Idiocracia digital e o totalitarismo do entretenimento
A indústria digital da imbecilização é não só efeito, mas o objetivo final do entretenimento totalitário
Dentre os muitos aspectos da digitalização contemporânea, um deles é tão presente quanto tácito. Com a plataformização generalizada, as mídias digitais passaram a organizar, a partir de redes proprietárias, a circulação da informação condicionada a formatos determinados e cada vez mais homogêneos. Umas das características desse processo é a submissão de toda diferença qualitativa das informações e conteúdos à forma das redes estruturadas a partir de princípios da propaganda e do condicionamento, de inspiração behaviorista na sua origem (levando ao que pode ser chamado de behaviorismo de dados hoje), além da parametrização algorítmica, voltada para a captura da atenção, que automatiza a distribuição dos conteúdos, sua circulação e alcance. Isso descamba no imperativo do engajamento, que acaba produzindo aberrações midiáticas decadentes, com consequências mais sérias do que pode parecer em uma análise menos atenta.
A demanda pelo engajamento e pela captura da atenção organiza, nas redes, a produção de ganchos, formatos, clichês e cacoetes que passam a compor a própria estética dos conteúdos midiáticos de redes como o Instagram e o Tik Tok, onde a “produção de conteúdos” turva a distância entre consumidor e produtor. Ao mesmo tempo, a necessidade de ampliar uma base cativa de “seguidores” – um termo revelador, que poderia ser levado mais a sério em suas implicações e polissemias – tende à adesão e reprodução acrítica de tendências que, por outro lado, parecem se tornar cada vez mais apelativas. O exagero, o absurdo, o ridículo e, por vezes, até mesmo o risco, tornam-se instrumentos da própria demanda por engajamento, revelando dimensões perversas desse imperativo.

Não foram necessários 500 anos, mas apenas duas décadas de aceleração do complexo digital global para nos encontrarmos às portas do reino da idiotia.
(Imagem: Estúdio Gauche, com base em imagem de Planet Volumes)
Assim, todo tipo de conteúdo, toda gama de gêneros, assuntos, temas, toda a variedade de questões possíveis; tudo é achatado sob a lógica da tela e do scroll infinito, onde receitas culinárias, músicas, piadas, cortes de filmes, entrevistas, escândalos políticos, manifestações culturais, polêmicas baratas, imagens de destruição e morticínio em guerras, dentre tantas outras coisas extremamente discrepantes em termos qualitativos, são dispostas lado à lado de acordo com a metrificação do usuário, orientada para mantê-lo engajado, aumentando seu “tempo de tela” – o tempo de tela médio dos brasileiros hoje, a propósito, excede 9 horas diárias, passando o tempo médio de sono e sendo um dos maiores registrados mundialmente.
Essa justaposição de conteúdos completamente díspares, que chega a ser um tanto quanto obscena, implica também em outra tendência: cada vez mais, todas as coisas são organizadas a partir da forma e pelo imperativo do entretenimento. De canais esportivos até debates políticos, passando por programas culturais e notícias econômicas, chegando enfim na divulgação científica e até mesmo na comunicação de políticas governamentais: tudo precisa tornar-se entretenimento. Assim, a esfera do entretenimento se expande e passa a formatar, em alguma medida, praticamente todas as outras. Não apenas formatar; os princípios do entretenimento passam a infiltrar diversos campos, inclusive aqueles onde a lógica própria é (ou deveria ser) radicalmente oposta a tais princípios.
A incompatibilidade entre o entretenimento enlatado e o debate sobre a vida política de um país ou o estatuto corrente de um genocídio são (ou deveriam ser) auto-evidentes, mas a pervasividade do entretenimento generalizado parece descambar para um cinismo geral de ordem “prática”, uma espécie de realismo midiático: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do midiatismo digital de plataformas. Absolutamente tudo deve ser submetido ao princípio do entretenimento porque essa é a regra imutável do jogo e, assim, produzindo conteúdos, produz-se também seus consumidores com uma promessa de “politização” pelo entretenimento “político”; com a promessa de criticidade pela espetacularização da “crítica”; tendo como justificativa de efetividade o argumento mais tecnocrático possível: números, alcances, estatísticas, dados, tabelas, gráficos. Somos impelidos a nos tornar empreendedores de nossas próprias audiências, sem sequer questionar isso.
