Banco Central, a política monetária e o cerco ao desenvolvimento
A autonomia do Banco Central transformou-se em um fator permanente de descoordenação entre política monetária, política fiscal e política industrial
O debate sobre política monetária no Brasil não pode continuar dissociado do projeto de desenvolvimento eleito pelas urnas nem blindado por dogmas apresentados como verdades técnicas inquestionáveis, mas que já foram amplamente criticados e relativizados no próprio centro do capitalismo global. A chamada autonomia do Banco Central, tal como vem sendo exercida nos últimos anos, transformou-se em um fator permanente de descoordenação entre política monetária, política fiscal e política industrial, impondo limites severos à retomada do crescimento, à reindustrialização e à transição energética, justamente no momento em que o país precisa reorganizar suas bases produtivas e enfrentar desafios de longo prazo.
Os dados recentes da produção industrial ajudam a dimensionar esse impasse. Em dezembro, a indústria brasileira recuou 1,2%, a maior queda desde julho de 2024, com desempenho particularmente negativo da indústria de transformação, que caiu 1,9%. Ao longo de 2025, houve crescimento em apenas dois meses. No acumulado de 12 meses, a expansão recuou para 0,6%, depois de ter alcançado 3,1% em 2024. No quarto trimestre, a produção industrial foi inferior à do mesmo período do ano anterior, confirmando um processo de desaceleração que não pode mais ser tratado como episódico.
Mais grave do que o resultado agregado é a sua composição. O desempenho positivo do período decorreu exclusivamente da indústria extrativa, orientada às exportações, com baixo impacto sobre o emprego e reduzida agregação de valor. Já a indústria de transformação, eixo central do programa Nova Indústria Brasil, voltou a recuar. Os bens de capital, diretamente associados ao investimento produtivo, despencaram no fim do ano e fecharam 2025 em retração. A indústria brasileira opera hoje mais de 16% abaixo do pico registrado em 2011 e apenas marginalmente acima do nível pré-pandemia, um patamar incompatível com qualquer estratégia consistente de reindustrialização, inovação tecnológica e fortalecimento das cadeias produtivas nacionais.

Brasília 25/11/2025 – O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, participa de audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.
(Foto: Lula Marques/Agência Brasil)
É importante registrar que esse diagnóstico estrutural não significa que o país esteja em recessão ou vivendo um quadro de descontrole macroeconômico. O Brasil voltou a crescer, ainda que em ritmo insuficiente, o desemprego encontra-se em patamar historicamente baixo, a renda real do trabalho avançou nos últimos anos e a inflação permanece sob controle. Esses são ativos importantes da atual conjuntura. O problema é sua insuficiência diante dos desafios nacionais e o bloqueio estrutural à elevação da taxa de investimento e à consolidação de um ciclo sustentado de expansão com redução consistente das desigualdades.
Esse quadro decorre de uma política monetária deliberadamente restritiva, mantida mesmo em um contexto de inflação em desaceleração, elevada capacidade ociosa e necessidade urgente de investimento. O Brasil investe hoje algo em torno de 16% a 17% do PIB em formação bruta de capital, quando países que crescem de forma sustentada operam com taxas próximas ou superiores a 23%. Essa baixa taxa de formação bruta de capital fixo é resultado de uma engrenagem que combina juros elevados, estrutura tributária regressiva e forte concentração de renda. O juro alto desvia a poupança nacional da produção para o rentismo, transformando recursos que poderiam financiar investimento produtivo em remuneração financeira de curto prazo. Ao mesmo tempo, a estrutura tributária concentra renda e limita a capacidade de o Estado gerar excedente para investir, enquanto a elevada desigualdade reduz a parcela da renda que se transforma em poupança produtiva e expansão da demanda. Essa insuficiência crônica de investimento público e privado é o principal obstáculo ao crescimento, com um ambiente estruturalmente hostil ao crédito de longo prazo, ao investimento produtivo e à execução de projetos estratégicos.
Sem desconcentrar renda e sem reorganizar o sistema tributário e monetário, o país dificilmente elevará sua taxa de investimento para os patamares necessários ao crescimento sustentado. Sustentar essa política exige, não por acaso, uma visão de mundo que insiste em apresentar os juros elevados como única resposta possível, como se estivéssemos condenados ao velho mantra do there is no alternative (“não há alternativa”), popularizado por Margaret Thatcher para justificar políticas neoliberais que aprofundaram desigualdades, enfraqueceram o Estado e reduziram a capacidade de planejamento das nações.
Economistas de renome internacional, como Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, têm apontado reiteradamente que políticas monetárias excessivamente contracionistas, baseadas em modelos que ignoram imperfeições de mercado, assimetrias estruturais e os efeitos distributivos dos juros, tendem a reduzir o investimento, aprofundar desigualdades e comprometer o crescimento de longo prazo. Para Stiglitz, bancos centrais que operam isolados da política fiscal e do objetivo do pleno emprego acabam, na prática, servindo mais aos interesses do sistema financeiro do que ao conjunto da sociedade.
