Contra a fraude da ‘paz’ na Palestina e além
“Uma bela propriedade”. Foi assim que Donald Trump se referiu à Faixa de Gaza ao anunciar o novo órgão de tutela da Palestina, o “Conselho da Paz”
O Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça — onde a minoria global promove sua hegemonia sobre o futuro da humanidade — foi um cenário bastante apropriado para o anúncio do “Conselho da Paz” e para a reafirmação da visão trumpista de mundo, ainda que alguns tenham demonstrado constrangimento diante de seu desvelamento. Ali, o presidente dos Estados Unidos recebeu elogios inflados de admiradores nada insuspeitos. Do copresidente do Fórum, Larry Fink, ao genro Jared Kushner, passando pelo secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte, Trump foi exaltado como “o líder mais importante do mundo”. Para completar, durante seu longo e tresloucado discurso, também houve risadas e aplausos. Para as vítimas, tratou-se de um quadro que poderia ser pintado pelo que Miguel Nicolelis tem chamado de “nem Inteligência, nem Artificial”. Felizmente, houve réplica.
As palavras do primeiro-ministro do Canadá têm sido bastante comentadas, talvez por virem de uma fonte inesperada. Mas Mark Carney disse aquilo que muitos intelectuais críticos, movimentos sociais, dirigentes de esquerda e líderes do Sul Global afirmam há muito tempo. Em resumo: o direito internacional é um instrumento da expansão global do capitalismo por meio do colonialismo e do imperialismo, consolidando um sistema internacional moderno que, na prática, é composto por Estados mais soberanos do que outros. Mas não se trata apenas disso. Dialeticamente, é preciso compreender como os povos do Sul disputam o direito e como é graças a essa disputa que ele se desenvolveu e passou a incorporar novas demandas. O direito à autodeterminação é uma delas.

O presidente Donald Trump participa da cerimônia de anúncio e assinatura da Carta da Paz durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
(Foto: Daniel Torok / White House)
No entanto, desde o início do século XX, a Palestina é uma das exceções — demonstrando que a força ainda prevalece. O precursor do “Conselho da Paz” foi o Mandato Britânico (1922–1948), por meio do qual a Liga das Nações legitimou o primeiro órgão de tutela sobre a Palestina, uma administração estabelecida em 1920 após o Reino Unido ocupar o território em 1917–18, durante a Primeira Guerra Mundial. Sob a promessa de preparar a Palestina para a independência, a Liga institucionalizou a visão colonial dominante com uma linguagem altamente discriminatória, concretizando as promessas feitas pelo chanceler britânico Arthur James Balfour, em 1916, de apoiar o movimento sionista na construção de um Estado judeu. Com sete sucessivos altos-comissários, a administração britânica apoiou a criação de instituições e treinou grupos paramilitares que posteriormente integrariam o Exército de Israel, ao mesmo tempo em que despojava e buscava desmobilizar a população palestina, reprimindo qualquer revolta. Em seguida, Reino Unido e Estados Unidos difundiram a ideia de que a solução para o antissemitismo ocidental estaria na apropriação de mais da metade da Palestina para a criação de um Estado judeu. A isso chamaram, como se fosse uma distribuição justa, de “Plano de Partilha”, endossado pela Assembleia Geral da ONU em 1947. Mais uma vez, a “comunidade internacional” foi mobilizada para legitimar e patrocinar a imposição de uma realidade contrária aos anseios do povo palestino.
A ânsia pela “propriedade” da Palestina e a insistência no espólio e na expulsão do povo palestino são constantes nesse projeto que continua sendo, inclusive na nova proposta de Trump, um projeto colonial. Não se trata sequer de neocolonialismo, pois, em vez do controle indireto e da exploração de um país formalmente independente e soberano, o plano mantém o controle direto sobre a população, atribuindo algumas tarefas de gestão a um órgão local sem independência formal e com ainda menos soberania. A colonização de povoamento, com características próprias no caso palestino, pressupõe a subjugação, o extermínio, a fragmentação e a transferência da população nativa por meio da expulsão; a superexploração e a segregação daqueles que permanecem; o povoamento por população estrangeira mediante a apropriação de terras e recursos; e assim por diante. É isso que os sucessivos governos de Israel têm feito — de forma ainda mais explícita desde que Trump voltou ao poder — e é isso que seu plano promete. O genocídio, que entrou em uma nova fase, é um método de colonização, e tanto seus instrumentos quanto seus resultados contam com investimentos internacionais, públicos e privados. A relatora da ONU Francesca Albanese apresentou indícios sólidos sobre essa economia, e é fundamental seguir investigando-os.
A criação de um “Conselho” internacional que respaldará esse plano, assim como a formação de uma autoridade palestina “tecnocrática” e “despolitizada” encarregada de implementá-lo, são tão indesejáveis quanto falaciosas. Não é nova a tentativa dos governos dos Estados Unidos e da União Europeia de encobrir o problema fundamental, de determinar o processo sociopolítico palestino e de aniquilar a autodeterminação do povo palestino. No entanto, Trump lança mão de sua pior tática de coerção para, aproveitando-se de um genocídio que patrocina e do desvio da atenção mundial, ditar o desfecho de um processo de paz mal concebido, que se arrasta há décadas, por meio de um plano econômico e político simultaneamente ultraliberal e colonial. Após um século de conluio ou omissão, é necessário responsabilizar os envolvidos nessa fraude e defender, na Palestina e além dela, o direito à autodeterminação, se realmente buscamos a paz.
(*) Moara Crivelente é Doutora em Relações Internacionais; integrante da Direção Executiva do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CEBRAPAZ) e do Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois; pesquisadora de pós-doutorado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
























