Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

Em espanhol, a palavra gusano significa verme. Apesar de também existir na língua portuguesa como um termo técnico da biologia, é somente em espanhol que a carga semântica (moral e política) deste vocábulo adquire sua plena magnitude. Na América Latina, trata-se de um xingamento popular com ares novelescos. Mas para a esquerda latino-americana seu significado é mais preciso. O termo gusanera refere-se, via de regra, à elite cubana que fugiu da ilha durante a revolução de 1959 e instalou-se na Flórida, constituindo importante força política nos Estados Unidos da América (EUA) desde então.[1] O atual Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, por exemplo, é uma expressão do poder desta “comunidade”, que possui extensas ligações com os serviços secretos e máfias daquele país. E que juntos promovem toda sorte de atividades reacionárias em escala continental, oficial ou clandestinamente. 

Nós no Brasil temos, portanto, muito a ver com isto.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi
O presidente Lula durante encontro com Donald Trump na cúpula da ASEAN, em 25 /10/2025. <br> (Foto: Daniel Torok / White House)

O presidente Lula durante encontro com Donald Trump na cúpula da ASEAN, em 25 /10/2025.
(Foto: Daniel Torok / White House)

Deste modo, seja por motivos políticos, éticos ou simplesmente egoístas, não podemos ficar indiferentes diante das crescentes agressões do imperialismo yankee sobre Venezuela e Cuba. A recente tomada de assalto por tropas estadunidenses de um navio petroleiro venezuelano com destino a Cuba (e depois ao Irã) desmonta, por si só, qualquer alegação de “narcoterrorismo” com a qual se busca encobrir a operação de remoção forçada de regime político em Caracas. Como dizia o grande intelectual palestino Edward Said acerca da invasão do Iraque, em 2003: “se o Iraque fosse o maior exportador mundial de bananas ou laranjas, sem dúvida não teria havido guerra”.[2] O mesmo vale, agora, para a Venezuela, comprovando a conhecida maldição dos recursos naturais. Depois da apropriação rapinesca do petróleo venezuelano, o que virá em seguida? Será chegada a vez da Amazônia brasileira e de sua biodiversidade? 

A situação é perigosíssima e não estamos debatendo o suficiente sobre o assunto.

Mais lidas

Mas existe um problema ainda maior. Ao que tudo indica, apesar das aparências econômicas, o que está em jogo é, em última instância, a velha ideologia supremacista. O próprio Edward Said também sabia disto e prossegue sua reflexão da seguinte forma: “sem um sentimento bem organizado de que aquela gente que mora lá não é como ‘nós’ e não aprecia ‘nossos’ valores (…) não teria havido guerra”. A lição é bem clara. Recursos naturais são importantes, mas recursos políticos são ainda mais. Ao atacar a Venezuela e tentar estrangular a Revolução Bolivariana, os estrategistas do império em decadência tentam inviabilizar, via intimidação, toda e qualquer dissidência política que ouse brotar em seu quintal (backyard), como referem-se, sem pudor, à Nuestramérica.  

O fato de que o petroleiro atacado (e confiscado) tivesse Cuba como destino não é, de modo algum, fortuito. É provável, aliás, que o principal alvo de toda esta militarização do Caribe seja justamente a revolução cubana, que resiste (e re-existe) há mais de 60 anos nas barbas imperiais do Tio Sam, teimosamente mantendo vivo o mau-exemplo de sucesso anti-imperialista no chamado “Hemisfério Ocidental”.[3] Na visão de gente como Rubio, o extermínio do socialismo em Cuba é um obsessão revanchista pessoal, mas também um projeto político continental visando a consolidação da contra-revolução permanente nesta parte do globo, para que nunca mais os povos em luta ousem desafiar os seus senhores – e nem, menos ainda, os senhores de seus senhores.[4] As execuções extra-judiciais em alto mar falam por si só. O total descaso com o direito internacional (ou mesmo com a legalidade doméstica nos EUA), bem como aos direitos humanos daqueles acusados de tráfico de drogas (que podem ser apenas pescadores, até que se prove o contrário) já é suficiente para entender o projeto de morte que a gusanera tem para todos nós. Um projeto que a cada passo torna-se mais realidade desde que os gusanos se espalharam da Flórida para Washington, com a nova vitória de Trump.[5]

