Sábado, 15 de agosto de 2026
APOIE
Menu

Os mais de mil dias de guerra contra Gaza não destruíram apenas cidades, hospitais e campos de refugiados. Também expuseram o esgotamento de uma arquitetura política construída há mais de três décadas sob os Acordos de Oslo.

Enquanto o povo palestino enfrenta talvez o momento mais dramático de sua história desde a Nakba de 1948, suas instituições nacionais permanecem fragmentadas, envelhecidas e incapazes de expressar a pluralidade política da sociedade palestina e das forças que protagonizam a resistência à ocupação.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!
A guerra em Gaza evidenciou que o paradigma político inaugurado por Oslo dificilmente oferece respostas aos desafios do presente. <br> (Foto: Hosny Salah / Pixabay)

A guerra em Gaza evidenciou que o paradigma político inaugurado por Oslo dificilmente oferece respostas aos desafios do presente.
(Foto: Hosny Salah / Pixabay)

A Autoridade Palestina, concebida como uma administração transitória rumo à criação de um Estado soberano, converteu-se progressivamente em um fim em si mesma. 

Mais lidas

Trinta anos após Oslo, não existe Estado palestino, a colonização da Cisjordânia acelerou-se, Jerusalém Oriental sofre um processo contínuo de anexação de facto e Gaza foi submetida a sucessivas guerras e a um bloqueio devastador.

O processo político que deveria conduzir à independência acabou administrando uma ocupação cada vez mais consolidada.

Nesse contexto, Mahmoud Abbas tornou-se o principal símbolo da estagnação institucional. Presidente da Autoridade Palestina desde 2005, permanece no cargo sem renovar seu mandato por meio de eleições presidenciais.

O Conselho Legislativo Palestino continua paralisado, as eleições foram sucessivamente adiadas e acumulam-se críticas, tanto entre setores da sociedade palestina quanto em análises internacionais, relacionadas à corrupção, ao clientelismo, ao nepotismo e à ausência de reformas estruturais.

O resultado é uma crescente crise de legitimidade das instituições surgidas em Oslo.

Entretanto, reduzir essa crise à figura de Abbas seria simplificar um problema muito mais profundo. A questão central deixou de ser apenas quem dirige a Autoridade Palestina.

O debate que emerge entre intelectuais, organizações políticas e diversos setores da sociedade palestina diz respeito à própria reconstrução do movimento nacional palestino e à redefinição das instituições encarregadas de representá-lo.

Nesse debate, há um fato político incontornável.

O Hamas venceu as últimas eleições legislativas realizadas em 2006, obtendo uma maioria que jamais foi submetida novamente ao julgamento das urnas.

Desde então, consolidou-se como um dos principais protagonistas da política palestina, tanto pela sua capacidade de organização social quanto por seu papel na resistência e nas negociações envolvendo cessar-fogo, troca de prisioneiros e a administração de Gaza.

Independentemente das divergências em torno do movimento, sua exclusão de qualquer rearranjo institucional dificilmente contribuirá para uma representação nacional mais ampla.

O mesmo raciocínio aplica-se à Jihad Islâmica Palestina.

Embora historicamente tenha permanecido fora da disputa eleitoral, sua influência política e militar nos territórios ocupados, particularmente na Cisjordânia, tornou-se um componente relevante da realidade palestina contemporânea. Ignorar esse peso político significa desconsiderar parte expressiva da dinâmica interna da resistência palestina.

O próprio Fatah enfrenta desafios semelhantes. As disputas internas, a marginalização de lideranças históricas e a concentração das decisões em torno da atual direção enfraqueceram a organização que durante décadas liderou o movimento nacional palestino.

Também nesse caso, diferentes vozes palestinas têm defendido processos de renovação capazes de recuperar sua representatividade e fortalecer sua contribuição para um projeto nacional comum.

À luz desses elementos, torna-se difícil imaginar que a simples convocação de eleições, sem um entendimento político mais amplo, seja suficiente para superar a atual crise de legitimidade.

Diversos analistas e dirigentes palestinos têm sustentado que a reconstrução institucional passa necessariamente pela reforma da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), pela incorporação das principais forças políticas que hoje permanecem à margem de suas estruturas e pela reintegração da diáspora ao processo decisório nacional.

Mais do que uma disputa entre facções, a Palestina enfrenta hoje uma crise de representação.

A guerra em Gaza evidenciou que o paradigma político inaugurado por Oslo dificilmente oferece respostas aos desafios do presente.

A questão que emerge das ruínas de Gaza já não diz respeito apenas ao futuro da Autoridade Palestina nem à sucessão de Mahmoud Abbas.

A pergunta que atravessa todo o movimento nacional palestino é outra: como reconstruir uma representação política capaz de unir um povo disperso entre Gaza, Cisjordânia, Jerusalém, os campos de refugiados e a diáspora.

A resposta a essa pergunta poderá definir não apenas o futuro das instituições palestinas, mas o próprio futuro da causa nacional.

(*) Sayid Tenório é historiador, analista de geopolítica e autor do livro ‘Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência’.