Segunda-feira, 20 de abril de 2026
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O momento histórico é de profunda transformação do sistema internacional, marcado pelo declínio da hiperpotência que praticamente monopolizava as relações de força internacionais e pela emergência de novas potências regionais que disputam o espaço político, estratégico, comercial, diplomático e tecnocientífico. 

A região do Oriente Médio, rica em energias não renováveis, é um ponto de enlace logístico, porta, ponte ou obstáculo entre Europa ocidental e a Eurásia. Berço das religiões monoteístas que sangram sociedades por excludentes futuros misticamente imaginados. Isso tudo coloca a região no ponto de inflexão estratégica entre o unilateralismo ancorado no império decadente e declinante e o multilateralismo suportado pelo mosaico de potências regionais emergentes que disputam o futuro desenho do sistema internacional.   

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Após estudar a maneira como EUA e Israel traíram o Irã durante as negociações que antecederam a Batalha dos Doze Dias, a concepção estratégica do país persa mudou, e consistiu em transferir toda a decisão na guerra do Líder Supremo para a GRI. <br> (Foto: M. Sadegh Nikgostar / FARS)

Após estudar a maneira como EUA e Israel traíram o Irã durante as negociações que antecederam a Batalha dos Doze Dias, a concepção estratégica do país persa mudou, e consistiu em transferir toda a decisão na guerra do Líder Supremo para a GRI.
(Foto: M. Sadegh Nikgostar / FARS)

Nesse momento histórico e nesse espaço historicamente estratégico desenvolve-se o drama sistêmico-existencial do nosso tempo. Alguns afirmam que a convergência de fatores críticos e polêmicos está definindo o Armagedon que colocaria o ponto final da história humana. Mas talvez seja mais plausível pensar que se trate da configuração do teatro de operações do confronto entre o velho, que ainda não morreu, e o novo que está por nascer, como diria Gramsci, nas trevas em que os monstros aparecem. 

Os líderes mundiais que neste momento decidem o destino das suas sociedades não são o melhor que se poderia esperar para um momento tão crucial para a história da humanidade. Por parte dos Estados Unidos, um presidente enigmático nas suas decisões contraditórias e suas narrativas fantásticas, em Israel um genocida penalizado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI); ambos enfrentando eleições parlamentares em 2026 com popularidade em declínio. Nessas condições e com a proximidade das eleições, tanto Trump quanto Netanyahu precisavam de um fato relevante que os permitisse almejar vitórias eleitorais. A operação exitosa do sequestro ilegal de Nicolás Maduro na Venezuela e a imaginada degradação da defesa iraniana pela Batalha dos Doze Dias pareciam abrir uma janela para uma vitória fácil no Irã. Para aumentar o grau dessa probabilidade, foram orquestradas operações da CIA, financiando, mobilizando e armando grupos iranianos para gerar uma revolta popular que aproveitasse o descontentamento de parte da população contra o regime teocrático dos aiatolás. 

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Entusiasmados pela econômica operação na Venezuela e o desgaste que a Batalha dos Doze Dias de junho de 2025 teria provocado na defesa iraniana, pensaram que a facilidade para tomar o Irã poderia satisfazer, por um lado, seus problemas políticos domésticos e, por outro, seus objetivos estratégicos máximos. Para Israel, desenvolver o projeto místico-político da Grande Israel e, para Trump, controlar esse importante centro de distribuição de boa parte da energia consumida pelo mundo e uma ponte de projeção de poder entre o ocidente e o oriente. Do ponto de vista estratégico, para ambos despontou a possibilidade de surpreender os iranianos com uma ofensiva encenada na traição, aproveitando um momento crucial da negociação de paz. Surpreender os iranianos (como na traição anterior que antecedeu a Batalha dos Doze Dias) permitiria, na especulação dos agressores, a possibilidade de uma ofensiva fulminante com decapitação e consequente demolição do regime, com o objetivo estratégico de alcançar uma rápida vitória na guerra. Para o Irã, numa posição defensiva contra aquela agressão ilegal e injustificada, o objetivo estratégico só poderia ser não perder, isto é, resistir.

Em 28 de fevereiro, poucos dias antes da assinatura da paz, ocorre a agressão criminosa de Israel e Estados Unidos contra o Irã, com o assassinato do Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, parte da sua família e a cabeça do comando militar central da Guarda Revolucionaria Iraniana. 