Numa tal situação, o virtual silêncio da diplomacia brasileira e, principalmente, do presidente Lula da Silva, são absolutamente ensurdecedores. Não há pânico tarifário ou mentalidade subalterna que justifiquem a total inação, mesmo que retórica, do governo brasileiro frente ao ataque em curso contra um estado nacional sul-americano fronteiriço ao Brasil, membro do Mercosul, que ousou desafiar oligarquias locais e super-potências internacionais, como a Venezuela Bolivariana. O caos e a instabilidade crônica que sempre sucedem as operações de regime change dos EUA certamente terão efeitos seríssimos sobre toda a região, incluindo o Brasil. Pensemos naquilo que se transformou o Iraque, a Líbia ou a Síria… Pensemos, enfim, nas tantas sociedades destroçadas pelas armas estadunidenses em nome da democracia, da diversidade e do livre-mercado.

A diplomacia lulista, que inventou a doutrina da “não-indiferença” na hora liderar a intervenção militar no Haiti, possui agora um dever a mais de prestar solidariedade à nação vizinha ora acossada. Se era verdade que não podíamos ficar indiferentes perante àqueles que não são totalmente diferentes de nós, como aceitar a passividade diante da flagrante agressão atual contra um povo-irmão? Mais ainda: como podemos nos achar no direito de intervir no processo eleitoral venezuelano e cobrar atas e depois simplesmente fechar os olhos para a política mais golpista que pode existir, que é a da invasão militar liderada por uma potência imperialista? Vale lembrar que as eleições recentes em Honduras e no Equador foram contestadas pelos candidatos “perdedores” de esquerda, com amplas evidências de fraude, mas nem o Itamaraty nem a presidência da República ou seus assessores requisitaram atas ou coisa parecida (o Brasil imediatamente reconheceu o resultado oficial em ambos os casos). 

Ao que parece, a ginástica discursiva entre os princípios da não-intervenção e da não-indiferença seguirá ao sabor das conveniências políticas de cada momento. É uma pena. E, mais que tudo, é deveras perigoso, pois tais vacilações oportunistas certamente recaem sobre quem delas se utiliza: do Haiti ganhamos um general Heleno e os primeiros escalões do que viria a ser o futuro governo Bolsonaro. De nada adianta, portanto, que o ex-chanceler Celso Amorim dê entrevistas nas quais advirta que a “Venezuela pode se transformar num novo Vietnã” para os americanos, enquanto o presidente Lula se apresenta sorridente ao lado de Trump a cada oportunidade. Perplexos, somos obrigados a perguntar: o alerta é para quem? Em outras palavras, estamos preocupados com os destinos políticos do atual governo estadunidense ou com a sorte do povo venezuelano? Denunciar esta agressão imoral, ilegal e injusta, como, aliás, tem feito a presidência colombiana, a despeito de todas as diferenças com Caracas e da imensa sensibilidade que isto provoca no país neo-granadino, deveria ter se tornado um mantra da diplomacia brasileira em 2025. 

Pagaremos caro, outra vez, por esta colaboração tácita com o imperialismo yankee[6], tal como pagamos pela decisão tomada em 2004, quando aceitamos a procuração estadunidense para violar a soberania do Haiti por 13 anos seguidos enquanto los gringos estavam atolados no Afeganistão e no Iraque. Como bem advertia Lênin, o oportunismo em matéria internacional sempre cobra seu preço em vidas, devastação e miséria. A esquerda brasileira precisa agir independente do governo de turno e buscar urgentemente interferir na política externa brasileira sobre a Venezuela, tratando-a enquanto política pública, aberta ao escrutínio da sociedade civil e das visões políticas dos setores populares. Posturas indiferentes, supostamente neutras (perante o status quo) ou abertamente colaboracionistas com as estratégias imperialistas devem ser combatidas com o mesmo vigor que combatemos o machismo, a transfobia, o racismo e o elitismo pequeno-burguês em nossas fileiras. 

