A violência dos colonos e a nova Nakba na Cisjordânia
A Nakba não ficou em 1948: o colonialismo israelense opera hoje de forma gradual para apagar a presença e a continuidade territorial palestina na Cisjordânia
Os acontecimentos que estão se desenrolando na Cisjordânia ocupada desafiam uma interpretação baseada apenas na sucessão de ataques de colonos ou em episódios isolados de violência.
O que se observa é a consolidação de um padrão de ocupação territorial que combina expansão dos assentamentos, militarização crescente, deslocamento forçado de comunidades palestinas e alteração gradual da geografia humana do território.

Em 26 de junho de 2025, nas proximidades da aldeia palestina de Ar Rakeez, um colono pastava seu rebanho em terras privadas palestinas. Outro colono armado chega e é confrontado pelos moradores da aldeia. Soldados israelenses chegam logo em seguida e detêm um dos palestinos, imobilizando-lhe os pulsos com amarras plásticas, vendando-lhe os olhos e levando-o embora.
(Foto: Mediterranea Saving Humans / Wikimedia Commons)
A questão central já não é apenas se a violência aumentou, mas se a Palestina assiste à continuidade de um processo histórico iniciado em 1948, conhecido como Nakba – palavra árabe que significa “catástrofe”.
A Nakba costuma ser associada à expulsão de cerca de 750 mil palestinos durante a criação do Estado de Israel e à destruição de mais de 450 vilas e aldeias palestinas, vista cada vez mais como um processo contínuo de desapropriação territorial, fragmentação social e substituição demográfica.
Sob essa perspectiva, a Cisjordânia tornou-se hoje o principal palco de uma estratégia que busca consolidar, de forma gradual, uma nova realidade territorial em detrimento da presença palestina.
Essa interpretação permite compreender a escalada recente para além das estatísticas da violência.
Ataques contra aldeias, incêndios de casas e plantações, destruição de propriedades, assassinatos de civis, confisco de terras, fechamento de estradas e expansão de postos avançados deixam de ser episódios desconectados para revelar um mecanismo coerente de transformação do território.
A violência não aparece como um desvio da ocupação, mas como um de seus principais instrumentos. É justamente essa lógica que caracteriza o colonialismo de povoamento.
Diferentemente do colonialismo clássico, voltado sobretudo para a exploração econômica, seu objetivo é substituir progressivamente a população nativa por uma nova população, alterando de forma permanente a demografia, a geografia e a soberania sobre o território.
Sob essa ótica, os assentamentos israelenses deixam de ser apenas empreendimentos habitacionais e passam a constituir a principal infraestrutura política da colonização contemporânea da Palestina.
Nas últimas semanas, a intensificação das operações militares e dos ataques de colonos reforçou esse cenário. Em diversos episódios, forças israelenses são acusadas de atuar conjuntamente com colonos ou de permanecer passivas diante das agressões.
As declarações recentes do ministro da Defesa, Israel Katz, acrescentam um elemento ainda mais significativo.
Katz determinou que o Exército prepare a ocupação de mais um campo de refugiados palestinos e voltou a defender a demolição de campos e o deslocamento de seus habitantes, ampliando operações já realizadas em Jenin, Tulkarm e Nur Shams.
Outros ministros de extrema direita, como Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, também defendem a expansão dos assentamentos e políticas destinadas a reduzir a presença palestina na Cisjordânia.
Foi nesse contexto que o Hamas denunciou a existência de um plano para ampliar o deslocamento forçado da população palestina e eliminar progressivamente os campos de refugiados, apelando às Nações Unidas e aos tribunais internacionais para responsabilizarem os dirigentes israelenses.
Independentemente da posição política do Hamas, sua denúncia se apoia em declarações públicas de integrantes do próprio governo israelense, que passaram a defender abertamente medidas de alteração demográfica e territorial.
As consequências vão além da destruição material.
A expansão dos assentamentos fragmenta o território palestino, restringe a mobilidade, inviabiliza atividades econômicas e enfraquece a continuidade territorial necessária à constituição de um futuro Estado palestino. Não se trata apenas de controlar terras, mas de redefinir quem poderá habitá-las.
A situação atual não reproduz exatamente a Nakba de 1948, mas preserva sua lógica fundamental.
Se antes o deslocamento ocorreu em meio às ações da ocupação colonial sionista, hoje ele avança de forma gradual, sustentado pela ocupação militar, pela expansão colonial dos assentamentos e pela deterioração deliberada das condições de vida da população palestina.
A pergunta, portanto, já não é se existe uma “nova Nakba“. A formulação mais precisa talvez seja reconhecer que a Nakba nunca terminou.
Enquanto violência de colonos, expansão dos assentamentos, destruição de campos de refugiados e deslocamento forçado atuarem de forma articulada, permanecerá em curso um processo de transformação demográfica e territorial cujos contornos já são visíveis na Cisjordânia.
(*) Sayid Marcos Tenório é historiador, especialista em Relações Internacionais e analista de geopolítica. É autor do livro ‘Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência’.