Vemos isso hoje nos “debates” políticos em canais do Youtube, que são pensados, em primeiro lugar, para produzir cortes de vídeos curtos viralizáveis, fomentar engajamento e angariar seguidores para distintos membros. Não há política aí, ao menos não em qualquer sentido emancipatório. É assim desde a parceria entre “comunicadores”, que são fundamentalmente influenciadores, até os formatos “berlinda” onde, em uma espécie de gangbang ideológico, uma pessoa precisa “debater” com outras vinte que sustentam uma posição contrária. É curioso inclusive como o crescente moralismo das últimas gerações, com sua famosa retórica anti-pornografia, parece autorizar a dissipação de características reprimidas do excesso pornográfico a muitas outras formas de “conteúdo” – que são muitas vezes moralmente condenáveis, apesar de não serem sexualmente obscenos.
O assim chamado “debate público”, cada vez mais organizado por empresas e plataformas privadas que têm como princípio a parametrização voltada à lógica da mercadoria, passa à radicalização de tendências que já eram presentes no século passado, mas agora se agudizam, na medida em que não só os espaços para tratar de assuntos complexos passam a ser cada vez mais suprimidos, mas as próprias condições de possibilidade para lidar com a complexidade são minadas de saída, por dentro. A redução da atenção, a aceleração da produção e circulação de informação, a imediatez, o hiper-estímulo e a espetacularização somam-se ao totalitarismo do entretenimento: aquilo que não é moldado para entreter, não interessa, perde espaço, por vezes não é sequer produzido por não atender às demandas do consumo vazio. Assim, a própria esfera política é corroída pela lógica do entretenimento, que se torna o próprio meio estético de implosão do político. Um exemplo recente desse colapso de absurdos é o Ultimate Fighting Championship, o UFC, do trumpista Dana White, ter sido levado para dentro da própria Casa Branca: o espetáculo contemporâneo de gladiadores passa a ocorrer na sede da presidência estadunidense.
O exercício da reflexão e do pensamento crítico, basilares para qualquer formação de pensamento real e para todo processo de politização, dependem justamente de um espaço negativo, de lacunas e hiâncias que por vezes são angustiantes, de tempo e espaço que não sejam decompostos pela fragmentação oriunda do enxame de estímulos constantes. Ao mesmo tempo, uma característica central do entretenimento é a abordagem do espectador enquanto consumidor passivo, algo diametralmente oposto com o que seria necessário para lidar com assuntos complexos, sensíveis, com a formação política e o debate teórico, as disputas ideológicas e os temas centrais para o trato da chamada “coisa pública”. A digitalização, somada à infraestrutura digital da informação, que se reduz a um restrito monopólio de algumas poucas empresas, também é capaz de produzir pseudo-relevâncias – tanto de assuntos quanto de personalidades.
Esse é inclusive parte do mercado midiático das redes e de seu apelo: a “oportunidade” de todos disputarem uma posição de destaque no horizonte da influência de pequenas, médias ou grandes massas, desde que se dobrem ao totalitarismo da forma espetacular de entretenimento vazio que deve ser o imperativo obedecido em todas as esferas. Os efeitos disso são evidentes, apesar de cinicamente ignorados: o esvaziamento, a superficialidade, a ridicularização, a infantilização do “público”, ganham escala e atualização imprescindíveis. A indústria digital da imbecilização é não só efeito, mas o objetivo final do entretenimento totalitário.
Como na comédia pastiche de 2006, Idiocracy, onde um imbecil médio é congelado por um experimento científico, acordando 500 anos no futuro, onde confronta-se com a imbecilidade geral das massas e, por contraste, parece um gênio, temos hoje a aceleração desse cenário fictício, em uma dimensão que pretende-se cômica mas é cada vez mais trágica, a começar pelo lapso temporal: não foram necessários 500 anos, mas apenas duas décadas de aceleração do complexo digital global para nos encontrarmos às portas do reino da idiotia.
Nossa crítica aqui, todavia, não deve ser lida como uma defesa elitista do pensamento, e sim como um alerta de que, para podermos desfrutar da frivolidade necessária, do humor idiota e da imbecilidade pueril que, por muitas vezes, nos resgata da dimensão acachapante de uma realidade global em vias de colapso (afinal, todos deveriam ter o direito de desfrutar de alguma bobagem ou futilidade vez ou outra), é fundamental reconhecermos que a generalização dessa mesma imbecilidade, por vezes, é o próprio pavimento para o colapso do qual ela supostamente nos alivia.
(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutor em filosofia (UNIFESP), doutorando em psicologia (UFRJ) onde é membro do Laboratório de Psicopatologia Fundamental em Estudos de Subjetividade e Emergência Humanitária. Pesquisa digitalização, tecnologia, teoria do sujeito, crítica da cultura, violência e ideologia; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de coordenador e professor no Centro de Formação, onde encontram-se abertas as inscrições para o curso “Tecnologia entre Filosofia e Psicanálise” (https://www.centroformacao.com/tecnofilopsi).
























