Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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No dia 26 de novembro, um levante secundarista organizado incendiou a rede federal de ensino no Brasil. Mais de 40 escolas aderiram à Greve Nacional pelo Bandejão, articulada pelos grêmios dos Institutos Federais e pela Federação Nacional de Estudantes em Ensino Técnico (FENET). Com a força de cerca de 20 mil estudantes parados, no dia seguinte o governo anunciou o compromisso de entregar 270 bandejões, sendo 220 até março de 2026.

A iniciativa cumpriu seu papel. Escancarou para o governo o problema da fome nas escolas, revelou aos próprios estudantes a dimensão de sua força coletiva e rompeu com a lógica paralisante que há anos vem contaminando o movimento estudantil nacional.

Greve nacional por bandejão paralisou atividades dos estudantes nesta quarta no IF Brasília. (Foto: @nathalia_ruhana)

Greve nacional por bandejão paralisou atividades dos estudantes nesta quarta no IF Brasília.
(Foto: @nathalia_ruhana)

Inclusão e desafios para a permanência

A rede de Institutos Federais foi criada pelo governo Lula em 2008 com o objetivo de ampliar o acesso da juventude ao ensino técnico, sobretudo para os filhos da classe trabalhadora. Hoje são 682 unidades espalhadas pelo país, interiorizadas e presentes em regiões periféricas. Há ainda a promessa de expansão com mais 100 campi, assumida pelo governo após a última greve dos trabalhadores técnico-administrativos.

Mas, ao mesmo tempo em que a rede ampliou o acesso, novos problemas se acumularam. A falta de orçamento e de estrutura expõe a realidade da fome nas salas de aula, agravada pela ausência de restaurantes universitários e de merenda escolar nos IFs. Considerando que mais de 60% dos estudantes dos Institutos Federais têm renda familiar inferior a 1,5 salário mínimo (CONIF), uma política de alimentação é condição básica para garantir permanência e segurança alimentar.

“Aqui a gente se acostumou a almoçar um salgado, quando temos dinheiro. Se não, a gente fica com fome mesmo. É o preço que se paga para estudar aqui”, relata Ray Silva, da Coordenação Geral da FENET e estudante do Instituto Federal de Brasília. Em Recife, além da falta de alimentação, os estudantes do IFPE também não têm direito ao passe estudantil, o que aprofunda a evasão.

O passo a passo da greve

Diante desse cenário, a greve começou a ser gestada em setembro, quando os delegados estudantis no Congresso Nacional de Estudantes do Ensino Técnico da FENET se reuniram em Salvador para debater a situação da rede, formular pautas e definir os rumos da luta. Na ocasião, os grêmios aprovaram a convocação da greve e elaboraram um calendário nacional de mobilizações, com plenárias, assembleias locais, uma cartilha explicando como organizar a paralisação, panfletos e reuniões do comando nacional de greve.

Ray resume o espírito do processo: “Só foi possível realizar a greve porque nos planejamos e agimos como um só, com ações unificadas e, principalmente, com a participação de todos os estudantes.”

Após dois meses de preparação, entre passagens de sala, reuniões animadas e muito trabalho de base, chegou o grande dia. Na manhã do dia 26, depois dos cafés coletivos, os estudantes em greve pressionaram as direções a enviar uma carta unificada de reivindicações ao Ministério da Educação. Do Rio Grande do Sul a Rondônia, dezenas de unidades do IF viveram um dia de ocupação estudantil vibrante, com jogos escolares, saraus, aulões de preparação para as provas finais, lanches coletivos, debates políticos e uma infinidade de outras atividades.

Quem luta, conquista

No dia seguinte à greve, os estudantes do ensino técnico conquistaram uma vitória contundente. Em reunião com grêmios do IFB e a FENET, o Ministério da Educação e a Secretaria de Tecnologia se comprometeram a abrir os bandejões e adquirir equipamentos via Fundo Social a partir dos restaurantes que já tiverem 70% das obras concluídas. O governo também apresentou uma lista com todos os restaurantes que serão inaugurados no próximo ano. Para Ray, não há dúvida de que esses compromissos são fruto direto da pressão da greve, já que a entidade solicitava há três anos uma reunião para tratar da situação da rede federal e nunca havia sido recebida.

Aprendizados

A luta de agora acontece no marco dos dez anos da Primavera Secundarista, como ficou conhecida a onda de ocupações contra o fechamento das escolas públicas de São Paulo. Naquele momento, o então governador Geraldo Alckmin foi obrigado a responder aos secundaristas em rede nacional. A Primavera venceu e conquistou o recuo do plano de reorganização escolar e a demissão do secretário de Educação, depois de mais de 240 escolas ocupadas.

Sem dúvidas, a luta é a melhor escola. A geração de jovens que participou das ocupações de 2015, e aqui incluo a mim mesma, aprendeu a questionar as estruturas da sociedade, viveu no cotidiano a experiência da democracia popular e descobriu, na prática, um poder que até então não sabia possuir.

A última grande luta estudantil nacional havia sido o Tsunami da Educação, em 2019, quando Bolsonaro foi derrotado em seu projeto de cortes no orçamento das universidades. Mas de lá para cá, o cenário só se agravou. O Novo Ensino Médio vem destruindo a formação de gerações inteiras. Projetos de militarização e privatização avançam silenciosamente pelo país. E, diante disso tudo, uma apatia tomou conta de muitas entidades estudantis, que têm apostado na preservação do status quo para evitar desgastes com o governo federal.

Mas a questão é simples. Na disputa pelos rumos do país, vence quem tem mais força social acumulada. Se, de um lado, o empresariado e o capital financeiro internacional fazem lobby para que o governo encaminhe seus projetos neoliberais para a educação, do outro lado cabe a nós ampliar e muito a pressão popular.

A greve nacional do ensino técnico, portanto, forja uma experiência de luta nesta geração e sinaliza para todos os demais segmentos da educação que este é o único caminho possível para defender a escola pública brasileira. Escrevo esta reflexão com o coração cheio de esperança, ainda tomada pela energia que incendiou as quadras poliesportivas e corredores dos Institutos Federais na última quarta-feira, Brasil afora.

(*) Isis Mustafa é dirigente do partido Unidade Popular pelo Socialismo.