Crise energética, bombas imperialistas e urgência de unidade: o cenário que Fidel previu
Ao recordar um encontro com Rafael Correa em 2006, Fidel Castro antecipou dilemas atuais da América Latina: soberania energética, pressão imperial e a urgência da unidade regional
Em 3 de março de 2008, dois dias após a chamada Operação Fênix, promovida pela Colômbia em território do Equador, Fidel Castro publicou um relato sobre seu primeiro encontro com o então futuro presidente equatoriano Rafael Correa, ocorrido em fevereiro de 2006, e cujas reflexões são totalmente oportunas para compreender os dilemas da América Latina e do Caribe nos dias de hoje, passados exatos 20 anos.
A ação militar imperialista que motivou Fidel a publicar o texto foi realizada pelo governo da Colômbia, que bombardeou a região de Angostura, no território do Equador, matando mais de vinte integrantes das FARC e seu líder, Raúl Reyes. As bombas utilizadas eram de fabricação norte-americana, guiadas por tecnologia dos Estados Unidos. A violação da soberania equatoriana pelo imperialismo via governo colombiano abria uma importante crise regional entre os dois países sul americanos.
Intitulado apenas como “Rafael Correa”, o artigo vai além da denúncia imediata do bombardeio. Ele recupera um encontro ocorrido entre Fidel e Rafael em fevereiro de 2006, meses antes da eleição de Correa à presidência do Equador. Na época ambos discutiram temas como petróleo, soberania, energia, dívida externa e integração latino-americana e caribenha. Ao rememorar aquela conversa, Fidel articulou três dimensões inseparáveis para se compreender os dilemas de então e de outrora da América Latina: recursos naturais, independência política e unidade continental antiimperialista.

Fidel Castro reunido com Evo Morales, Rafael Correa, Daniel Ortega e Rosario Murillo, em janeiro de 2014.
(Foto: Alex Castro/Cubadebate
A questão energética ocupou um lugar central do diálogo. Segundo Fidel, “como já estávamos em 2006 decididos a impulsionar a revolução energética, que fomos o primeiro país do planeta a proclamar como questão vital para a humanidade, abordei o tema com especial ênfase”. Em seguida, acrescentou que “existem investimentos de risco extremamente elevado e de tecnologia sofisticada, que nenhum país pequeno como Cuba e o Equador poderia assumir”, e daí relatou a Rafael o transcurso de uma conversa que havia estabelecido com o presidente da empresa espanhola Repsol sobre a perfuração de poços em águas profundas de mares jurisdicionais cubanos, a mais de dois mil metros, com altíssimo custo e tecnologia sofisticada. Fidel perguntou quanto custava um poço exploratório e afirmou que Cuba desejava participar, ainda que com apenas 1% do investimento. O ponto não era financeiro, mas político: saber o que fariam com o petróleo cubano. Tratava-se de afirmar soberania mesmo diante da dependência tecnológica.
Correa, por sua vez, relatou sua experiência como ministro da Economia do governo de Alfredo Palacio e dirigente da Petroecuador. Denunciava que, de cada cem dólares extraídos pelas companhias estrangeiras, apenas vinte ficavam no país e nem sequer ingressavam plenamente no orçamento público. Recursos eram desviados para fundos paralelos, longe de investimentos sociais urgentes para o país. Sua proposta era revogar esses mecanismos e destinar 40% das receitas para educação, saúde, desenvolvimento tecnológico e infraestrutura, reservando o restante para a dívida ou investimentos estratégicos. A política petrolífera anterior, afirmou, beirava a traição à pátria. Segundo ele, o caso da empresa Oxy era emblemático e, pela legislação equatoriana, no caso de rompimento de contratos, previa-se a caducidade e a reversão do campo ao Estado. Mas pressões externas (EUA) impediam o cumprimento da lei. Quando um juiz declarou a caducidade, houve tentativa de destituí-lo. Correa conta a Fidel que recusou-se a participar da manobra e, ao ouvir esse relato, Fidel conta que percebeu que tinha subestimado o economista formado nos Estados Unidos, pois ali não havia apenas técnica, mas decisão política.
O encontro avançou madrugada adentro. Fidel abordou temas que iam do mercúrio despejado nos mares ao custo do quilowatt-hora das termelétricas; do consumismo ao trilhão gasto em publicidade, repassado aos povos no preço das mercadorias; das diferenças entre socialismo e comunismo ao papel do dinheiro. Falou da universalização do ensino superior em Cuba e dos estudos que identificaram idosos vivendo sozinhos em Havana. Convidou Correa para assistir uma despedida de brigadas médicas que seguiam para a Bolívia: cooperação gratuita, dezenas de hospitais, milhares de cirurgias oftalmológicas por ano. A integração latino-americana, ali, não era retórica; era prática concreta.
Dois anos após esse encontro, bombas romperam a madrugada equatoriana e Fidel foi categórico em seu texto: ninguém tem o direito de matar a sangue frio. Se aceitarmos o método imperial de guerra preventiva, qualquer grupo de latino-americanos pode ser alvo de bombas guiadas por satélites, em qualquer território. Ao mesmo tempo, Fidel afirmou que Cuba não era inimiga da Colômbia. A crítica dirigia-se ao imperialismo e à lógica que naturaliza a violação de fronteiras em nome da segurança. É nesse ponto que surge a frase que sintetiza sua posição e é a pérola do texto: “hoje, quando tudo está em risco, isso não nos torna beligerantes”. A firmeza na defesa da soberania não implica culto à guerra, mas compromisso com a unidade entre os povos americanos de Nossa América, como chamou Martí.
Sobre o episódio, Fidel escreveu: “hoje, querem sentar no banco dos réus o nosso amigo, o economista e presidente do Equador Rafael Correa, algo que não podíamos sequer conceber naquela madrugada de 9 de fevereiro de 2006. Parecia então que minha imaginação era capaz de abarcar sonhos e riscos de todo tipo, menos algo parecido com o que ocorreu na madrugada de sábado, 1º de março de 2008.” Será que Fidel poderia imaginar que algo como o 3 de janeiro de 2026 na Venezuela poderia ocorrer? Fidel inscreveu o episódio numa tradição histórica mais longa. Recordou Antônio José de Sucre e, sobretudo, Simón Bolívar. Citou José Martí, para quem o que Bolívar não conseguiu fazer nas Américas ainda está por fazer, e evocou Pablo Neruda, que escreveu que o Libertador desperta a cada cem anos.
Hoje, quando a região enfrenta um dos mais graves ataques do imperialismo estadunidense de sua história, com o bombardeio a Caracas e o sequestro de Maduro e Cília Flores em 3 de janeiro, o avanço voraz sobre recursos estratégicos como petróleo, lítio e terras raras, e o agravamento do bloqueio sobre Cuba, com um verdadeiro genocídio econômico, aquele texto de 2008 sobre Rafael Correa é assustadoramente atual.
Bombas podem cair na madrugada. Satélites podem guiar artefatos letais. Mas a resposta proposta por Fidel não foi o isolamento nem a guerra indiscriminada. Foi a construção paciente de alianças, a cooperação solidária, o controle soberano dos recursos e a memória histórica de Bolívar e Martí. Em tempos de risco, a América Latina não precisa tornar-se beligerante para ser digna. Precisa, sobretudo, estar unida para construir soberania.
(*) Ana Prestes é Cientista Política e Historiadora. Escritora. Analista Internacional. Participa do programa RodaMundo na grade do Opera Mundi no YouTube.






















