Domingo, 20 de abril de 2025
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Um jovem de 22 anos foi morto com um tiro na cabeça ao defender sua namorada grávida de uma abordagem da Polícia Militar, na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. O boletim de ocorrência alega que os dois, Gabriel e Rebeca, se “insurgiram” contra os policiais. A tragédia foi filmada e mostra um policial agredindo a menina grávida, arrastando-a pela rua, e a reação desesperada do jovem ao pegar uma pedra para tentar salvá-la. Depois, o disparo e gritos: “matou! matou o menino!”. Aconteceu na madrugada de 1º de abril, data que marca os 61 anos do golpe e início da ditadura militar no Brasil. 

Os abusos, violência e execuções sumárias realizadas pela Polícia Militar não são exceções, são a regra, o modus operandi de uma instituição que tem a certeza da impunidade. O covarde que mata uma mulher grávida, que sente tranquilidade ao cobrir a câmera do uniforme e apertar o gatilho, sabe que não vai sofrer as consequências de seus atos. Isso porque, por um lado, a máquina ideológica da extrema-direita trabalha firmemente para disseminar na sociedade a ideia de que existe um inimigo interno, responsável pela violência nas grandes cidades, que precisa ser combatido a todo custo. Portanto, tudo está justificado. Mas o outro elemento fundamental encontra-se no fato de que é uma tradição dos militares estarem acima da Justiça, utilizando todas as ferramentas e meios legais, mas principalmente os ilegais, para se safar: forjando um flagrante, apelando para o argumento da legítima defesa, manipulando provas e as cenas do crime, etc. 

Essa semana, através da denúncia no portal Metrópoles com dados de relatório conjunto do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), soubemos que a Polícia Militar de São Paulo é responsável por uma em cada três mortes de crianças e jovens no Estado. (Foto: Governo do Estado de São Paulo)
Essa semana, através da denúncia no portal Metrópoles com dados de relatório conjunto do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), soubemos que a Polícia Militar de São Paulo é responsável por uma em cada três mortes de crianças e jovens no Estado. (Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Durante os 21 anos de ditadura, o Estado foi responsável pela morte de aproximadamente 10 mil pessoas, entre militantes comunistas, ativistas sociais, jornalistas, camponeses, indígenas, vítimas dos esquadrões da morte e até mesmo do surto de meningite que foi ocultado pelos militares na época. Como nenhum governo desde a redemocratização se comprometeu com a reparação aos familiares que seguem em luta por justiça, não há uma política e nem investimento sério para encontrar os corpos de 208 pessoas que ainda estão desaparecidos. O que é mais revoltante: as 29 recomendações finais da Comissão Nacional da Verdade tornaram-se letra morta no papel e, onze anos depois, nenhum militar, torturador ou assassino foi punido; pelo contrário, são homenageados em nomes de praças e ruas. 

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Por tudo isso, qualquer semelhança entre os esquadrões da morte de ontem e os destacamentos especiais da Polícia Militar de hoje não é mera coincidência. A ROTA em SP e o BOPE no RJ, por exemplo, são os esquadrões da morte da democracia, agem até mesmo sob a luz do dia, pois na medida em que avançam a militarização e o domínio do fascismo sobre a nossa sociedade, esses assassinos certamente receberão uma condecoração do Secretário de Segurança Pública e do Governador do Estado no fim do dia. 

Essa semana, através da denúncia no portal Metrópoles com dados de relatório conjunto do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), soubemos que a Polícia Militar de São Paulo é responsável por uma em cada três mortes de crianças e jovens no Estado. É um grande escândalo, são as nossas crianças! E apesar disso, a notícia passou superficialmente pela grande mídia. 

De fato, a luta por justiça deve continuar. Na última quinta-feira (3), ocorreu um ato em solidariedade às vítimas da violência da polícia contra a manifestação dos familiares de ferroviários que lutavam pelo fim das privatizações. Nessa ocasião, tive a oportunidade de ouvir a fala da mãe do Marco Aurélio (estudante de medicina que foi assassinado pela polícia em São Paulo), denunciando não ter recebido sequer um pedido de desculpas do governo de Tarcísio de Freitas pela morte do seu filho. Sílvia é médica também, trabalha em hospital público no extremo leste da cidade, e decidiu não se abater com a perda do filho; vai lutar pela exoneração do secretário Guilherme Derrite e punição dos policiais que apertaram o gatilho: “eu não esqueço, eu não perdoo”, sentenciou em meio às lágrimas. 

Mesmo em nosso meio há quem diga que é preciso virar a página, surpresos com o fato de que “ainda estamos falando disso”. Essa política do esquecimento tem consequências que ceifam vidas como a de Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva, 22 anos; Cláudia Silva Ferreira, 38 anos; Guilherme Silva Guedes, 15 anos; Vinícius Fidelis Santos de Brito, 24 anos. E tantos outros. 

Neste mês de abril, estamos ao lado da Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos e de tantas outras organizações sociais que, apesar dos obstáculos, lutam pelas bandeiras da Memória, Verdade, Justiça e Reparação, repetindo as palavras daquela mãe: eu não esqueço, eu não perdoo. Ditadura Nunca Mais!

(*) Isis Mustafa é dirigente do partido Unidade Popular pelo Socialismo e 1ª vice-presidente da UNE.