Quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
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Poucos dias após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores por forças a serviço do imperialismo estadunidense, Donald Trump anunciou a primeira venda de barris de petróleo do povo venezuelano, no valor de 500 milhões de dólares. Ao mesmo tempo, os telejornais exibiam em destaque a chamada “crise no Irã”, a instabilidade do governo e a suposta necessidade dos Estados Unidos “apaziguarem” a situação. São duas das maiores reservas de petróleo do mundo colocadas sob ofensiva direta do imperialismo norte-americano.

Nesse cenário, a mídia burguesa dedica o horário nobre a construir no imaginário popular uma verdade conveniente: diante da ameaça de regimes autoritários, instabilidades e incertezas, seria necessário que o império entrasse em cena para “arrumar a casa”. Pode haver excessos, admitem, mas nesses casos os fins justificariam os meios. Durante anos, tentou-se justificar essas agressões com o discurso do combate ao narcotráfico, ao terrorismo ou da defesa da democracia. Agora, a farsa já não se sustenta: está escancarado que se trata de interesses econômicos diretos e da preparação aberta para a guerra.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

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Olga Benário, histórica militante comunista alemã. <br> (Foto: Reprodução)

Olga Benário, histórica militante comunista alemã.
(Foto: Reprodução)

E assim, nos pontos de ônibus, nas conversas distraídas da fila da lotérica, as pessoas começam a opinar: “Realmente, entrar no país, sequestrar o presidente e sair vendendo o petróleo de lá é complicado… mas também, o cara era um ditador, né? As pessoas não têm emprego nem comida, a coisa estava muito feia…”.

É claro que não se comete uma monstruosidade do tamanho de uma guerra sem uma ampla campanha ideológica que a justifique. Tem sido assim com a propaganda sionista, que tenta amenizar o horror do holocausto palestino; foi assim também quando se buscou normalizar os 130 corpos do massacre da Penha. O controle ideológico não é um acessório, mas parte constitutiva e necessária da dominação de classe.

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De fato, além da força econômica e militar, o aparato ideológico sob controle dos grandes monopólios capitalistas e de seus governos é imenso. Diante de um cenário em que uma nova guerra mundial se anuncia, o fascismo avança e a luta se torna mais dura, muitos olham para essa fotografia e se desesperam: “o imperialismo é invencível, o que podemos fazer diante de tanto poder?”. Alguns chegam a jogar a toalha, escolhem cuidar apenas da própria vidinha no tempo que resta. Outros, lamentavelmente, cumprem o papel de disseminar confusão e desesperança.

Mas é preciso lembrar que a história é feita pelas mãos dos despossuídos, que as massas são o verdadeiro sujeito da transformação social. E, diante disso, qual é o nosso papel?

Em 1929, Olga Benário escreve a Moscou um informe sobre a organização da juventude comunista em Berlim, com o objetivo de relatar suas principais debilidades e compartilhar experiências com o Komsomol, a Juventude do Partido Comunista da União Soviética. O documento, publicado recentemente no Brasil pela editora À Margem no livro Os trabalhos e os dias do KIM[1], dedica grande espaço à descrição do trabalho de agitação e propaganda nos bairros proletários: de casa em casa, nas portas das fábricas, nos círculos esportivos e culturais, sempre com panfletos, jornais e livros.

“Estamos correndo pelos apartamentos, tentando divulgar os materiais. É muito interessante andar e bater às portas. […] Frequentemente, ao tocar da campainha vem a dona de casa: ‘Comunistas? Não queremos ter nada em comum com vocês’. Já estamos prontos para partir. Porém, de súbito, a porta se abre novamente. Desta vez, sai o marido dela. E ele sussurra para nós: ‘Olhem, a minha mulher tem medo que eu possa perder meu trabalho por causa de qualquer relação com os comunistas, mas vou colocar algumas coisas na sua caneca’” — moedas para financiar o trabalho do Partido. Mais adiante, Olga encerra o relato de um domingo de trabalho entre os trabalhadores berlinenses com satisfação: “Cansados e com fome, voltamos para casa. Bom trabalho para hoje!”.

Olga Benário entrou para a história da humanidade como exemplo de força e determinação, uma mulher com profunda confiança na luta da classe trabalhadora. Ainda que não tenha testemunhado a vitória final, cada dia de sua vida dedicado ao trabalho revolucionário foi fundamental para o desfecho da guerra e a derrota do nazismo.

Naquele período, às vésperas da grande guerra e durante a ascensão do nazifascismo, também houve quem olhasse para a realidade e se desesperasse, quem optasse por cuidar apenas do que restava de seus dias e quem espalhasse confusão. Mas ainda bem que Olga, os jovens do Komsomol e tantos outros revolucionários ao redor do mundo escolheram dedicar seus domingos ao trabalho paciente junto ao povo.

A questão fundamental é a necessidade de nos conectarmos verdadeiramente com as pessoas.

Sob esse ponto de vista, não faltam razões para afirmar que é urgente estarmos nas ruas, dialogar com as pessoas e combater, com todas as nossas forças, as mentiras difundidas pelo imperialismo estadunidense sobre a Venezuela. É preciso disputar a consciência popular, explicar pacientemente que não há “missão humanitária”, “defesa da democracia” ou “combate ao autoritarismo” quando se sequestra um presidente, se impõem bloqueios criminosos e se rouba o petróleo que pertence a um povo inteiro. É necessário ajudar a formar, no senso comum, a condenação clara de que os EUA não tem o direito de saquear as riquezas do povo latino-americano, historicamente explorado pelos imperialistas; combater energicamente a ideia de que a guerra é justificável, mostrar que quem morre são os trabalhadores, que não temos interesse nenhum nessa guerra, ao contrário, são as grandes fabricantes de armas que estão sedentas por sangue.

Tudo isso com paciência, dedicação, muito trabalho coletivo e organização; esse é o nosso caminho. 

Não podemos nos enganar: é insuficiente contentar-se com o alcance limitado das redes digitais e das bolhas. Se trata de uma grande ilusão, que também deprime e desilude. É desse trabalho concreto, enraizado na realidade e no diálogo com o povo, que nasce a possibilidade real de enfrentar o derrotismo e transformar a indignação difusa em consciência e organização.

É como diz o ditado: não tá morto quem peleia. Arregaçar as mangas, ao trabalho!

(*) Isis Mustafa é dirigente do partido Unidade Popular pelo Socialismo.
Notas:
[1] – KIM é abreviação alemã de Kommunistische Jugendinternationale, a Internacional Comunista de Juventude