Quarta-feira, 20 de maio de 2026
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O escárnio colonial é atemporal e completamente alheio a qualquer forma de reparação contra os crimes cometidos ao longo da história. Milhões de pessoas sequestradas, transportadas e tornadas objeto para o lucro do princípio de um sistema econômico que segue gestando aberrações como a recente frase de Emmanuel Macron, presidente francês, na ocasião da recente Africa Forward Summit, um encontro internacional focado em parcerias econômicas, inovação e desenvolvimento entre países africanos e a França. Com a edição de 2026 ocorrendo em Nairóbi, Quênia, nos dias 11 e 12 de maio, o evento na verdade representa o constante esforço da antiga potência de reafirmar a dependência econômica de suas antigas colônias e garantir a permanência da influência do projeto Françafrique.

Demonstrando um comportamento no mínimo autoritário, Macron repreendeu os membros da plateia acusando-os de “total falta de respeito”, por conversarem durante a fala dos palestrantes, artistas e jovens empreendedores. Frustrado com o barulho da sala, Macron subiu de maneira abrupta no palco, tomando o microfone do mestre de cerimônias, dizendo que iria “reestabelecer a ordem”. 

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 presidente da França, Emmanuel Macron, durante encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump. <br> (Foto: Daniel Torok / White House)

presidente da França, Emmanuel Macron, durante encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump.
(Foto: Daniel Torok / White House)

A atitude de Macron espelha a postura da política externa própria França no que diz respeito aos países da faixa do Sahel, especialmente o Mali, que recentemente viu um ataque em escala inédita de grupos fundamentalistas islâmicos, armados (bem como financiados pela França) e organizados num ataque tão potente que chegou a tomar partes da capital, Bamako, causando dezenas de mortes e obrigando o recuo da temida Afrika Corps, soldados russos que assumiram a guarda da cidade e de outras regiões estratégicas após o golpe que levou o presidente Assimi Goita ao poder, em 2020. 

Em entrevista, pouco antes do painel da Summit, Macron se afirmou um “verdadeiro pan-africanista”. Sabemos muito bem quais são seus interesses “pan-africanistas” com o Françafrique: a exploração imperialista, a manutenção de uma elite política que vê seus investimentos multiplicarem de valor mediante as taxas abusivas da impressão de papel moeda e juros de empréstimos de bancos franceses, o ouro exportado de África e refinado na França para ser vendido a preços exorbitantes para sheiks árabes, etc.

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Fico com Cesáire, quando diz que: 

Entre colonizador e colonizado, só há lugar para o trabalho forçado, a intimidação, a pressão, a polícia, o imposto, o roubo, a violação, as culturas obrigatórias, o desprezo, a desconfiança, a arrogância, a suficiência, a grosseria, as elites descerebradas, as massas aviltadas.

Nenhum contato humano, mas relações de dominação e de submissão que transformam o homem colonizador em criado, ajudante, comitre, chicote e o homem indígena em instrumento de produção.

É a minha vez de enunciar uma equação: colonização = coisificação.(1978, p. 25)

Sobre o Mali, cabe dizer que a recente investida terrorista foi freada pelo exército malinês e pelos soldados russos reagrupados, fortalecendo o governo de Assimi Goita e unindo o povo em torno da própria bandeira: representando a resistência e a autodeterminação dos países do Sahel. Quanto à França, resta acompanhar, do auge de sua decadência, o povo africano cada vez mais consciente das palavras de Aime Cesáire.

(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.