Não vale a pena citar nomes pois não se trata de problema pessoal, mas político. Foram demasiadas as vozes que embarcaram na crítica fácil ao chavismo ao longo dos anos, entregando-se à ignorância calculada acerca das supostas credenciais democráticas da “oposição” de direita venezuelana. Vozes que se calaram sobre qualquer outra eleição ao redor do planeta, até mesmo sobre lugares onde nem existe eleição, sempre embarcando na narrativa yankee que foca nos mesmos alvos: Irã, Venezuela, Coreia do Norte e quem mais for necessário classificar como “eixo do mal” em cada esquina da História. 

Hoje, a agressão nua de Trump escancara aquilo que esteve sempre visível para quem quisesse ver. Era curioso – para dizer o mínimo – que gente do nosso campo pudesse tão facilmente apoiar as políticas de Trump e Bolsonaro contra a Venezuela em 2019. É urgente, agora, que toda a esquerda brasileira se una para finalmente exigir uma política externa firme sobre o tema, especialmente quem apoiou a “opção Guaidó” e outras tentativas de instalar um governo títere em Caracas, pois agora não há mais como se esquivar do julgamento da História. Um julgamento que também vale para aqueles que passaram a tratar Cuba como uma espécie de zoológico socialista onde pode-se fazer turismo cult de esquerda, (justamente onde o regime é de partido único, vale dizer) ao passo que seguiram calados ou, pior, hipocritamente críticos da Revolução Bolivariana, sempre malvada e caricatural ao lado de uma Cuba fofinha, romântica e inofensiva. 

Bom, é hora de acordar, antes que seja tarde demais. Pois, independente das simpatias ou antipatias de cada um de nós, estas duas experiências de construção do socialismo latino-americano e caribenho acabarão juntas de uma só vez, ao que parece. E depois chegará a nossa vez, sem termos tido sequer a chance de desfrutar de nossa própria experiência revolucionária anticapitalista e anti-imperial. A gusanera precisa perder agora, sob pena de sermos derrotados para sempre caso prevaleça. Mas, para isso, seria bom que ela parasse de encontrar aliados, tácitos ou explícitos, entre nosotros também. 

Notas:
[1] A melhor representação pictórica da gusenera cubana é, até hoje, o longa-metragem icônico do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC) dirigido por Tomás Gutiérrez Alea, intitulado “Memórias do Subdesenvolvimento” [1968], disponível em excelente resolução no Youtube com legendas em português: https://www.youtube.com/watch?v=ePk2-ssEDJI 
[2]  Said, E. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 12. 
[3]  Para uma crítica ao conceito e à cartografia imaginária acerca do ‘hemisfério ocidental’, ver: Mignolo, W. “A colonialidade de cabo a rabo: o hemisfério ocidental no horizonte conceitual da modernidade”. In: Lander, E. (Org) A Colonialidade do Saber: eurocentrismo e ciências sociais – perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
[4]  Para o conceito de ‘contra-revolução permanente’, ver, dentre outros, a análise sempre perspicaz e visionária de Ruy Mauro Marini em: “A New Face for Counter-Revolution”, NACLA’s Latin America and Empire Report, vol. 11, nº 6,1977.
Disponível online em: https://marini-escritos.unam.mx/wp-content/uploads/2022/01/new_face_counterrevolution.pdf
[5]  Para que não reste dúvidas, a recém lançada Estratégia de Segurança Nacional dos EUA faz referência explícita à Doutrina Monroe, à qual adiciona o “corolário Trump” (p.15), que é justamente o projeto em curso pela gusanera. Ver: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf
Vale lembrar também que ameaças, sanções e bloqueios navais, como o recentemente anunciado pelo presidente norte-americano contra a Venezuela são “instrumentos violentos de política externa” tanto quanto a “guerra”. Por esta razão, a Casa Branca foi obrigada a anunciar uma quarentena sobre Cuba durante a Crise dos Mísseis de 1962, um eufemismo lúcido que evitou o termo ‘bloqueio’, que poderia ter desencadeado uma reação militar da União Soviética. Sobre os conceitos mencionados, ver o clássico de José Calvet de Magalhães: A Diplomacia Pura, Venda Nova: Bertrand Editora, 1996, p. 28-30.
[6]  O recente aplauso da diplomacia brasileira ao plano de Trump para Gaza é um disparate similar. Ver, a respeito: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/10/01/mauro-vieira-diz-que-brasil-aplaude-plano-de-paz-do-governo-dos-estados-unidos-para-gaza.ghtml