Apenas o petróleo da Venezuela?
Venezuela, petrodólar e desdolarização: os interesses energéticos e financeiros por trás da escalada dos EUA na América Latina.
Petrodólar a qualquer custo
Trump não deseja apenas o petróleo da Venezuela. Ele também deseja o do Peru, do Equador, do Brasil e do México, bem como todo aquele petróleo que sirva ao objetivo de salvar o “sistema petrodólar”, que, durante os últimos 50 anos, foi a base invisível da hegemonia e do poder dos EUA.
No Peru, ele não precisa sequestrar o presidente; basta ordenar que privatize a Petroperú. No Equador, ele já o tem desde que Novoa se tornou súdito de Trump. No Brasil, empresas norte-americanas possuem pouco mais de 49% do capital acionário da Petrobras. No México, não é tão simples, mas as ameaças seguem nessa direção. E, como se quisesse “matar dois coelhos com uma cajadada só”, pretende recuperar completamente o controle de seu “quintal”.

Trump não deseja apenas o petróleo da Venezuela. Ele também deseja o do Peru, do Equador, do Brasil e do México, bem como todo aquele petróleo que sirva ao objetivo de salvar o “sistema petrodólar”, que, durante os últimos 50 anos, foi a base invisível da hegemonia e do poder dos EUA.
(Foto: IkerAlex10)
Mas o que é o petrodólar? Em 1974, Henry Kissinger, estrategista geopolítico, convenceu a Arábia Saudita das vantagens de firmar um acordo com os EUA pelo qual seu petróleo seria vendido exclusivamente em dólares americanos e, em troca, receberia segurança e proteção militar do exército dos Estados Unidos. A partir desse momento, a demanda global pelo dólar aumentou de tal forma que os EUA passaram a imprimir moeda em massa sem qualquer risco para suas finanças ou para sua política monetária. Desde então, todos os países do planeta passaram a depender do dólar americano para comprar ou vender petróleo.
Portanto, se a Venezuela, detentora da maior reserva mundial de petróleo (mais de 303 bilhões de barris comprovados), continuasse vendendo petróleo em yuans ou rublos, ignorando o petrodólar e o sistema financeiro de pagamentos SWIFT, a desdolarização dos negócios globais ganharia maior impulso, e a erosão dos alicerces da arquitetura financeira que sustenta o poder dos EUA se tornaria cada vez mais evidente.
Por outro lado, os lucros extraordinários gerados pelo petrodólar — demanda ilimitada por dólares, compra de títulos do Tesouro com os petrodólares acumulados nos países produtores, entre outros — permitiam aos EUA financiar suas forças armadas, os serviços básicos e o reconhecimento dos direitos sociais de seus cidadãos. Tudo isso ficaria em risco caso não se agisse contra a Venezuela. Proteger o petrodólar era uma tarefa muito mais importante e estratégica do que contar com gigantescos porta-aviões e todo o seu aparato bélico.
Não é a primeira vez que o petrodólar e, portanto, a hegemonia dos EUA, se veem ameaçados. Isso já ocorreu com o Iraque, quando Saddam Hussein afirmou, em 2000, que o petróleo iraquiano passaria a ser vendido em euros. Em resposta, os EUA o acusaram de produzir armas de destruição em massa e, com essa justificativa, invadiram o país, assassinaram seu presidente e garantiram a continuidade do petrodólar. Em 2009, Muammar Gaddafi propôs a criação de uma moeda africana lastreada em ouro, o “dinar de ouro”, para a compra e venda de petróleo. Isso foi suficiente para que os EUA atacassem militarmente a Líbia e assassinassem seu presidente.
Agora, pelo mesmo motivo, invadem a Venezuela. Para os interesses dos Estados Unidos, vender o petróleo venezuelano em yuans e rublos era inaceitável, pois o país se tornaria um dos principais contribuintes para a construção de um sistema de pagamentos que prescindia do dólar e do SWIFT. Se a isso se somam suas alianças estratégicas com China, Rússia e Irã — países que lideram o processo de desdolarização —, não havia mais desculpas para atacar a Venezuela e sequestrar seu presidente.
Mas, como é habitual na conduta imperialista, a justificativa apresentada quando invadiram a Venezuela em 3 de janeiro de 2026 foi a mais pueril e repugnante: “o governo de Maduro é um regime terrorista e controlado pelo narcotráfico”. A acusação de ausência de democracia no país foi apenas uma nota irrelevante. Assim, como nos casos anteriormente mencionados, tratava-se de mudar o regime e impor a vigência do petrodólar.
