Brasil, China e EUA: não alinhamento ou autonomia estratégica?
Trocar a influência dos EUA pela especialização primário-exportadora com a China representaria apenas uma mudança na geografia da dependência brasileira
A pergunta sobre de que lado o Brasil está é uma das formas mais pobres de compreender a posição brasileira na disputa entre Estados Unidos e China. Ela pressupõe um sistema internacional já dividido, no qual às potências médias restaria escolher o campo de maior conveniência. Para o Brasil, porém, a questão relevante não é a equidistância entre Washington e Pequim, mas a capacidade de impedir que sua política externa seja definida pelas dependências econômicas, tecnológicas e financeiras acumuladas em relação a ambos.
Há diferença substantiva entre não alinhamento e autonomia estratégica. O primeiro pode ser uma postura; a segunda exige poder. Um país pode recusar adesão automática às posições de uma grande potência e, ainda assim, permanecer vulnerável às suas decisões. Autonomia não se mede pela retórica de independência, mas pela margem efetiva de escolha quando o custo da escolha aumenta.

Trocar a influência dos EUA pela especialização primário-exportadora com a China representaria apenas uma mudança na geografia da dependência brasileira
A tradição diplomática brasileira conhece essa tensão. A Política Externa Independente, o pragmatismo responsável e a posterior diversificação de parceiros compartilharam um princípio: ampliar alternativas para reduzir constrangimentos externos. Não se tratava de isolamento, mas de impedir que uma relação específica se convertesse em tutela.
A ascensão chinesa alterou esse cálculo. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para a China alcançaram 58,3 bilhões de dólares; para os Estados Unidos, 17,4 bilhões de dólares. Pequim deixou há muito de ser parceiro complementar e tornou-se elemento estrutural da inserção externa brasileira.
Mas centralidade comercial não equivale a autonomia. O intercâmbio Brasil-China continua marcado pela exportação brasileira de produtos primários e pela importação de bens industriais de maior intensidade tecnológica. Trocar dependência política por especialização primário-exportadora não é emancipação estratégica, mas apenas modificar a geografia da dependência.
A cooperação bilateral que interessa ao Brasil deve envolver infraestrutura, cadeias produtivas, finanças, transição energética, ciência, tecnologia e até indústria de defesa. O problema brasileiro não é aproximar-se demais da China, mas aproximar-se sem uma estratégia capaz de converter investimento, mercado e cooperação em capacidade produtiva própria.
A relação com os Estados Unidos possui outra estrutura. Mesmo com menor peso relativo nas exportações, Washington conserva influência sobre finanças internacionais, sistemas de pagamento, infraestrutura digital, cadeias tecnológicas, propriedade intelectual e a arquitetura de segurança hemisférica. A imposição, em julho de 2026, de tarifa adicional de 25% sobre ampla parcela das importações brasileiras, recordou uma verdade elementar: interdependência não elimina coerção.
É aí que o não alinhamento se revela insuficiente. Permanecer fora de uma aliança formal com Washington ou Pequim não garante liberdade de ação. Se semicondutores, dados, meios de pagamento, fertilizantes, máquinas, componentes militares ou mercados de exportação estiverem excessivamente concentrados, a neutralidade diplomática pode coexistir com profunda vulnerabilidade material.
O BRICS, por outro lado, pode reduzir parte dessas assimetrias ao ampliar canais de financiamento e coordenação política. Mas seria erro transformá-lo numa espécie de OTAN do Sul Global ou em bloco de alinhamento automático com a China. Sob a presidência brasileira de 2025, o discurso oficial enfatizou multilateralismo, cooperação econômica e reforma da governança internacional, não a formação de um campo geopolítico fechado.
A política externa brasileira precisa abandonar duas ilusões simétricas. A primeira sustenta que a proximidade histórica com os Estados Unidos garantiria tratamento privilegiado dentro da ordem ocidental. A segunda imagina que a expansão chinesa produzirá espontaneamente uma ordem favorável ao desenvolvimento brasileiro. Grandes potências não existem para realizar projetos nacionais alheios.
Autonomia estratégica significa negociar com Washington sem aceitar subordinação hemisférica; aprofundar relações com Pequim sem converter o Brasil em fornecedor periférico de alimentos, petróleo e minerais; utilizar o BRICS sem renunciar à Europa, América Latina, África, Índia, Japão e outros centros de poder. Significa internalizar tecnologia, reconstruir capacidade industrial, dominar infraestrutura digital, proteger recursos estratégicos e manter instrumentos de defesa compatíveis com a dimensão do país.
O Brasil dialoga na multipolaridade, mas ainda opera com instrumentos de uma economia dependente e subdesenvolvida. E, aqui, a multipolaridade não beneficia automaticamente quem possui muitos parceiros. Beneficia quem consegue colocá-los em concorrência, extrair tecnologia, financiamento, mercado e espaço diplomático sem entregar a nenhum deles poder de veto sobre suas escolhas.
Entre China e Estados Unidos, a melhor política brasileira não é permanecer no meio. É deixar de ocupar posição subordinada nas duas pontas. A distância decisiva não é a que separa Brasília de Washington ou Pequim, mas a que separa a ambição brasileira de autonomia dos meios materiais de poder necessários para sustentá-la.
(*) Guilherme Diniz é professor de História do Brasil e dedica-se ao estudo da formação social brasileira, do pensamento brasileiro e das ideias que moldaram o país. Minhas pesquisas transitam por temas como Forças Armadas, republicanismo e nacionalismo no Brasil, buscando compreender as continuidades, disputas e projetos que atravessam nossa trajetória histórica, política e intelectual.






















