Sexta-feira, 9 de outubro de 2026
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Durante este mês de setembro, a Casa Branca dedicou mais atenção à organização de uma nova reunião do Escudo das Américas do que à Assembleia Geral da ONU em si. Considerada por Trump como a “maior aliança de segurança econômica e nacional” já reunida no Hemisfério Ocidental, a coalizão se reuniu no dia 22 de setembro com mais países integrantes se comparada à reunião de março no Clube de Golfe de Doral, na Flórida.

Os governos da Colômbia e Peru estrearam no clube. A declaração final foi assinada por Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, o que confirma a ampliação da iniciativa. O documento estabelece três pilares: economia, segurança e coordenação multilateral. Muito além do que faria uma coalizão anti-narcotráfico, como foi anunciado inicialmente.

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Diante dos integrantes do Escudo, Trump afirmou que a riqueza natural das Américas não poderia ser controlada por “potências externas hostis” e defendeu o controle hemisférico sobre oleodutos e gasodutos, terras raras e corredores do comércio agrícola. (Foto: Daniel Torok / White House)
Diante dos integrantes do Escudo, Trump afirmou que a riqueza natural das Américas não poderia ser controlada por “potências externas hostis” e defendeu o controle hemisférico sobre oleodutos e gasodutos, terras raras e corredores do comércio agrícola.
(Foto: Daniel Torok / White House)

No campo econômico, os signatários se comprometeram a discutir mecanismos de controle de investimentos, proteger cadeias de suprimento de minerais críticos e estabelecer regras para “fornecedores confiáveis” de infraestrutura digital. Leia-se: vamos cuidar de manter a China distante. Não é muito difícil identificar o alvo dessa linguagem. A América Latina tornou-se um dos grandes espaços de exclusivismo dos Estados Unidos em termos de tecnologia, energia e recursos naturais frente ao avanço da China e do mundo asiático. Embora somente a China tenha amplos acordos em projetos de infraestrutura para a região, em uma dimensão que os EUA não alcançam hoje. Diante dos integrantes do Escudo, Trump afirmou que a riqueza natural das Américas não poderia ser controlada por “potências externas hostis” e defendeu o controle hemisférico sobre oleodutos e gasodutos, terras raras e corredores do comércio agrícola.

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A abordagem sobre segurança hemisférica e nacional tem funcionado como o atrativo para a porta de entrada dessa nova arquitetura. Migração, narcotráfico e crime organizado são progressivamente enquadrados como ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. E é vendida uma ideia de que a coalizão vai proteger também as fronteiras nacionais dos países associados. Cartéis passam a ser classificados como organizações terroristas e o conceito de “narcoterrorismo” cria um guarda-chuva para justificativas políticas e jurídicas que endossem e legitimem ações extraterritoriais por parte dos EUA. Na reunião de Nova York, Trump chegou a dizer aos demais governos que, se não fossem capazes de enfrentar essas organizações, os Estados Unidos poderiam fazê-lo por eles. É uma formulação particularmente reveladora sobre como a concepção de soberania é absolutamente vilipendiada pelo projeto.

Há ainda um terceiro componente, para além da economia e da segurança. Trata-se da tentativa de transformar esse alinhamento em coordenação política regional. O Escudo pretende articular seus membros também nos organismos multilaterais, criando um bloco capaz de atuar conjuntamente nas instituições hemisféricas.

Não por acaso, Brasil e México se recusaram a fazer parte da iniciativa. São justamente as duas maiores economias latino-americanas e países que mantêm relações estratégicas próprias com a China e participam de espaços de articulação do Sul Global, como os BRICS. Algo que pode mudar caso o Brasil eleja o trumpista filho de Bolsonaro nas eleições de outubro de 2026. Mais de duzentos anos depois da formulação da Doutrina Monroe, Washington volta a falar em proteger o hemisfério de influências externas. Mas a pergunta continua sendo a mesma: proteger as Américas de quem – e para quem?

(*) Ana Prestes é Cientista Política e Historiadora. Escritora. Analista Internacional. Participa do programa RodaMundo do Opera Mundi no YouTube.

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