Desdolarização, apesar do roubo
A desdolarização dos negócios globais, faça Trump o que fizer, não depende do petróleo que ele está roubando da Venezuela. A velocidade desse processo depende de múltiplos fatores, entre os quais o petróleo venezuelano pode ser considerado apenas um elemento de importância relativa no crescente comércio global de petróleo e gás em moedas distintas do dólar. Rússia e Irã vendem seu petróleo em yuans ou rublos, enquanto a Arábia Saudita está prestes a aceitar pagamentos em yuans. A Índia, por sua vez, utiliza cada vez mais a rupia em seus negócios internacionais.
Paralelamente, a China vem construindo o CIPS (Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços), que atualmente se apresenta como uma alternativa ao SWIFT e conta com operações de 4.800 bancos em 185 países, tendo os BRICS como base institucional dessa nova arquitetura financeira global. A entrada da Venezuela nesse bloco talvez tivesse impedido a agressão norte-americana e contribuído para acelerar o processo de desdolarização.
Em conclusão, não se trata de terrorismo, narcotráfico ou ausência de democracia na Venezuela, como Trump afirma de maneira infame. Trata-se de petróleo, puro e simples, que, administrado pelos EUA na Venezuela e na América Latina, serviria para defender o ainda dominante sistema financeiro baseado no petrodólar e no SWIFT, bem como para manter o privilégio dos EUA de imprimir dólares sem qualquer limite, enquanto o resto do mundo trabalha para sustentá-los.
Canalhice sem resposta?
A maioria dos analistas internacionais encheu seus meios de comunicação com notícias sobre a crescente participação chinesa, russa e iraniana na Venezuela, não apenas por meio de investimentos maciços na exploração e no refino de petróleo, mas também pelo fortalecimento do sistema de defesa venezuelano com tecnologia militar e inteligência de alto nível. Era evidente que essa presença estava alinhada à estratégia de desdolarização do negócio global do petróleo.
Consequentemente, muitos esperavam que essa presença funcionasse como um muro dissuasório contra qualquer ataque como o ocorrido na madrugada de 3 de janeiro de 2026. Infelizmente, não foi assim. Passados quase dez dias do sequestro, não se observam sinais de uma “resposta contundente” por parte dos chamados “aliados estratégicos” da Venezuela. Em vez disso, predominam declarações diplomáticas e pronunciamentos de indignada rejeição à intervenção que viola a soberania nacional venezuelana. Em poucas horas, essa reação se converteu em uma cacofonia inofensiva, destinada apenas aos arquivos físicos e digitais de seus signatários.
A canalhice imperialista, portanto, ainda não encontrou uma resposta visível capaz de alterar o curso dos acontecimentos após o sequestro. No entanto, os movimentos econômicos e financeiros que a China vem realizando podem atingir diretamente as estruturas de poder dos Estados Unidos. Vejamos alguns deles:
O Banco Popular da China suspendeu todas as transações em dólares americanos com corporações — como Boeing, Lockheed Martin e Raytheon, entre outras — que mantenham vínculos com o setor de defesa dos EUA.
A State Grid Corporation of China, responsável pela maior rede elétrica do planeta, anunciou o desligamento progressivo da tecnologia americana.
A China National Petroleum Corporation, a maior petrolífera estatal do mundo, anunciou o cancelamento de contratos de fornecimento de petróleo com refinarias americanas no valor de US$ 47 bilhões anuais.
A China Ocean Shipping Company, que controla cerca de 40% da capacidade portuária global, decidiu deixar de utilizar os portos americanos de Long Beach, Los Angeles, Nova York e Miami, altamente dependentes da logística naval chinesa. O efeito imediato foi o desabastecimento de grandes empresas como Walmart, Amazon e Target.
A China anunciou ainda que o CIPS pode absorver qualquer transação global que deseje evitar o sistema SWIFT. A resposta foi imediata e massiva: mais de US$ 90 bilhões em operações foram processados, e 34 bancos centrais abriram contas operacionais no sistema chinês.
Por fim, a China impôs restrições temporárias à exportação de terras raras para países que apoiaram o sequestro de Maduro. Empresas como Apple, Microsoft, Google e Intel dependem fortemente dessa cadeia de suprimentos.
Embora esses movimentos não gerem manchetes explosivas como os anúncios de Trump, é evidente que eles atingem diretamente pilares centrais da economia norte-americana. Trump pode continuar ameaçando o mundo — Panamá, Groenlândia, Colômbia, entre outros —, mas sua estratégia vem sendo progressivamente enfraquecida por fatores internos, como a mobilização popular e a rebelião no Senado dos EUA, e por fatores externos, como a reação de organismos multilaterais e de países que não aceitam a violação impune do Direito Internacional.























