Distopia: entre ficção e realidade
A ficção distópica contemporânea já não projeta catástrofes: ela naturaliza tendências do mundo atual
A cultura de massas, produzida de modo industrial desde meados do século XX, imprimiu uma espécie de subjetivação uniforme da sociedade, pautando-se em perspectivas e valores organizados fundamentalmente pelo horizonte estadunidense, que definiu as formas de produção estética como uma espécie de softpower do imperialismo. A crítica produzida pela tradição frankfurtiana à indústria cultural foi, posteriormente, transformada em uma espécie de desautorização das formas culturais das massas, lida – por vezes não sem alguma razão – como uma espécie de elitismo acadêmico, estipulando uma diferença entre alta e baixa cultura. Todavia, é fundamental resgatar essa perspectiva, compreendendo de modo sistêmico tal indústria, e resgatando a possibilidade de, através da crítica, termos na análise das formas culturais massificadas algo como um termômetro para checarmos a temperatura das condições subjetivas e objetivas da realidade social.

Episódio ‘Plaything’ da série Black Mirror. (Foto: Nick Wall / Netflix / Reprodução)
Um desses indícios, percebido por críticos desde a metade do século passado, é a mudança no estatuto das ficções científicas. Jacques Sadoul, em Histoire de la science-fiction moderne, observa como essa mutação – que podemos compreender como uma passagem da hegemonia utopista à distopia moderna – ocorre após 1945: precisamente, no fim da Segunda Guerra, com a catástrofe atômica planejada cientificamente nos céus de Hiroshima. Após a Bomba, toda a crença na ciência como ferramenta e caminho da emancipação humana desaba. A ficção científica expressa esse marco de modo central: narrativas pós apocalípticas em meio à Guerra Fria, como A Última Praia, de Nevil Shute, ou Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr., passam a ficcionalizar a possibilidade de uma realidade onde, após um holocausto nuclear dizimar o planeta, a humanidade se encontraria fadada ao confronto com o desastre produzido pelo progresso tecnológico/científico.
Desde então, a narrativa distópica tornou-se um modo de ficção cada vez mais característico na cultura pop, produzindo clássicos notórios em distintas mídias, desde livros, filmes, séries, até videogames. Todavia, é seu potencial crítico que passa a ser destilado não só na medida em que ganha uma aderência pasteurizada, mas justamente porque passa a reproduzir tendências negativas da realidade de modo, no limite, condescendente. Se antes as distopias alertavam para perigos do presente, extrapolando seus traços no futuro, hoje cada vez mais encontramos uma aproximação entre futuro e presente – no limite, uma justaposição entre ambos – no qual a distopia acaba por normalizar tais tendências, produzindo uma estetização do que aparece como inevitável.
Esse não é um risco exatamente novo, mas as tendências contemporâneas apontam para uma nova qualidade das narrativas distópicas. Cada vez mais, é a conformidade com as tendências negativas do presente que se destaca como seu efeito principal destas obras de ficção, e a hiper-identificação com a realidade ganha mais notoriedade do que as desessencialização dessas tendências ou qualquer sentimento de revolta, ruptura ou insurgência. Mesmo filmes como Elysium, que produzem uma espécie de alegoria da luta de classes, acabam produzindo uma pseudo-crítica pastiche que, em última análise, sai pela culatra – isso se a intenção era de fato crítica, para começo de conversa.
O caso mais emblemático dos últimos anos foi a série Black Mirror, que teve o primeiro episódio lançado há 15 anos. Com episódios que giram em torno da ficção especulativa distópica, a série teve tanta aderência que tornou-se até mesmo expressão para descrever eventos da nossa própria realidade – a já clássica expressão “isso é muito Black Mirror” acompanha os desdobramentos de eventos reais por mais de uma década. De fato, a ficção especulativa da série antecipou tendências de forma assombrosa, tematizando questões que vão desde os griefbots, passando pela plataformização da política e pela organização digital da vida social, até mesmo à violência mediada por telas. Apesar do fenômeno global da série e seu notório faro para tematizar temas contemporâneos relevantes, ela parece indicar não exatamente uma aproximação da distopia em direção à realidade, porém o contrário: é a nossa própria realidade que se torna cada vez mais distópica, poupando até certo trabalho dos próprios roteiristas.
Essa tematização, apesar de possuir tons críticos, todavia parece mais naturalizar essas as tendências que expõe. É notório também o tom melancólico dos episódios, com desfechos que tendem, via de regra, à destituição, degradação ou condenação dos personagens à tragédia de seus predicamentos – que também são os nossos. Não é tão comum episódios que tematizam insurgências ou ao menos demonstrem que as tendências negativas no nosso tempo não são exatamente necessárias, que as coisas não precisariam tomar o caminho que estão seguindo. Torna-se então cada vez mais importante observarmos a característica conformista de pseudo-críticas dos produtos culturais, na medida em que acabam neutralizando até mesmo nosso estranhamento com a realidade.
Mais recentemente, o filme de Bong Joon Ho, Mickey 17, pareceu caminhar para uma tematização distópica com um desfecho insurgente. O ensaio é legítimo, mas parece ainda ser uma tentativa, não completamente bem sucedida, de desamarrar as narrativas distópicas da ficção contemporânea dessa tendência de alegoria “crítica” enlatada para algo que seja potencialmente mobilizador, e que não recaia em uma pseudo-sensibilização do espectador. Resta saber se teremos outras tentativas nesse sentido, mas devemos lembrar que isso esbarra em um problema antigo da ficção distópica: a mobilização da questão de classe que acaba por destituir de agência esse próprio sujeito. Observar as distopias ficcionais nesse sentido pode nos auxiliar a saber não apenas “que horas são” no presente, mas também o que genericamente se espera – ou parece ser esperado – do futuro.























