Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
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Imagine um mundo onde a alta cúpula que detém o controle dos poderes tecnológicos pretende fundar seus próprios países para reger, em uma redefinição plenamente privatizada do Estado, suas próprias leis, levando adiante os mais profundos sonhos distópicos de experiências sociais controladas. Parece um roteiro promissor de ficção científica hollywoodiana, certo? 

Todavia, esse é o projeto de governança corporativa encampado na ilha de Roatán, em Honduras, denominado Próspera: uma “cidade experimental” fundada em 2017, que atua com base em um quadro jurídico singular denominado ZEDE (Zona de Emprego e Desenvolvimento Econômico), conferindo um alto grau de autonomia frente ao governo hondurenho. Esse arcabouço possibilita que a “cidade-startup” estabeleça suas próprias normas, regulamentos e políticas fiscais, caracterizando-a como uma espécie de “cidade startup” projetada para atrair investimentos estrangeiros por meio da oferta de impostos reduzidos e de uma supervisão regulatória mínima – como proposto pelo seu próprio fundador, Erick Brimen.

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“Próspera” passa a representar um novo estágio nos modos de exploração e dominação, onde todo aparato dos oligopólios digitais – que já se provaram efetivos para burlar regulamentações locais/nacionais, incentivando e impulsionando uma nova dinâmica de “capitalismo de rapina”, reduzindo o horizonte do trabalho a economias de serviço, apostas, auto-exploração de si e espetacularização da vida privada – se convertem em um projeto de governança total, substituindo o aparato estatal em uma mistura de tecnosolucionismo distópico e neocolonialismo corporativista. <br> (Foto: Prospera.co / Reprodução)

“Próspera” passa a representar um novo estágio nos modos de exploração e dominação, onde todo aparato dos oligopólios digitais – que já se provaram efetivos para burlar regulamentações locais/nacionais, incentivando e impulsionando uma nova dinâmica de “capitalismo de rapina”, reduzindo o horizonte do trabalho a economias de serviço, apostas, auto-exploração de si e espetacularização da vida privada – se convertem em um projeto de governança total, substituindo o aparato estatal em uma mistura de tecnosolucionismo distópico e neocolonialismo corporativista. 
(Foto: Prospera.co / Reprodução)

Esse projeto não é meramente um efeito lógico dos pressupostos internos ao neoliberalismo, mas está atrelado a um projeto radical de superação total das “amarras” do Estado à “inovação” dos representantes do mercado, que pretendem se lançar à condição de tecno-monarcas da atualidade. Isso fica evidente ao analisarmos quem são os principais investidores da Próspera: Peter Thiel (PayPal e Palantir) e Marc Andreessen (Mosaic e Netscape), por exemplo, são aliados políticos e teóricos de Nick Land e Curtis Yarvin, dois ideólogos do Dark Enlightenment, defensores do aceleracionismo e da tecno-governança neofeudal que se tornou uma espécie de horizonte filosófico no Vale do Silício – além de abertamente influenciados pelo pensamento (ou por uma “leitura distorcida”) de Albert Hirschman. 

Para compreendermos as implicações políticas desse projeto, é fundamental ter em conta a relação cada vez mais simbiótica entre o governo norte-americano, seu complexo industrial-militar e o projeto quase teológico que emerge do Vale do Silício em um momento histórico onde a hegemonia estadunidense encontra-se ameaçada por novos arranjos mundiais que apontam para uma reconfiguração da arquitetura financeira global, onde agentes como Rússia e principalmente China despontam como concorrentes na disputa econômica e tecnológica que, cada vez mais, passa a definir os caminhos geopolíticos do futuro. 

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“Próspera” passa a representar um novo estágio nos modos de exploração e dominação, onde todo aparato dos oligopólios digitais – que já se provaram efetivos para burlar regulamentações locais/nacionais, incentivando e impulsionando uma nova dinâmica de “capitalismo de rapina”, reduzindo o horizonte do trabalho a economias de serviço, apostas, auto-exploração de si e espetacularização da vida privada – se convertem em um projeto de governança total, substituindo o aparato estatal em uma mistura de tecnosolucionismo distópico e neocolonialismo corporativista. 

É importante, entretanto, ressaltar que a retórica anti-estatal dos apologistas de tais projetos se reduz somente à dimensão regulatória que visa frear minimamente os impactos e voracidades exploratórias de seus empreendimentos. O que está em jogo na verdade não é a superação do Estado, mas sua privatização e apropriação completa, onde uma autofagia corporativa aparece como resposta necessária aos impasses impostos pelo processo de acumulação no século XXI. 