A estratégia dos agressores se fundamentava na crença de que a maioria da população estaria descontente com o regime ao ponto de pegar em armas contra ele, de que a decapitação do líder supremo desorganizaria a estrutura político-religiosa e que a forma da força da Guarda Revolucionária Iraniana (GTI) baseava-se numa estrutura de comando hierarquicamente vertical com concentração decisória no seu vértice. A aliança agressora anelou o inevitável desmonte da defesa iraniana e a perda de capacidade operacional das suas forças armadas. Assim, contavam que ao eliminar as cabeças politico-religiosas e militares do Irã, desarticulariam sua capacidade de resposta e obteriam uma fácil capitulação, isto é, a rendição incondicional do Irã. Todavia, a comemoração pelo aparente e rápido êxito da operação durou pouco. 

O bombardeio da aliança agressora foi das 09:00h até as 09:45, e 15 minutos mais tarde o inferno caiu sobre as bases militares que os americanos plantaram no Golfo Pérsico, transformando aquele imaginário de fácil vitória dos agressores num pesadelo pantanoso. Às 10:00h dessa mesma manhã, desde vários pontos do território iraniano, mísseis e drones de diferentes tipos reduziam a escombros as bases militares norte-americanas em vários países do Golfo, inutilizando importantíssimos recursos logísticos e de inteligência, como radares insubstituíveis e a joia da coroa: a base do Comando Central da Quinta Frota, sitiada no Bahrein. 

Após estudar a maneira como EUA e Israel traíram o Irã durante as negociações que antecederam a Batalha dos Doze Dias, a concepção estratégica do país persa mudou, e consistiu em transferir toda a decisão na guerra do Líder Supremo para a GRI. Por sua vez, o Irã modificou a estrutura da força do eixo vertical e piramidal para uma arquitetura de Comando e Controle (C2) em rede. Eles separaram o nível decisório estratégico operacional em 31 C2s operando no que eles chamaram Defesa em Mosaico Disperso. A cabeça que a aliança agressora cortou foi a de uma hidra e sua decapitação foi seguida pela imediata reação de 31 cabeças independentes que, sincronizadas por inteligência artificial (IA), guiaram suas cargas letais, também informadas e calibradas por IA, de forma certeira e fulminante, sobre as instalações militares norte-americanas.  

Passados 14 dias do ataque inicial, a aliança agressora não conseguiu a rápida vitória esperada e o Irã continua com uma cadência enlouquecedora de mísseis sobre Israel, que impede que notícias ou imagens saiam do seu território mostrando destruição e morte. Os Estados Unidos afastaram a sua frota das proximidades sob fogo cerrado iraniano, estendendo assim o teatro de operações desde o Chipre até o Mar Arábico. O Irã continua sendo castigado, mas resiste e nessa resiliência reside sua vitória. A Europa, estrategicamente desamparada, se apavora vendo que não pode confiar naquele que garantia sua segurança. Zelensky contempla que os sistemas defensivos dos quais precisa estão sendo retirados da Coreia do Sul, que fica desprotegida, e levados para a frente iraniana e, no seu desespero, pode acelerar a derrota final da Ucrânia. Trump mostrou sua eficiência em desorganizar o mundo e mostrar a outrora hiperpotência atolar na batalha, atordoada politicamente e o pavor se disseminando na população.

Muito se fala das novas tecnologias colocadas no campo de batalha; na comparação dos desenhos dos complexos industriais-militares isso pode ser um aprendizado para potências médias. Mas o aspecto mais importante a se destacar numa guerra, normalmente aparece ofuscado pelo falso brilho dos reluzentes aparelhos tecnológicos. Com efeito, o objetivo central na guerra é impor a própria gramática estratégica ao inimigo. Isso não é resultado apenas da qualidade do armamento, mas do gênio político-estratégico capaz de equacionar uma quantidade de variáveis que computador algum conseguiria. O Irã impôs sua estratégia nesta guerra. Atacou as bases militares estadunidenses e os centros de dados, substituiu o GPS pelo georreferenciamento chinês – muito mais preciso e menos vulnerável –, calculou milimetricamente a reação dos vizinhos e dos europeus, produto de meticuloso treinamento e de longa análise e minuciosa formulação estratégica, da ocultação de armamento e radares e da dispersão de iscas para atrair o caríssimo armamento hostil. Em suma, o Irã deliberou sobre os custos políticos e agiu sem titubeios. 

Como ficou provado em todas as guerras que a hiperpotência perdeu, a tecnologia, se não for acompanhada por sutileza política e sensibilidade estratégica, não ganha guerras. O cerne da questão é simples: para o Irã a guerra é existencial, para Trump apenas um argumento político-eleitoral que resultou fatal. Que os estadistas e militares aprendam a lição. 

(*) Héctor Luis Saint-Pierre é professor da Unesp, coordenador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e ex-diretor da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). É autor de “Max Weber: entre a paixão e a razão” (Editora Unicamp) e “A política armada: fundamentos da guerra revolucionária” (Editora Unesp).