'Conselho da Paz': uma ONU paralela sob hegemonia absoluta dos EUA
"Conselho da Paz" de Trump é tentativa de construir uma ONU paralela, esvaziada de qualquer princípio de soberania, legalidade internacional ou multilateralismo real, submetida ao controle absoluto dos EUA
O anúncio feito por Donald Trump em Davos sobre a criação de um chamado “Conselho da Paz” não é um gesto de pacificação, mas um ato de engenharia política do imperialismo estadunidense.
Trata-se de uma tentativa deliberada de construir uma ONU paralela, esvaziada de qualquer princípio de soberania, legalidade internacional ou multilateralismo real, submetida ao controle absoluto dos Estados Unidos, com Israel como parceiro estratégico privilegiado.

O presidente Donald Trump participa de uma coletiva de imprensa bilateral com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, na segunda-feira, 29 de dezembro de 2025, no clube Mar-a-Lago em Palm Beach, Flórida. (Foto: White House / Daniel Torok)
O fato de Trump ter indicado Gaza como ponto inicial das atividades do conselho não é casual. Gaza, hoje, é o epicentro de um genocídio em curso, perpetrado por Israel com apoio político, militar, financeiro e diplomático irrestrito dos EUA.
Transformar Gaza no “laboratório” inaugural desse conselho é, na prática, normalizar o genocídio, convertendo a destruição total de um povo em plataforma para a reordenação neocolonial do sistema internacional.
Sob o discurso cínico da “paz”, Trump busca administrar o pós-genocídio, não para garantir justiça, autodeterminação ou reconstrução soberana palestina, mas para impor um novo arranjo regional baseado na submissão política, na segurança israelense e no controle estratégico dos recursos e rotas do Oriente Médio. O “Conselho da Paz” nasce, assim, manchado de sangue palestino.
Essa iniciativa deve ser compreendida no contexto da crise estrutural da hegemonia norte-americana. Embora os EUA ainda detenham poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, sua capacidade de impor decisões de forma incontestada está em declínio.
O avanço de potências emergentes, a fragmentação do sistema internacional e o descrédito das instituições controladas pelo Ocidente empurram Washington para mecanismos paralelos, mais autoritários, mais opacos e menos sujeitos a qualquer freio jurídico.
O “Conselho da Paz” é a expressão acabada dessa fuga para frente: um organismo informal, sem base no direito internacional, no qual os EUA se colocam como juiz, executor e beneficiário final das decisões globais. Um conselho onde o veto deixa de ser institucional e passa a ser imperial, exercido de fato e sem disfarces.
A encenação de Davos revelou ainda mais. A ausência das principais potências europeias – Alemanha, França e Reino Unido – escancarou as fissuras internas do bloco ocidental.
Essa ausência não é irrelevante nem protocolar: ela expressa desconforto, desconfiança e, em certa medida, recusa europeia em avalizar uma iniciativa que cheira a aventura unilateral, especialmente num momento em que Gaza expõe, de forma brutal, a falência moral do Ocidente.
Trump esperava legitimação global, mas obteve apenas a adesão de menos de vinte países, em sua maioria regimes autoritários, governos frágeis ou Estados dependentes da tutela norte-americana.
As declarações triunfalistas de Trump sobre “o início da paz no mundo” soam como escárnio diante das ruínas de Gaza. Não há paz possível fora do direito internacional, fora da Carta da ONU, fora do reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação. E esse o arcabouço jurídico que os EUA e Israel vêm sistematicamente violando, da Palestina ao Iraque, da Síria ao Líbano.
A participação israelense no anúncio foi reveladora. Israel não precisa do conselho para continuar sua política agressiva. Precisa apenas que ele legitime o fato consumado, isto é, a limpeza étnica, o apartheid e o genocídio como “questões de segurança”.
Mais grave ainda é que o “Conselho da Paz” se articula com uma agenda de escalada regional, na qual o Irã figura como alvo central.
Ao reorganizar o sistema internacional a partir de Gaza, os EUA buscam criar as condições políticas e diplomáticas para isolar o Irã, justificar novas sanções, operações encobertas e, eventualmente, uma agressão militar direta.
Gaza não é o fim. É o começo de uma ofensiva mais ampla contra qualquer polo de resistência à ordem imperial dos EUA.
No Oriente Médio, cresce a percepção de que Trump opera segundo a lógica colonial clássica: impor pela força, dividir para governar, explorar recursos e esmagar resistências. Essa lógica, historicamente, nunca produziu paz, apenas guerras, golpes, deslocamentos forçados e ciclos intermináveis de violência.
A ascensão de Trump não é um desvio, mas a radicalização de um modelo em crise. A tentativa de substituir a ONU por conselhos controlados pelo império não demonstra força, mas desespero estratégico.
O “Conselho da Paz” de Trump não inaugura uma nova era de estabilidade. Ele inaugura uma fase ainda mais perigosa do imperialismo, na qual o genocídio em Gaza é tratado como detalhe, a guerra contra o Irã como possibilidade concreta e o direito internacional como obstáculo descartável.
Não se trata de paz. Trata-se de dominação. E os povos do mundo, da Palestina ao Irã, da América Latina à África sabem, por experiência histórica, que não há paz possível sob ocupação, apartheid e tutela imperial.
(*) Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência.
























