Alex Karp: de aluno em Frankfurt a CEO da Palantir
Qual a relação entre Senhor dos Anéis, a Escola de Frankfurt e um estudante de filosofia que se tornou CEO de uma das maiores (e mais tenebrosas) empresas de IA da atualidade?
Aqueles familiarizados com as grandes empresas de tecnologia voltadas para o desenvolvimento de IA, especialmente na área militar e de governança, devem conhecer a empresa Palantir. O nome dessa empresa é diretamente inspirado no universo de J.R.R. Tolkien (escritor de ‘O Hobbit’ e ‘Senhor dos Anéis’, entre outros clássicos de fantasia), onde os Palantíri (no singular, Palantir) são uma espécie de “bola de cristal” que permitem tanto uma visão deslocada no espaço – podendo vigiar territórios distantes – quanto no tempo (oferecendo relances de cenas que parecem tiradas do passado ou do futuro). O nome deriva da língua élfica Quenya, desenvolvida pelo próprio Tolkien e baseada no finlandês, grego e latim, significando algo como “vigiar” ou “olhar” ao longe. Entretanto, esses artefatos mágicos são tratados com ressalva na mitologia de Tolkien, já que possuem um caráter ambíguo: podem conduzir ao erro e à perdição por mostrarem “revelações” de forma seletiva, afetadas pela fraqueza dos observadores ou mesmo sendo manipuladas por forças externas – como ocorre com Saruman, o mago branco que sucumbe em sua busca por poder tornando-se presa de Sauron.
A analogia direta e irônica não é nada acidental – é, na verdade, um cinismo escancarado. Fundada em 2003 por Peter Thiel, também criador do PayPal e notório adepto da filosofia neo-reacionária das Big Techs, junto de Stephen Cohen, Joe Lonsdale, Nathan Gettings e Alex Karp, a Palantir é notoriamente conhecida por seus negócios relacionados à análise e integração de dados para corporações, agências governamentais e, especialmente, militares. Dois famosos “carros-chefe” da Palantir são o Foundry – um sistema operacional para empresas “alimentado por ontologia” [ontology-powered] –; e o Gotham – um “sistema operacional para tomada de decisões globais”, este voltado para o mercado militar, com slogans como “Domínio da decisão do espaço à lama”, “Orquestre o poder de combate” e “fortalecendo a cadeia de morte” [Powering the Kill chain].

Alex Karp, CEO e fundador da Palantir, durante palestra no Forum Econômico Mundial em janeiro de 2026.
(Foto: World Economic Forum / Flickr)
O primeiro produto oferece a automação da cadeia de trabalho em uma empresa, baseando-se na organização “semântica, cinética e dinâmica” para harmonizar a organização através de uma “lógica universal” para representar “objetos, ações e processos” nos negócios. O segundo produto quase fala por si só, ou melhor, coloca um ex-secretário de defesa dos EUA para falar por ele: “[A Palantir] criou tecnologias inovadoras que nos ajudam a tomar melhores decisões em zonas de combate. Está nos dando vantagens que precisamos agora”, são as palavras do General James N. Mattis.
Prometendo uma superioridade de combate movida por IA, o serviço oferece fundamentalmente a sincronização de uma rede entre soldados e máquinas, com a infraestrutura de sensores que se encontram tanto em satélites quanto em drones de combate, “auxiliando” – autonomizando – a seleção de alvos e, assim, diminuindo o tempo necessário na cadeia produtiva da execução. É o que hoje se chama convencionalmente de “AI kill chains” – e que possui também um curioso acrônimo: Istar (intelligence, surveillance, target acquisition e reconnaissance), que também parece uma palavra retirada do Senhor dos Anéis (Istar, no plural Istari, são os magos da mitologia de Tolkien). As implicações, efeitos e consequências éticas e práticas desses tipos de tecnologia (sistemas autonomizados de armas letais integradas – em inglês, no acrônimo LAWS) já foram debatidas aqui em artigo anterior.
Desde o primeiro governo Trump em 2017, os contratos da Palantir com o governo dos EUA aumentaram em mais de 1 bilhão de dólares por ano, e as ações da Palantir dispararam desde 2024, após tornar-se aliada fundamental da administração de Trump, fornecendo serviços para a CIA e para a agência de imigração (ICE) que representam mais diretamente os ideais de extrema-direita do governo na política interna estadunidense – além, é claro, de passar também a trabalhar com o Estado de Israel, admitindo participar diretamente da cadeia de genocídio na Palestina ocupada; tendo papel central também nas guerras do Irã e da Ucrânia.
Mas algo salta aos olhos no léxico utilizado pela empresa: não é comum encontrar tal vocabulário no marketing de Big Techs, especialmente quando “representação”, “lógica” e “ontologia” fazem parte do pitch de mercado. Isso é uma cortesia de um dos fundadores e CEO da Palantir, Alex Karp. Descrevendo-se hoje como um liberal “anti-woke”, esse nem sempre foi seu posicionamento político. Praticante de Tai-Chi e figura extremamente excêntrica no campo das Big Techs, Karp é filho de um pediatra judeu e de uma artista afro-americana, ambos integrantes de protestos políticos trabalhistas, militantes pelos direitos civis e por justiça social. Seu interesse de juventude era a teoria social, o que fez com que finalizasse um bacharelado em filosofia na faculdade de Haverford da Pensilvânia. Em 1992, formou-se na faculdade de direito em Stanford, onde conheceu Peter Thiel, que o considerava naquela época: “mais socialista, [eu] era mais capitalista. Ele estava sempre falando sobre teorias marxistas de trabalho alienado.”