Esses impasses não são menos centrais, e revelam-se cada vez mais presentes na medida em que os “bilionários tech” passam a se preocupar com a formação ideológica – ou mesmo teológica – para a realização de seus projetos. Andreessen e Theil são exemplos suficientes para ilustrar como o horizonte sem futuro que nos fixa no presente retroalimenta uma espécie de tecno-escatologia. Com as mudanças climáticas em curso e uma crescente presença do espectro do fim, noções apocalípticas passam a organizar os projetos políticos dos de cima, e empreendimentos como “cidades bunker” e “ilhas de emergência” já são tiradas do papel, fazendo parte dos planos A e B para as elites paranoicas com as possíveis consequências de um cataclisma global. 

Se noções de sobrevivencialismo sempre estiveram presentes na modernidade, especialmente alimentadas por um supremacismo fascista, atualmente a grande diferença se encontra na ausência de um horizonte futuro redentor que se seguiria após um verdadeiro banho de sangue. Hoje, entretanto, as expectativas centram-se mais no dia do julgamento do que na própria transcendência, na medida em que a possibilidade de uma terra emancipada é substituída pela aceitação de uma terra arrasada que poderia ser redimida por um tecno-solucionismo “dark”.

Com tais projetos e preocupações em mente, os avanços de Trump sobre a Groenlândia fazem crescer os olhos de bilionários do tecno-apocalipse. Obviamente, os interesses de Trump não são recentes nos EUA – as disputas e interesses pela Groenlândia fazem parte de ambições históricas estadunidenses por mais cem anos —, e fazem parte do “plano de emergência” do que convencionou-se chamar de nova “doutrina donroe”. Com o declínio em curso da hegemonia financeira e tecnológica americana, resta tentar reverter tal processo com o que ainda sobrou de hegemonia militar e imposição econômica a diversos países – e o interesse pela Groenlândia passa tanto pelo controle de rotas marítimas, pela dispersão militar através do globo e também pela corrida tecnológica por metais de terras raras.

Com as políticas 2.0 de Trump tomando forma, o cofundador da Praxis — empresa responsável pela Próspera e matriz idealizadora desse modelo de “cidade startup”, vale ressaltar, financiada em grande parte por Peter Thiel –, Dryden Brown, já demonstrou, desde o ano passado, um interesse em reproduzir o experimento da Próspera na ilha inuit, com sua primeira tentativa de comprá-la. A ironia do nome dispensa comentários… 

É importante termos em mente que os fundadores da Praxis a definem como uma empresa que é também um Estado-nação teórico, onde teríamos a primeira “nação digital” – voltada especificamente para a reunião e reconstrução dos valores ocidentais. Em seu primeiro congresso anual, Brown expôs algumas de suas visões básicas que norteiam sua pseudo-antropologia supremacista: primeiro, para ele nós humanos somos instintivamente tribais, e a própria internet demonstrou isso com a emergência de tribos online organizadas por afinidades eletivas de valores. Misturando essencialismo e determinismo culturalista com uma ode às transformações tecnológicas que, paradoxalmente, revelam características supostamente inatas à categoria humana, Brown prega que após a fase tribalista da internet, iremos em direção aos Impérios de Rede – vale ressaltar, império é uma das palavras que mais aparece em seu discurso. Para ele, tal império será a Roma da era digital, “com a benção de Deus”. 

Curiosamente, apesar de encontrarmos possíveis oposições a tais projetos na esquerda, com um exame um pouco mais atento vemos que boa parte dos progressismos liberais acabam por manter intactos os pressupostos subjacentes à ideologia tecno-imperial de Brown, mudando apenas seus conteúdos com propostas bem intencionadas e diametralmente “opostas” na superfície – um retorno mítico a uma natureza idílica, idealizando uma espécie de harmonia pré-moderna que nunca existiu senão apenas como fantasia e sintoma interno à própria modernidade, negando de forma indeterminada tanto sua emergência quanto os impasses políticos que surgiram dela e que só poderão ser superados atravessando suas próprias contradições, não negando-as cinicamente. 

Infelizmente, o que parece estar no horizonte é de fato uma espécie de “neo-tribalismo” atualizado pelos impasses do mundo e pela denegação de tais impasses. Nossa inépcia em reconhecer os limites e pressupostos que, infelizmente, ainda dividimos com nossos inimigos, segue sendo não a maior arma deles, mas talvez nossa pior fraqueza dentre aquelas que poderíamos, nós mesmos, combater. 

(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação.