Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
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Neste início do segundo quarto do século XXI, podemos ver com mais nitidez como a política externa norte-americana está operando para dividir o seu maior obstáculo contemporâneo, que ameaça a continuidade de sua hegemonia no mundo – o Sul Global. Os acontecimentos na Venezuela e no Irã têm envolvimento direto dos EUA e de seus aliados, e é muito importante que as forças progressistas e de esquerda tenham cuidado para não se tornarem peões em um jogo geopolítico maior, servindo de linha auxiliar aos interesses do império ocidental.

Após a derrota histórica da URSS e o fim do mundo bipolar, vimos a emergência de um poder global único, liderado pelos EUA, com uma imponência inédita na história da humanidade: aproximadamente 800 bases militares em cerca de 80 países, o que lhes confere força para intervir em conflitos de interesse em qualquer lugar do mundo. Soma-se a isso o “privilégio exorbitante” do dólar, que permite o controle da liquidez global, bem como uma capacidade de investimento e um poder de sanções financeiras inigualáveis. Além disso, os EUA possuem liderança tecnológica capaz de controlar as principais big techs e a vigilância de dados em ampla escala, garantindo elevada produtividade e competitividade de longo prazo. Aqueles que julgam que o império norte-americano está em decadência terminal estão, como diz a juventude de hoje, “emocionados”.

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O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso no Donald J. Trump - John F. Kennedy Center for the Performing Arts. (Foto: Daniel Torok / White House)

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso no Donald J. Trump – John F. Kennedy Center for the Performing Arts.
(Foto: Daniel Torok / White House)

É verdade, no entanto, que na virada do século a ascensão extraordinária da China e as articulações surgidas entre países do Sul Global para se defenderem de relações desfavoráveis com o império ocidental passaram a preocupar a elite norte-americana, que está bem informada e preparada para evitar, a qualquer custo, retrocessos em sua hegemonia. A crise econômica de 2008, o surgimento do BRICS, o desenvolvimento da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), os avanços da Nova Rota da Seda (Belt and Road), liderada pela China, o eixo da resistência liderado pelo Irã no Oriente Médio, a rebeldia anticolonial na região do Sahel, na África, e, por fim, a derrota imposta à OTAN na Ucrânia ligaram o sinal de alerta no establishment norte-americano para a necessidade de uma contraofensiva.

A vitória eleitoral de Trump e dos republicanos, que passaram a controlar a maioria do Congresso norte-americano, foi uma resposta da fração burguesa majoritária que manda no mundo. Estão dispostos a esgarçar a normalidade da política interna dos Estados Unidos e a ordem internacional baseada em regras até arrebentar a corda, se for preciso. Na visão do império, soberania, solidariedade, cooperação e desenvolvimento do Sul Global são problemas de segurança nacional para os EUA.

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A administração Trump 2.0 ainda nem completou um ano e já lançou uma ampla guerra comercial tarifária contra o mundo inteiro, impôs à subserviente União Europeia um ajuste no financiamento da OTAN e ameaça anexar a Groenlândia “por bem ou por mal”. Em aliança com Israel, intensificou o genocídio e o controle da Faixa de Gaza, desmantelou o Hezbollah no Líbano, selou uma “perfumada” aliança com a nova liderança na Síria e patrocinou a guerra de doze dias contra o Irã, inclusive com participação direta. Em dezembro de 2025, o governo Trump, com apoio do Congresso, aprovou um pacote de fornecimento de armas para a autodefesa de Taiwan no valor de US$ 11,1 bilhões, o maior já destinado à ilha. O Mar do Caribe foi ocupado militarmente e, além de ameaças de ataques ao México, à Colômbia, à Nicarágua e a Cuba, os EUA promoveram uma agressão inédita na história da América do Sul, bombardeando e sequestrando o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a primeira combatente, Cilia Flores.

A implosão da conexão Caracas–Teerã

Essa covarde e violenta intervenção contra a Venezuela implodiu a sofisticada conexão entre Caracas e Teerã, que envolvia o comércio paralelo de petróleo e ouro e permitia que países altamente sancionados lutassem por maior independência em relação aos EUA, no hemisfério ocidental, e a seus aliados, como Israel, no Oriente Médio. A destruição dessa cooperação Sul–Sul faz parte de um projeto em curso, que já vem obtendo resultados positivos para a administração Trump.

A República Bolivariana da Venezuela encontra-se, neste momento, com sua soberania ferida e é vítima de um sequestro que impõe pesadas medidas econômicas coercitivas ao país. O extraordinário apoio popular de massas que o chavismo ainda possui é o grande ativo que permite a Delcy Rodríguez assumir o poder e ter condições de negociar concessões. No entanto, não há dúvidas de que o império aguarda o melhor momento para o golpe final.

O bloqueio do comércio entre Irã e Venezuela aprofundou a crise na República Islâmica do Irã. A guerra dos doze dias destruiu refinarias, debilitando o poder de produção energética do país. Além disso, a ameaça de retomada da guerra com Israel, a qualquer momento, canalizou recursos econômicos para o setor de defesa, precarizando outros setores da economia. Como um dos países mais sancionados do mundo, o Irã sofre intenso isolamento econômico, e a ruptura da parceria com a Venezuela interrompeu uma das últimas artérias que sustentavam sua economia.

O Banco Central do Irã (BCI) perdeu a capacidade de subsidiar a taxa de câmbio para a importação de bens essenciais — alimentos e medicamentos. Com a eliminação do subsídio, a elite econômica que controla os bazares, e que também se enriquece por meio da corrupção, passou a importar produtos com dólares mais caros, provocando automaticamente a elevação da inflação a níveis inacessíveis para a população. Essa situação deu início a uma revolta encabeçada pelos bazares, que acabou inflamando toda a sociedade iraniana em um movimento policlassista.

O apoio dessa mesma elite foi determinante para a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou a monarquia pró-ocidental liderada pelo Xá, e também constitui um pilar de sustentação do atual regime teocrático. A ruptura dessa aliança tem potencial para levar à queda do regime.

Os EUA e Israel atuam nitidamente para derrubar o governo iraniano. Donald Trump e Benjamin Netanyahu já deram declarações públicas de apoio entusiasmado às manifestações, chegando a afirmar que estão prontos para agir militarmente caso haja repressão aos manifestantes. Além disso, vêm dando sustentação a Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irã, que apoiou publicamente, em junho de 2025, os ataques militares de Israel contra o Irã e convocou a população a se insurgir contra o regime. Naquela ocasião, a população iraniana ignorou seus chamados e, majoritariamente, posicionou-se contra a agressão israelense.

O que observamos agora é uma mudança qualitativa na subjetividade de uma parte importante da sociedade iraniana. Nos dias 8 e 9 de janeiro, Reza Pahlavi — exilado em Washington, nos EUA — divulgou mensagens em vídeo, em farsi, convocando a população às ruas, e milhões responderam com manifestações em diversas cidades, incluindo Teerã. Além disso, circulam nas redes sociais imagens de manifestantes entoando palavras de ordem a favor de Pahlavi e da monarquia.

O Mossad publicou, em sua conta no X (Twitter), no dia 29 de dezembro, a seguinte mensagem:
“Viemos todos para as ruas. Chegou a hora. Estamos com vocês. Não apenas à distância e verbalmente. Estamos com vocês em campo.”
Ver aqui: https://x.com/i/status/2005649986504237381

Em resposta às manifestações, que já duram duas semanas, o governo iraniano adotou inicialmente uma abordagem dupla: negociação com setores que buscavam diálogo para demandas específicas e repressão aos manifestantes que recorreram à violência. À medida que os protestos se tornaram mais intensos, com incêndios de prédios públicos e confrontos com as forças de segurança, milhares foram presos — incluindo agentes do Mossad — e há registros de mortos, tanto civis quanto membros da Guarda Revolucionária Iraniana. Nos últimos dias, o governo cortou o sinal de internet e telefonia no país para dificultar a articulação dos protestos, mas as poucas informações que chegam indicam que eles continuam e se tornaram ainda mais violentos.

A oposição está dividida e trata-se de um movimento heterogêneo. Iniciou-se com a elite proprietária dos bazares, somou-se a ele um forte movimento monarquista que começa a ganhar protagonismo, setores sindicais em greve com influência de correntes de esquerda, intelectuais e estudantes universitários, organizações feministas e de direitos humanos, jovens que se reivindicam da “Geração Z” e movimentos separatistas de minorias étnicas, como curdos e balúchis.

Por enquanto, não há uma liderança nem um programa unificado, o que joga a favor do regime. As forças de esquerda são frágeis e minoritárias, sem condições de dirigir o processo de lutas. O fator político que poderia forjar uma aliança capaz de derrubar o regime seria a unidade entre os proprietários de bazares, as forças monarquistas e o imperialismo ocidental, o que ainda não se confirmou. Dificilmente haverá unidade total, dadas as profundas diferenças entre as frações em protesto.

Na ausência de uma direção alternativa capaz de apresentar um programa mínimo emergencial que atenda às reivindicações econômicas e democráticas do povo iraniano, não é prudente apostar na queda imediata do regime, o que poderia instaurar o caos, desdobrando-se em guerra civil ou na ascensão de uma monarquia reacionária aliada ao imperialismo ocidental, consagrando o domínio israelense na região. No curto prazo, esses protestos não oferecem uma saída progressista, devido ao seu caráter confuso, à falta de direção consequente e à forte influência imperialista, que tenta aplicar no país a política de “revolução colorida”.

Ao mesmo tempo, se o regime não negociar e atender às reivindicações da classe trabalhadora e se recusar a fazer concessões aos movimentos por direitos civis e democráticos, poderá abrir caminho para sua derrota — se não agora, muito em breve. A possibilidade de um novo ataque militar imperialista é iminente.

Por fim, na configuração atual do mundo, com a institucionalização do poder imperialista em escala global, a luta de classes e as lutas anticoloniais são indissociáveis e assumem uma dimensão cada vez mais internacional. A elaboração tática das forças progressistas, da esquerda e das correntes revolucionárias não pode se limitar aos elementos internos às fronteiras nacionais, pois quase nada está fora do entrelaçamento das relações políticas mundiais.

Trump apoiou enfaticamente a saída do Reino Unido da União Europeia e mantém tratamento diferenciado com a Inglaterra; não vacilou em ajudar Milei em seu momento crítico; não titubeou em apoiar Israel em seu projeto de dominação do Oriente Médio; garante o fornecimento de armas para proteger Taiwan e atua agressivamente para conter a influência não ocidental na América Latina. Tudo isso indica que, se as nações do Sul Global quiserem avançar efetivamente no enfrentamento anti-imperialista para defender sua soberania, terão de fazer mais do que vêm fazendo. Caso contrário, o objetivo de Trump de dividir o Sul Global para reinar será vitorioso.

(*) Gibran Jordão é historiador, analista de geopolítica e TAE-UFRJ.