Paul Krugman, também prêmio Nobel, tem sido igualmente incisivo ao criticar a insistência em políticas monetárias duras em contextos nos quais a inflação já se encontra sob controle. Segundo ele, o medo quase ideológico da inflação leva autoridades monetárias a produzir exatamente aquilo que dizem combater: estagnação econômica, instabilidade e perda permanente de capacidade produtiva.
No Brasil, os custos dessa escolha são claros. Em 2024, o pagamento de juros da dívida pública ultrapassou a marca de R$ 1 trilhão, patamar que se manteve elevado em 2025. Essa dinâmica revela uma inversão central no debate público: não são os déficits públicos que explicam o peso da dívida e o custo da atividade estatal, mas os juros elevados, que alimentam o crescimento da dívida, comprimem o investimento público e reforçam a lógica rentista. Isso limita a capacidade do Estado de financiar políticas sociais, liderar a reindustrialização, acelerar a execução do Novo PAC e sustentar os investimentos necessários à transição energética. Não há ajuste fiscal capaz de compensar uma política monetária que, ao mesmo tempo, freia o crescimento e expande de forma contínua a despesa financeira.
Essa lógica tem efeitos profundos sobre a estrutura de renda do país. A elevada taxa de juros, combinada com uma estrutura tributária regressiva, contribui decisivamente para a concentração de renda e riqueza. A participação dos salários na renda nacional vem sendo comprimida, e uma parcela crescente da renda da massa salarial, que poderia alimentar a demanda, o consumo e o crescimento, é drenada para o pagamento de impostos indiretos e, sobretudo, de juros. Trata-se de um processo contínuo de expropriação da renda do trabalho, que ajuda a explicar por que um país com o nível de riqueza do Brasil convive com desigualdades tão extremas.
Além de seus efeitos sobre o investimento e a renda, essa lógica se manifesta de forma clara no comportamento do câmbio. O real iniciou 2024 em torno de R$ 4,85 por dólar e manteve relativa estabilidade até abril. A partir de então, em meio ao debate público sobre o arcabouço fiscal, às sinalizações reiteradas de preocupação fiscal por parte das autoridades monetárias, à pressão permanente do mercado financeiro sobre um possível descontrole fiscal e à ausência de uma atuação mais firme do Banco Central no mercado de câmbio, consolidou-se uma mudança de expectativas que resultou em forte desvalorização da moeda brasileira. O dólar superou R$ 5,70 em agosto, e o real encerrou 2024 com uma das maiores desvalorizações do mundo.
Esse cenário foi naturalizado ao longo de 2025 como parte do próprio funcionamento da política monetária. Enquanto a economia dava sinais claros de desaceleração, o país seguiu convivendo com juros elevados, encarecendo máquinas, insumos e bens de capital importados, afetando diretamente a indústria de transformação e os investimentos de longo prazo. A queda disseminada da produção industrial em 2025, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao crédito e às decisões de investimento, é expressão direta desse ambiente adverso.
Se essa lógica não for revista, o Brasil corre o risco de chegar ao fim de 2026 com baixo crescimento, indústria fragilizada, elevado custo fiscal dos juros e perda de capacidade de coordenação macroeconômica, justamente no momento em que deveria consolidar a Nova Indústria Brasil, acelerar o Novo PAC e ampliar os investimentos associados à transição energética e à economia de baixo carbono.
A legislação não consagra a autonomia do Banco Central como um poder acima do projeto democrático nem como um fim em si mesmo. Ao contrário, estabelece como fundamentos da República o desenvolvimento nacional, a redução das desigualdades e a soberania. A política monetária deve estar subordinada a esses objetivos e integrada a uma estratégia de desenvolvimento, não operar como força autônoma que bloqueia escolhas feitas pela sociedade.
O país precisa, com urgência, recuperar a capacidade de planejar o seu futuro. Reduzir a pobreza, enfrentar as desigualdades, reindustrializar a economia, modernizar a infraestrutura e construir uma indústria inovadora exigem que o Brasil volte a crescer, de forma sustentada, a taxas próximas de 5% ao ano ao longo da próxima década. Esse deve ser o norte de um projeto nacional de desenvolvimento, baseado no aumento da capacidade de investimento público e privado, na coordenação das políticas econômicas e na superação do rentismo como lógica dominante.
É esse debate que precisa ser enfrentado com clareza, coragem política e compromisso com o desenvolvimento. Porque, ao contrário do que insiste a velha ortodoxia, sempre há alternativas.
(*) José Dirceu foi ministro-chefe da Casa Civil no primeiro governo Lula (2003-2005), presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e deputado federal por São Paulo.
























