Segunda-feira, 15 de junho de 2026
APOIE
Menu

A recente intensificação de ações unilaterais dos Estados Unidos contra a Venezuela não é um episódio isolado. Ela sinaliza algo mais profundo e preocupante: a volta explícita da lei do mais forte como princípio organizador das relações internacionais. Quando sanções, bloqueios e ameaças substituem o diálogo, o multilateralismo deixa de ser regra e passa a ser retórica conveniente.

Esse movimento revela o esgotamento de uma ordem internacional construída para funcionar enquanto os interesses das grandes potências não fossem contrariados. Quando são, o “direito internacional” torna-se flexível; quando não, é invocado com rigor seletivo. Para grande parte do mundo — especialmente África, América Latina e Caribe — essa assimetria nunca foi abstrata. Sempre foi prática concreta.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

É justamente por isso que o continente africano ocupa hoje um lugar central no debate sobre o futuro do multilateralismo.

Com mais de 60% da população abaixo dos 25 anos, a África abriga uma geração que já não aceita a política do medo, da tutela e da exceção permanente. <br> (Foto: Joris Geens / Pexels)

Com mais de 60% da população abaixo dos 25 anos, a África abriga uma geração que já não aceita a política do medo, da tutela e da exceção permanente.
(Foto: Joris Geens / Pexels)

Mais lidas

O relatório Africa Forum: Centering an African Vision for a New Multilateral Future (Fórum Africano: Centrando uma Visão Africana para um Novo Futuro Multilateral), produzido em 2025 pela Salzburg Global, parte de uma constatação incômoda: o sistema multilateral vigente foi historicamente desenhado sem a África como sujeito. O continente foi tratado como espaço de extração, laboratório de políticas alheias ou problema a ser gerenciado — nunca como coautor das regras globais .

Quando potências recorrem à força contra países considerados “dispensáveis” na hierarquia internacional, esse passado retorna com nova roupagem.

A resposta africana, no entanto, não tem sido a resignação. O que emerge do debate reunido no Africa Forum é uma proposta clara: não adaptar-se a um sistema em crise, mas redesenhá-lo. Um novo multilateralismo só será possível se romper com a lógica da coerção e reconhecer soberania política, econômica e narrativa como princípios inegociáveis.

Isso passa por enfrentar um dos pilares invisíveis da lei do mais forte: o controle financeiro. O relatório aponta como agências de rating, estruturas de endividamento e instituições multilaterais capturadas por interesses externos funcionam como instrumentos de disciplina política . Não é coincidência que sanções econômicas e “avaliações de risco” caminhem juntas. Ambas definem quem pode respirar e quem deve ser asfixiado.

A África propõe outro caminho: instituições financeiras próprias, autonomia fiscal, integração regional real e governança centrada nas necessidades das populações — não nas expectativas dos credores. Trata-se de substituir a dependência por dignidade.

Há ainda um elemento decisivo que diferencia o continente no debate global: sua juventude. Com mais de 60% da população abaixo dos 25 anos, a África abriga uma geração que já não aceita a política do medo, da tutela e da exceção permanente. Movimentos juvenis em países como Nigéria, Quênia e África do Sul têm conectado democracia, justiça social e soberania como partes de um mesmo projeto.

Essa geração entende algo que as grandes potências parecem ter esquecido: um sistema internacional baseado na força é estruturalmente instável. Ele produz silêncio temporário, não legitimidade duradoura.

O ataque político e econômico à Venezuela, assim como outras ações unilaterais recentes, não enfraquece apenas um país específico. Ele corrói as próprias bases da cooperação internacional. Ao normalizar exceções, abre precedentes que amanhã podem ser usados contra qualquer outro ator fora do círculo do poder.

Nesse contexto, a centralidade africana não é retórica identitária — é estratégica. O continente reúne experiência histórica de resistência à dominação, capacidade de imaginação institucional e urgência política para propor alternativas. Como afirma o relatório, não haverá multilateralismo renovado sem a África no centro — como autora, não como figurante .

O mundo está diante de uma escolha simples e brutal: ou reconstrói regras comuns baseadas em igualdade soberana, ou aceita que a força volte a ser o idioma oficial da política global. Se a segunda opção prevalecer, não haverá estabilidade — apenas ciclos de punição, ressentimento e conflito.

A África já entendeu isso. A pergunta que resta é se o resto do mundo está disposto a ouvir — antes que o multilateralismo se torne apenas uma lembrança conveniente.

(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.