subjetivação social. Se o horizonte é aterrador, ao menos podemos dizer que cada vez mais nossos inimigos se tornam evidentes: se o diagnóstico de deteriorização cultural dos laços sociais pela mediação privada da experiência com o Outro – onde a alteridade é vista não apenas como empecilho, mas empecilho a ser potencialmente especulado mercadologicamente por cada indivíduo –, o prognóstico de uma guerra total torna-se um plano de carreira a ser desejado virtualmente por todos. 

Esse é o horizonte para os próximos tempos: um mundo degradado onde a desesperança é o motor da fragmentação social, e a guerra de todos contra todos é o limite político para a gestão da barbárie. O que será feito disso cabe à nossa capacidade de imaginação política, cada vez mais tacanha e sequestrada pelo imaginário limitado que nos é imposto. Façamos disso um combustível para negar nossas determinações, esses são os votos fundamentais para nossos próximos anos.

(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação.

Notas:
[1]  DA SILVEIRA, Sérgio Amadeu. As big techs e a guerra total: o complexo militar-industrial-dataficado. Hedra, 2025.