Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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A entrada de dezenas de milhares de marroquinos em Ceuta e Melilla foi apresentada como mais uma crise migratória. Essa explicação, embora contenha parte da realidade, é insuficiente.

O episódio parece resultar da convergência entre uma crise social aguda no Marrocos, a utilização da migração como instrumento de pressão diplomática e um contexto geopolítico marcado pelas tensões entre Espanha, Marrocos, Estados Unidos e Israel.

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"Marcha pela dignidade" em Ceuta, na Espanha, em fevereiro de 2020. <br> (Foto: Joanna Chichelnitzsky / Fotomovimiento)

“Marcha pela dignidade” em Ceuta, na Espanha, em fevereiro de 2020.
(Foto: Joanna Chichelnitzsky / Fotomovimiento)

O primeiro fator é interno. O êxodo de milhares de jovens marroquinos evidencia o desemprego, a desigualdade e a falta de perspectivas econômicas, contrastando com a narrativa oficial de prosperidade promovida pelo governo do rei playboy Mohamed VI. A pressão migratória possui, portanto, causas sociais concretas.

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Entretanto, também é um fato que Marrocos já utilizou o controle migratório como mecanismo de pressão sobre a Espanha.

A crise de Ceuta, em 2021, demonstrou que o relaxamento dos controles fronteiriços pode transformar rapidamente um problema social em uma crise diplomática.

Os acontecimentos atuais apresentam características semelhantes, sugerindo que Marrocos administrou, ao menos parcialmente, o nível de controle sobre sua fronteira.

Embora não existam provas públicas de que tenha organizado diretamente o deslocamento das multidões, existem precedentes suficientes para considerar plausível o uso da migração como instrumento de pressão política.

A reação espanhola reforça essa percepção.

Durante visita a Ceuta, o primeiro-ministro Pedro Sánchez classificou os acontecimentos como um “ataque” e uma “violação da integridade territorial da Espanha”, deixando de tratá-los apenas como uma emergência migratória e elevando a crise ao plano da soberania nacional.

A Argélia e a República Árabe Saaraui Democrática (RASD) interpretam os acontecimentos como mais um exemplo da estratégia marroquina de utilizar diferentes instrumentos de pressão regional.

Para a leitura saaraui, a crise guarda paralelos com a lógica da Marcha Verde de 1975, quando grandes deslocamentos populacionais foram empregados para consolidar a ocupação colonial do Saara Ocidental.

O contexto internacional amplia ainda mais a importância do episódio.

Desde os Acordos de Abraão, Marrocos fortaleceu sua parceria estratégica com Estados Unidos e Israel, consolidada pelo reconhecimento norte-americano da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental e pela ampliação da cooperação militar e de inteligência.

Ao mesmo tempo, a Espanha assumiu posições cada vez mais críticas às ações israelenses em Gaza. Benjamin Netanyahu afirmou que Madri “pagaria um preço” por sua postura diplomática, enquanto Donald Trump declarou que “eles não estão se portando bem, mas logo aprenderão”.

Essas declarações não demonstram coordenação entre os acontecimentos, mas revelam um ambiente de crescente pressão política sobre o governo espanhol.

Outro elemento relevante é o aumento da importância estratégica do Estreito de Gibraltar após a crise da navegação no Mar Vermelho. Nesse cenário, qualquer instabilidade em Ceuta e Melilla ultrapassa a dimensão migratória e passa a afetar um dos principais corredores marítimos entre o Mediterrâneo e o Atlântico.

A maior contradição, porém, surgiu nas Nações Unidas.

O representante permanente de Israel, Danny Danon, classificou Ceuta como um território “colonial” e defendeu sua descolonização.

Se esse princípio deve ser aplicado à Espanha, a mesma lógica inevitavelmente conduz à ocupação israelense dos territórios palestinos e à ocupação marroquina do Saara Ocidental, ambos reconhecidos internacionalmente como questões pendentes de solução. 

A coerência desse argumento exigiria que Israel defendesse igualmente o fim da ocupação da Palestina e que Marrocos aceitasse cumprir as resoluções da ONU sobre o Saara Ocidental.

Ceuta e Melilla deixaram de ser apenas uma questão migratória. Tornaram-se um ponto de encontro entre crise social, disputas territoriais e rivalidades geopolíticas.

Ainda não existem provas públicas de uma coordenação operacional entre Marrocos, Estados Unidos e Israel para desencadear os acontecimentos. Existe, porém, uma convergência objetiva de interesses que torna essa crise muito mais ampla do que um simples fluxo migratório.

(*) Sayid Marcos Tenório é historiador, especialista em Relações Internacionais e analista de geopolítica. É autor dos livros ‘Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência’ e ‘RASD 50 Anos – A longa marcha pela independência da última colônia da África’.