O episódio de Nossa Senhora Aparecida colocou Flávio Bolsonaro dentro de uma máquina de comunicação que o próprio bolsonarismo ajudou a construir. A história que o atingiu dá um salto que as provas disponíveis não autorizam, mas esse salto é construído com fatos reais.
O projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil existiu. Foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que depois se tornou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro. O hoje candidato Flávio e sua mulher, Fernanda, foram batizados na Comunidade das Nações, fundada por JB Carvalho. Carvalho escreveu defendendo que Aparecida deixasse de ocupar essa posição e que Jesus Cristo fosse reconhecido como único Senhor do Brasil, endossando a proposta de Galli. Flávio manteve relação com a igreja e, já candidato, afirmou que decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Nenhum desses fatos, isolado, prova que Flávio pretenda retirar o título de Aparecida. Mas a junção deles torna pobre resumir toda a história a uma invenção sem qualquer base. Há uma rede política e religiosa concreta, personagens relacionados e ideias que efetivamente circulam nesse ambiente. A distorção aparece quando essa proximidade é convertida diretamente em intenção comprovada.
Rodrigo Nunes ajuda a entender o que aconteceu. Filósofo e professor de teoria política, lançou em 2022 “Do transe à vertigem: ensaios sobre o bolsonarismo e um mundo em transição“, livro em que mostra como conservadorismo religioso, ressentimento, guerra cultural e redes digitais compõem uma eficiente rede de comunicação.
Um dos mecanismos que Nunes analisa é a trollagem: lança-se uma formulação forte, ela circula rapidamente e sempre existe a possibilidade de recuo. Se funciona, permanece; se encontra resistência, pode virar exagero, brincadeira ou interpretação equivocada.

Foi uma vantagem comunicacional explorada durante anos pelo bolsonarismo. Uma associação simples circulava numa frase enquanto o adversário precisava de páginas para reconstruir datas, documentos e contexto. Quase sempre partia de um fragmento verdadeiro, ampliado até virar certeza. Agora Flávio precisa explicar justamente que associação não é prova, proximidade não significa adesão e indícios não demonstram automaticamente uma intenção.
Há ainda o problema de sua própria credibilidade. Um levantamento do veículo Aos Fatos encontrou dezenas de declarações enganosas de Flávio apenas no caso Daniel Vorcaro, algumas posteriormente contrariadas por mensagens e encontros conhecidos. Isso não demonstra que esteja mentindo sobre Aparecida. Significa que sua negativa, por si só, não pode encerrar a apuração.
A ironia do episódio está aí. O bolsonarismo ajudou a consolidar uma comunicação baseada em suspeita, associação e desconfiança dos desmentidos. Quando essa gramática retorna contra um Bolsonaro, ele passa a exigir contexto, mediação e rigor na relação entre os fatos.
A trollagem voltou para casa. E encontrou um ambiente que o próprio bolsonarismo ajudou a construir, no qual Flávio vai ter de responder a ela todos os dias até domingo, dia da eleição.
(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.