Alice Caymmi profana o avô Dorival para manter viva a chama da música brasileira e latino-americana
Caymmi desconstrói a reverência aos sambas praieiros e sambas-canções do patriarca, coloca ritmos caribenhos no lugar do samba e reivindica a contemporaneidade do compositor nascido há 112 anos
Artista sempre sintonizada com a contemporaneidade da música brasileira, Alice Caymmi destrava um fantasma ao dedicar um álbum inteiro à releitura da obra de seu mitológico avô, Dorival Caymmi (1914-2008). Com 12 faixas. Caymmi varre composições históricas do cancioneiro baiano e brasileiro, num arco que compreende temas originais lançados desde 1939 até 1972.
Em primeiro lugar, a cantora e compositora nascida no Rio de Janeiro escolheu iluminar não exatamente a brasilidade de Caymmi. Em vez de ilustrar os sambas praieiros baianos e os sambas-canções cariocas do patriarca, fundou seu tributo na latino-americanidade do avô, bem menos visível a olho nu que os sambas e balangandãs afro-baianos do homem que ajudou a inventar a brasilidade hollywoodiana de Carmen Miranda.

Rio de Janeiro (RJ), 17/04/2026 – A cantora Alice Caymmi fala sobre novo álbum com releituras das músicas do avô Dorival Caymmi.
(Foto: Rovena Rosa/Agência
Acontece aqui um triângulo curioso, entre o imaginário tipo “O Que É Que a Baiana Tem” (1939) da falsa baiana Carmen (que na verdade nasceu em Portugal) e os tons hispano-americanos buscados por Alice para sua tradução do relicário caymmiano. É como se Cristóvão Colombo, e não Pedro Álvares Cabral, tivesse chegado ao porto seguro da Bahia, vindo não de Portugal ou da Espanha, mas do triângulo de bermudas marítimas de Cuba, Jamaica e Porto Rico.
Tropicalista, Alice Caymmi se recusa a redundar nacionalismos e orgulhos baianos e, em vez disso, aproxima Dorival de Bad Bunny, de Anitta, de Maluma e, por que não?, da maranhense-paraense Pabllo Vittar, sua parceira para desgosto do clã Caymmi. São inúmeros os níveis de desconstrução de totens e tabus operada por Alice, sempre pródiga nesse quesito. Além do totem freudiano, o alvo maior, aqui, é o elitismo arraigado da música (im)popular brasileira, acossada desde os anos 1960 pelas regras e pressões exercidas pelas valentes bossa nova, MPB universitária e tropicália. Esse tempo terminou, parece declarar a neta rebelde desafiadora da tradição.
Em vez de manjados finais falsos, Caymmi começa audaz com um falso início, em que Alice pergunta “o que é que a baiana tem?” em vozeirão dramático, como a solicitar a presença imemorial de Carmen Miranda (1909-1955), a artista que revelou Dorival para o Brasil. O tom solene e reverente é alarme falso, logo quebrado pela entrada de um arranjo reggae, reggaeton, jamaicano, cubano, de sopros ensolarados (uma constante no álbum), no formato chamado-e-resposta de um coro sintetizado (outra constante no álbum).
A irreverência cresce na segunda faixa, “Acalanto” (1957), composta por Dorival para a filha pequena Nana, gravada e sempre regravada de modo reverente e tristonho. Alice pontua o acalanto com voz estridente, irônicos teclados, sons de sinos e coro masculino de igreja. Nesse, a voz do próprio Dorival sobressai no trecho “pega essa menina que tem medo de careta”: o avô é o próprio boi, o boi da cara preta, o bicho-papão, o fantasma de que a menina Alice não precisava ter (e não tem) medo.
A releitura de “Modinha para Gabriela” (1975) é baiana como não poderia deixar de ser na evocação do tema da novela televisiva inspirada em Gabriela, Cravo e Canela (1958), baianíssimo romance de Jorge Amado. Mesmo sem apelar para a antológica gravação original de Gal Costa, há na nova versão samba, ijexá, candomblé e uma moldura tipo trombeta de anunciação que remete aos temas de novela de Toquinho e Vinicius de Moraes não para Gabriela, mas para a antecessora O Bem-Amado (seria Dorival o bem-amado?), de 1973. A inclinação totalizante de vários discípulos baianos de Caymmi, no entanto, se dissolve em reggae solar a partir da proposição “eu nasci assim/ eu cresci assim/ e sou mesmo assim/ Gabriela”. O coro misto ressalta: “Sempre Gabriela!”.
Bem caribenha, tipo salsa, “Canção da Partida” (1957) afasta o tom trágico do canto de trabalho praieiro da “Suíte dos Pescadores” de Dorival e reverencia o solar, o pop, o requebro moreno latino-americano apenas implícito na gravação original (e em toda a obra praieira) do avô. É como se Dorival Caymmi visitasse não mais Tom Jobim, mas Fidel Castro, Che Guevara, Célia Cruz e… Bad Bunny.
