Cuba: um povo que não se rende
A persistência da Revolução Cubana desafia uma política de bloqueio que, há mais de seis décadas, aposta na fome e na escassez como instrumentos de pressão
No último dia 14, Cuba voltou a enfrentar um apagão nacional. Foi o quinto colapso do sistema elétrico registrado no país em 2026. Rapidamente, as imagens de Cuba mergulhada na escuridão correram o mundo. Atendendo aos interesses do imperialismo estadunidense, os grandes meios de comunicação voltaram a apresentar o apagão como mais uma prova do que eles chamam de “fracasso do socialismo”. Como de costume, não faltaram analistas burgueses vociferando aos quatro ventos que a Revolução Cubana chegou ao seu limite.
No caso de Cuba, quem cria a doença oferece, em seguida, a falsa cura. Há mais de seis décadas, os Estados Unidos submetem a ilha a um bloqueio econômico brutal e, ao mesmo tempo, apresentam a restauração do capitalismo como a única saída. Uma grande mentira, já que em Nova York, cartão-postal dos Estados Unidos e sede do capital financeiro mundial, mais de 100 mil pessoas vivem em situação de rua.

Mesmo durante o chamado Período Especial, momento mais difícil desde o triunfo da Revolução, no início da década de 1990, Cuba manteve-se de cabeça erguida: preservou seu sistema público de saúde, sua educação gratuita, seus centros de pesquisa e sua soberania nacional.
(Foto: SteveR / Flickr)
De fato, o sistema elétrico cubano depende da importação de combustíveis fósseis para manter em funcionamento suas usinas termelétricas. Sem petróleo suficiente, ocorrem apagões nacionais como o registrado nesta semana. Essa escassez decorre do endurecimento das sanções promovidas por Washington contra qualquer país, empresa ou instituição financeira que mantenha relações comerciais com Cuba. Até mesmo o setor do turismo sofre os efeitos dessas medidas. O objetivo permanece o mesmo: impedir que Cuba tenha acesso aos recursos indispensáveis para manter sua economia, buscando asfixiar seu povo.
Esse cerco não começou agora. O bloqueio criminoso imposto pelos EUA em 1962 representa a mais longa política de sanções unilaterais da história contemporânea.
Em 6 de abril de 1960, antes mesmo da oficialização do embargo, Lester D. Mallory, então subsecretário assistente para Assuntos Interamericanos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, redigiu um memorando reconhecendo que a maioria da população apoiava o governo revolucionário e que não existia oposição política suficientemente forte para derrubá-lo. Diante disso, propunha utilizar todos os meios possíveis para enfraquecer a economia cubana, reduzir salários, provocar fome, privações e desespero, criando as condições para a queda da Revolução.
Em outras palavras, a escassez é o projeto político do imperialismo com o bloqueio.
Mas a história demonstra que essa estratégia fracassou. Mesmo durante o chamado Período Especial, momento mais difícil desde o triunfo da Revolução, no início da década de 1990, Cuba manteve-se de cabeça erguida: preservou seu sistema público de saúde, sua educação gratuita, seus centros de pesquisa e sua soberania nacional.
Há mais de três décadas, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprova, por ampla maioria, resoluções exigindo o fim do bloqueio. Em 2024, apenas Estados Unidos e Israel votaram contra a resolução, acompanhados por um número ínfimo de aliados. Mas o bloqueio permanece, escancarando que quem toma as decisões são os senhores da guerra.
Solidariedade é a maior lição de Cuba
Esse ano celebramos o centenário de nascimento de Fidel Castro, em meio às novas ofensivas do imperialismo norte-americano. Em seus ensinamentos, Fidel defendia a solidariedade, o profundo senso de humanidade e, sobretudo, a defesa intransigente dos princípios revolucionários. Mesmo preso, no assalto ao Quartel Moncada, Fidel estava submetido a todo tipo de violações, mas seguiu defendendo que era justo o levante em armas do seu povo contra um governo tirano, como relatou em “A História me absolverá”. Mais de seis décadas depois, essa continua sendo a principal característica da Revolução Cubana: não se render. Resistiu às invasões, aos atentados terroristas, às centenas de tentativas de assassinato de seus dirigentes, às crises econômicas e ao bloqueio mais prolongado da história moderna.
Ao mesmo tempo, Cuba jamais deixou de praticar o internacionalismo e a solidariedade: enviou médicos, alfabetizadores e brigadas de emergência após terremotos, furacões e epidemias. Durante a pandemia de Covid-19, enquanto os países capitalistas corriam para lucrar com as vacinas, Cuba desenvolveu seus próprios imunizantes e enviou profissionais de saúde para dezenas de nações.
Por que o Brasil não envia petróleo a Cuba?
Há quem afirme que o governo brasileiro simplesmente não pode enviar petróleo a Cuba. O argumento é conhecido: como a Petrobras possui ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York, estaria submetida à legislação estadunidense e impossibilitada de realizar esse tipo de operação. Em outras palavras, estaríamos de mãos atadas.
Ora, o Brasil mantém relações comerciais com Cuba, exportando principalmente produtos agrícolas e alimentícios, além de alguns bens industriais. Mais do que isso, acaba de enviar 48 toneladas de leite em pó como ajuda humanitária ao povo cubano, transportadas em aeronaves da Força Aérea Brasileira. Os alimentos foram disponibilizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ou seja, quando existe vontade política, o Estado brasileiro encontra mecanismos para exercer solidariedade internacional.
Trata-se, antes de tudo, de uma decisão política. Mais do que isso: trata-se de defender verdadeiramente a soberania nacional, sem subordinar completamente a política externa brasileira a Washington.
De fato, como a relação entre um país imperialista e um país dependente não se define pela “química” entre seus líderes, o fascista Donald Trump não pensou duas vezes antes de promover um novo tarifaço contra o Brasil. Afinal, de que valeu toda essa submissão?
Render-se ou lutar?
Nossa história tem muitos exemplos de coragem e heroísmo, povos que não se ajoelharam e venceram exércitos inteiros, porque o que determina a vitória não é a potência das armas e o número de soldados, mas a confiança do povo na justeza de sua luta. Foi assim no Vietnã. É assim, ainda hoje, na resistência do povo palestino.
Por isso, a maior derrota do imperialismo norte-americano é a determinação do povo cubano. Depois de mais de seis décadas de bloqueio, a Revolução Cubana continua inspirando milhões de pessoas que acreditam na soberania dos povos, na solidariedade internacional e no direito das nações de escolherem seu próprio destino. O povo cubano conhece o preço da liberdade e, ainda assim, não renuncia à sua independência.
Há também os exemplos de capitulação. O agravamento da crise energética cubana demonstra como as concessões ao imperialismo fortalecem a capacidade de chantagem econômica exercida pelos Estados Unidos sobre todo o continente. Não podemos esquecer jamais que a situação do povo cubano se agravou após a traição do atual governo venezuelano que, envergonhando a pátria de Chávez e Bolívar, se rendeu a Trump e entregou o controle do petróleo aos monopólios estadunidenses.
É por isso que a solidariedade com Cuba continua sendo a principal tarefa dos povos latino-americanos. No ano em que os povos do mundo celebram o centenário de Fidel Castro, Cuba continua sendo o farol da esperança para aqueles que acreditam na liberdade.
(*) Isis Mustafa é dirigente do partido Unidade Popular pelo Socialismo.























