África do Sul, o orgulho de Trump
Na África do Sul, país que derrotou o apartheid, crise econômica também motiva avanço de movimentos xenófobicos e anti-imigrantes
Os últimos acontecimentos na África do Sul devem estar deixando o presidente dos Estados Unidos muito orgulhoso.
O país de Nelson Mandela, o país que desafiou uma das políticas mais nefastas do racismo no mundo, o Apartheid, hoje dá um verdadeiro exemplo de sucesso para uma das principais políticas da extrema-direita no ocidente: as políticas anti-imigração.

Marcha anti-xenofobia em Joanesburgo, em abril de 2015.
(Foto: Dyltong / Wikimedia Commons)
O mais impressionante, no entanto, é que essas mesmas políticas, na África do Sul, não têm sido reforçadas pelo aparato do Estado, mas demandadas pela própria população sul-africana negra, e aparentemente o governo de Ciryl Ramaphosa não tem força ou vontade de parar as demonstrações de violência que têm sido vistas nas ruas de lugares como Durban (que em 2001 recebeu uma das maiores conferências da diáspora africana, a III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas) e Joanesburgo, cidade que viveu a luta contra o regime do Apartheid.
Nos últimos anos, a África do Sul vem enfrentando aumentos alarmantes nos índices de pobreza e uma recessão econômica que parece só se agravar. Nós conhecemos bem a história: onde a economia recua, avança a extrema-direita. O discurso é precário, mas as consequências têm sido capazes de destruir a vida de centenas de milhares de pessoas: “os responsáveis pela pobreza e pelo desemprego são os imigrantes”.
Assim, surgiram movimentos como March and March e Operation Dudula, que congregam a indignação pública em torno da xenofobia.
A principal articuladora dessa campanha é Jacinta Ngobese-Zuma, líder do movimento March & March. O grupo atua em parceria com outras organizações de caráter anti-imigração e ganhou grande alcance ao difundir suas mensagens pelas redes sociais.
Entre as principais reivindicações do movimento estão o endurecimento do controle das fronteiras, a aceleração da deportação de imigrantes em situação irregular e a priorização de cidadãos sul-africanos no acesso a empregos e serviços públicos.
Jacinta Ngobese-Zuma conseguiu canalizar o descontentamento de parte da população diante de problemas como o desemprego – que supera 30% –, a corrupção e os elevados índices de criminalidade. Nesse discurso, os imigrantes são apresentados como responsáveis por essas dificuldades, apesar de representarem apenas cerca de 4% da população sul-africana, estimada em aproximadamente 63 milhões de habitantes.
O que antes se restringia a discurso político se desdobra agora em ações violentas que têm buscado de porta em porta a expulsão de todos os imigrantes africanos.
Pais e mães de famílias que já haviam se instalado na África do Sul há mais de 20 anos foram obrigados a deixar tudo para trás, comércios fecharam, serviços essenciais deixaram de funcionar e, apesar do presidente ter condenado o vigilantismo e insistido que os cidadãos não podem substituir o Estado, até agora os ânimos não parecem ter se acalmado.
A situação já resultou na saída de mais de 100 mil imigrantes e em dezenas de milhares de repatriações. Só do Zimbábue, mais de 108 mil pessoas retornaram. Do Malawi, quase 47 mil. Outros milhares vieram de Moçambique, Nigéria, Gana e vários outros países africanos. Muitos aguardam repatriações depois de viajarem quilômetros até campos de refugiados improvisados em cidades como Durban, por exemplo.
O verdadeiro prejuízo ainda não foi totalmente calculado, mas é econômico, e quem realmente perderá será a própria população sul-africana.
Quando assumiu seu segundo mandato, Donald Trump resolveu acolher refugiados brancos vindos da África do Sul, citando uma situação de emergência e um suposto “genocídio” contra a minoria branca. A ironia parece ser que, dessa vez, os brancos são a população mais segura a viver no país de Nelson Mandela.
(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.