“Canto de Obá” (1972), chamado de orixá para “meu pai Xangô” (Dorival?), abandona os tons sombrios originais e se torna candomblé caribenho, santería para os integrantes da família nominados na letra, a esposa Stella e os filhos Nana, Dori e Danilo. Alice, que ainda não existia quando o avô erigiu a elegia em forma de oração, reproduz e atualiza os pedidos de proteção em tempo de rap.
“Maracangalha” (1956), a faixa mais vibrante de Caymmi, começa bem pop e utiliza voz processada onomatopeica (de novo o espírito do avô assoma em intervenções masculinas). Se insinua no rap e no batuque e se consuma como calipso, de Trinidad e Tobago para a Bahia, o Rio de Janeiro, o Brasil.
“Dora” (1945), sucesso em 1946 na voz de Dalva de Oliveira à frente Trio de Ouro, cria o primeiro momento possivelmente introspectivo do álbum, devidamente atenuado pela onipresença da levada mansa de reggae. A introspecção volta no tom etéreo de “Adeus”, lançado em 1948 por Ivon Curi, único samba-canção típico da fase carioca de Dorival que Alice contempla em seu tratado (pós-)caymmiano.
Não por acaso, os dois momentos mais arrastados de “Dora” e “Adeus” ensanduicham entre eles uma ode candomblecista solar, “Dois de Fevereiro” (1957), sob batidas de ijexá, coro misto em chamado-e-resposta a repetir “dia dois”, “de fevereiro”, “me ajudar”, “de esperar”… e guitarra havaiana no lugar que a tradição talvez sugerisse ser ocupado pela guitarra baiana dos trios elétricos de Dodô, Osmar e descendência.
O culto à areia, às ondas e ao mar encerra Caymmi num tríptico. “Eu Não Tenho Onde Morar” (1960) é retrabalhado de modo a substituir o tom de protesto tristonho da letra original (“eu não tenho onde morar/ é por isso que eu moro na areia”) por mais um cristal caribenho queimado de sol e regado por reggae, metais em brasa e mais chamado-e-resposta. “Todo mundo mora bem/ quem mora torto sou eu/ vivo na beira da praia/ com a sorte que Deus me deu/ Maria mora com as outras/ quem paga o pato sou eu”, reza a lenda, humorada, mas contrária ao protetor solar aplicado por Alice às canções do avô, mesmo as mais melancólicas. “Morena do Mar”, lançada em 1965 pela filhota musical pré-tropicalista Nara Leão, soma algum dom oriental a um dub jamaicano viajandão que Dorival não teve tempo ou espaço para saborear.
O encerramento retoma a melancolia programaticamente contornada por Alice, profanando “O Bem do Mar” (1954), um tema praieiro da fase samba-canção, em bolerão debochado, em tango dançante, sob coro feminino fantasmagórico, gaita e efeitos finais de vento e ondas de mar. Caymmi termina como os filmes de Glauber Rocha, no mar bravio (mas nem tanto). Dorival Caymmi é convertido, pela própria neta, em orixá afro-baiano-caribenho-português-hispânico-sulamericano.
Talvez fosse preciso que tia Nana Caymmi, sumidade máxima na interpretação do Caymmi samba-cancionista, estivesse morta para que Alice se encorajasse a dessacralizar a história da família (e da MPB), ainda que diante dos ouvidos de seu tio nacionalista-tradicionalista Dori Caymmi e de seu pai mais arejado, mas essencialmente bossa-novista, Danilo Caymmi. É sua maneira de também afagar a tia sempre desobediente, que morreu em 2025, aos 84 anos. Nana desobedecia o lado macho-machista da família em termos comportamentais, enquanto se mantinha reverente e respeitosa na hora de cantar e gravar as canções do pai. Alice repete Nana, mas desobedecendo totens e desrespeitando tabus nos campos comportamental e musical.
Causa arrepios de expectativa, desde já, a promessa de Alice de prestar um tributo à obra de Nana Caymmi, que foi quem lhe deu a primeira oportunidade de gravar uma canção (em 2001) e depois ralhou com as aventuras da sobrinha pelo pop profundo de Michael Sullivan a Pabllo Vittar. A rebeldia feminista de Nana está por ser descoberta pela música brasileira e pelo Brasil de tempos ainda feminicidas, e ninguém parece mais indicado para fazê-lo que a enfant terrible do tradicionalismo caymmiano. O primeiro rebelde musical da genealogia, a propósito, foi Dorival Caymmi.
(*) Pedro Alexandre Sanches é Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” (Boitempo, 2000) e “Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)” (Boitempo, 2004)





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