Em 2002 Karp concluiu seu doutorado em teoria social neoclássica pela Universidade Goethe de Frankfurt – algo que supostamente apenas Peter Thiel apoiou –, com a tese ‘Agressão no Mundo da Vida’ [Aggression in der Lebenswelt], onde elabora uma crítica à articulação psicanalítica na teoria social de Talcott Parsons, afirmando um deflacionamento do conceito de pulsão, para posteriormente pensar a agressão socialmente, na linguagem e na cultura, utilizando-se da reflexão adorniana sobre jargão e autenticidade. Assim, sua tese atravessa desde o aparelho psíquico até as estruturas comunicacionais da sociedade moderna. A relação entre linguagem, violência e comunicação em sua tese, sendo defendida em Frankfurt, serviu também para sustentar o mito de que Habermas teria sido seu orientador (Karp foi orientado por Karola Brede). Ainda em sua tese, ele critica o discurso de Martin Walser em 1998 por sua retórica contra a memória do Holocausto na Alemanhã, que caracterizava como uma agenda liberal impeditiva ao nacionalismo do país. Posteriormente, Karp irá aderir à retórica de Walser, em seu livro “A República Tecnológica”.
O livro é uma espécie de propaganda empresarial com análise cultural e programa ideológico, onde defende que os EUA detém sua soberania pela superioridade na indústria de softwares, e obviamente os mais importantes são aqueles que garantem a superioridade do ocidente “ao levar violência e destruição para seus inimigos”. Seu discurso público tornou-se uma defesa do tecno-militarismo americano, com um irônico entusiasmo apologético à “agressividade no mundo da vida”. Karp frequentemente defende o terrorismo norte-americano contra seus inimigos, o uso da violência organizada – citando Huntington – e uma aproximação ainda maior entre as empresas de tecnologia do Vale do Silício e as instituições militares, de inteligência e de segurança dos EUA.
Sua crítica, mobilizando a noção de “jargão da autenticidade”, vira-se contra o liberalismo woke estadunidense. Mais do que isso, em entrevista recente à CNBC Karp falou abertamente da possibilidade de usar as tecnologias da Palantir para deslocar o poder político de liberais intelectualmente formados – em sua maioria “mulheres com diplomas acadêmicos”, como Karp fez questão de ressaltar – para homens da classe trabalhadora, politicamente orientados aos interesses militares dos EUA. Além disso, também enfatizou a necessidade de construir um discurso voltado para produzir aceitação e normalização dos efeitos trabalhistas que serão gerados com a implementação de tecnologias de IA. Para ele, o iminente desemprego ou as condições de trabalho e pagamentos inferiores devem ser justificados pela necessidade de avançar tais tecnologias, pelo risco dos inimigos dos EUA as desenvolverem antes.
É importante termos em mente que a formação em filosofia e teoria social de Karp não é algo meramente contingencial que poderia ser ignorado. Sua compreensão teórica sobre as implicações sociais do processo de digitalização e da corrida armamentista de IA estão evidentes na estratégia de marketing da Palantir, na posição político-ideológica que assume junto à empresa, e no papel que pretende cumprir – e o serviço que pretende prestar – para o projeto social que defende junto aos bilionários da Big Tech, especialmente em seu alinhamento com a extrema-direita e na defesa de uma realidade distópica com a administração não apenas privada mas totalmente autonomizada do Estado.
A retórica ultra-política, militarizada, do “nós vs eles”, tão comum na sociedade estadunidense, é integrada ao discurso tecnológico da Palantir por um CEO filosoficamente bem formado, que utiliza das amplas ferramentas que detém para garantir a passagem do que chama de reconfiguração disruptiva da sociedade, promovida por tecnologias de IA. Seu projeto de tecno-governança já está desenhado: vigilância total através do escaneamento de Big Data, em uma lógica Minority Report, onde os prováveis criminosos serão antecipadamente neutralizados com base em “estatística preditiva” de sistemas autônomos – prática já posta em curso por Israel na ocupação colonial da Palestina.
Alex Karp é hoje uma das maiores figuras a serem acompanhadas para compreendermos os caminhos distópicos dos projetos de sociedade encampados pelas elites tecnológicas. Sua jornada política e intelectual também não é menos relevante: ela indica, para além de uma reflexão ingênua sobre a mudança política radical de um personagem, o papel potencial que a teoria social e a filosofia podem desempenhar hoje, influenciando diretamente os horizontes tecnológicos e políticos no limiar da crise em que estamos vivendo.
(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação.
























